Faz escuro mas eu canto

Itinerância da 34ª Bienal de São Paulo chega ao Espaço Cultural Unifor. A exposição segue até 4 de dezembro em Fortaleza, e foi viabilizada por meio de parceria da Fundação Bienal de São Paulo com a Fundação Edson Queiroz, mantenedora da Universidade de Fortaleza (Unifor). A visitação é gratuita.

Para 2022, as mostras itinerantes da 34ª Bienal de São Paulo foram concebidas a partir de enunciados que são objetos ou elementos imateriais com histórias marcantes ao redor dos quais obras e artistas são reunidos, estimulando leituras a partir de narrativas e não de formulações conceituais fechadas.

Na capital cearense, a exposição será organizada a partir de três enunciados: Cantos Tikmũ’ũnA imagem gravada de Coatlicue e Hiroshima mon amour de Alain Resnais, e terá trabalhos dos seguintes artistas: Alice Shintani, Daiara Tukano, E.B. Itso, Frida Orupabo, Gala Porras-Kim, Gustavo Caboco, Jaider Esbell, Jungjin Lee, Melvin Moti e Victor Anicet.

Serviço

34ª Bienal de São Paulo – Faz escuro mas eu canto
Período expositivo: até 4 de dezembro de 2022
Visitação: de terça a sexta-feira, de 9h às 19h; sábado, domingo e feriados, de 10h às 18h
Local: Espaço Cultural Unifor (Av. Washington Soares, 1321 - Edson Queiroz)
Entrada gratuita e aberta ao público
Mais informações: (85) 3477.3319

 

Os Tikmũ’ũn, também conhecidos como Maxakali, são um povo indígena originário de uma região compreendida entre os atuais estados de Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo. Após inúmeros episódios de violências e abusos, os Tikmũ’ũn chegaram a beirar a extinção nos anos 1940 e foram forçados a abandonar suas terras ancestrais para sobreviver. Os cantos organizam a vida nas aldeias, constituindo quase um índice de todos os elementos que estão presentes em seu cotidiano – plantas, animais, lugares, objetos, saberes – e envolvendo sua rica cosmologia. Grande parte desses cantos, muitas vezes destinados à cura, é executada coletivamente.

No contexto de uma exposição concebida ao redor da necessidade e do poder do canto, tanto num sentido literal quanto metafórico, o exemplo dos Tikmũ’ũn ressoa de modo potente, inclusive do ponto de vista político: em sua prática, o esforço comunitário é constantemente renovado para nomear e assim construir coletivamente um universo. Na itinerância da 34ª Bienal de São Paulo, ao redor desse enunciado agrupam-se obras que têm entre seus disparadores reflexões sobre a necessidade de preservação do meio ambiente e de salvaguarda de culturas e conhecimentos que são transmitidos oralmente de geração em geração, como os próprios cantos Tikmũ’ũn.

Em 13 de agosto de 1790, um grupo de trabalhadores que fazia escavações na Praça Central da Cidade do México descobriu uma estátua, retratada e identificada pelo astrônomo e antropólogo Antonio de León y Gama como Teoyaomiqui. Na verdade, era a deusa Coatlicue, também conhecida como Dama de la Falda de Serpientes [Senhora da saia de serpentes]. Na mitologia asteca, Coatlicue, padroeira da vida e da morte, era a mãe de Huitzilopochtli, deus da terra, e representava a fertilidade.

A descoberta ocorreu durante as obras de construção de um canal de água para abastecer a cidade colonial, erguida sobre a grande Tenochtitlán, antiga capital asteca. Em 1520, quando as hordas espanholas lideradas por Hernán Cortez entraram na cidade, gradualmente subjugando e aniquilando uma das urbes mais prósperas de toda a Mesoamérica, dentre as estratégias utilizadas para desmantelar o império asteca esteve a eliminação de seus símbolos e crenças através da invisibilização e da substituição de imagens e tradições antigas.

O vice-rei Revillagigedo ordenou que Coatlicue fosse levada para a Universidade Real e Pontifícia do México como uma relíquia do passado mesoamericano. Mas, depois de algumas deliberações, as autoridades espanholas decidiram enterrá-la novamente, suspeitando que a senhora da saia de serpentes pudesse desencadear uma revolução. Enterraram-na sob o claustro da universidade, até que, em 1804, um curioso Alexander von Humboldt pediu para vê-la durante sua visita à Nova Espanha. As crônicas narram que o explorador alemão começou a desenhá-la sem, no entanto, completar a ilustração: os religiosos da universidade tornaram a escondê-la sob a terra, talvez temendo que seu poder se tornasse incontrolável, e Humboldt teve que soltar as rédeas de sua imaginação para imortalizar a aura poderosa de Coatlicue em seus esboços.

