Entrevista Nota 10: Lourrany Borges e o protagonismo da Doe de Coração na conscientização sobre a doação de órgãos
seg, 17 agosto 2026 11:55
Entrevista Nota 10: Lourrany Borges e o protagonismo da Doe de Coração na conscientização sobre a doação de órgãos
Líder da campanha Doe de Coração 2026, o médico Lourrany Borges fala sobre o impacto da iniciativa e os principais desafios para os transplantes de órgãos no Brasil

A campanha Doe de Coração, promovida pela Fundação Edson Queiroz, deste ano será lançada no próximo 1º de setembro e chega à sua 24ª edição, consolidada como