O que há, de fato, para ver e para entender naquilo que sobrevive às tragédias, aos extermínios de populações e culturas? Diante do trauma inenarrável, o que podem contar um museu, um monumento, uma ruína ou uma cicatriz? “As reconstruções, por falta de outra coisa”, “As explicações, por falta de outra coisa”, “As fotografias, por falta de outra coisa”, diz Ela, a protagonista (francesa) de Hiroshima mon amour, o clássico dirigido por Alain Resnais em 1959, na sequência inicial do filme. Ela se refere ao que encontrou em Hiroshima quase quinze anos após o bombardeamento que vitimou mais de 160 mil pessoas, mas poderia falar também daquilo que é encontrado por quem visita os campos de concentração nazistas, ou mesmo os museus repletos de despojos da colonização. Mas os objetos, as fotografias, as explicações, as reconstruções não são suficientes para entender. Hiroshima mon amour não busca explicar, nem reconstruir, mas apalpar a opacidade e a intraduzibilidade do testemunho.

Como Ela, às vezes nos esforçamos por entender, procuramos nos aproximar de todas as formas possíveis, por todos os ângulos: lemos as explicações, visitamos os destroços, olhamos de novo cada fotografia velha. Mas não. É impossível conhecer Hiroshima, como é impossível compreender outros atos de extrema violência de que é feita nossa história. Nunca poderemos sentir a temperatura do sol sobre a Praça da Paz, mas podemos tentar nos aproximar do indizível, tentar dar forma àquilo que não pode ter nome. A arte é, também, um desses caminhos pelos quais se busca cercar o incompreensível, não o reduzir a explicações, mas dar-lhe contorno, desenhar o alcance daquilo que irradia. Porque a tradução, embora impossível, é, ainda assim, necessária; porque nesse esforço falido aprendemos sobre nossos desejos e medos – o medo que dá não saber, não chegar a entender, ou o medo de nos sabermos capazes de atos que nunca poderemos compreender.

Na itinerância da 34ª Bienal de São Paulo, ao redor desses dois enunciados agrupam-se obras que dialogam com questões como alteridade e opacidade – sendo este último um conceito do autor Édouard Glissant, uma das referências teóricas desta edição da mostra.

Jardim dos Anjos: Francisco de Almeida – 60 anos

Disponíveis para visitação no Espaço Cultural Unifor até 11 de dezembro de 2022, as obras selecionadas para a mostra são um mergulho em 35 anos de produção do xilogravurista cearense e celebra o aniversário de seis décadas de Francisco de Almeida, um artista de técnica incessantemente inovadora que levou a xilogravura a cores, luminosidades e figuras singulares, expressas também em tamanhos gigantes.

As cerca de 60 obras da mostra são um passeio desde os primórdios da carreira nos anos 1960 – quando Francisco de Almeida teve de criar xilogravuras a partir de matrizes feitas até mesmo com sobras de madeira de outros artistas –, passando pelas fases de inspiração mística, religiosa, profana e onírica. O evento exibe ainda alguns dos instrumentos de trabalho, como algumas matrizes de confecção das xilos.

Os trabalhos espalhados em coleções particulares, no Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (MAUC/UFC) e no museu do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza, serão vistos em um só lugar nesta exposição. Entre eles, três pinturas e a xilogravura gigante “Os Quatro Elementos II”, de 2011, com dimensões de 1,50 m por 18 m.

Serviço

Exposição Jardim dos Anjos: Francisco de Almeida – 60 anos
Período expositivo: até 11 de dezembro de 2022
Visitação: de terça a sexta-feira, de 9h às 19h, e sábado, domingo e feriados, de 10h às 18h
Local: Espaço Cultural Unifor (Av. Washington Soares, 1321 - Edson Queiroz)
Entrada gratuita e aberta ao público
Mais informações: (85) 3477.3319

 

Informações para contato

Espaço Cultural Unifor | Visitação de terça a sexta-feira, das 9h às 19h; sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h

  • E-mail de contato: espacocultural@unifor.br
  • Fone de contato: (85) 3477.3319
  • Endereço de contato: Av. Washington Soares, 1321. Bairro Edson Queiroz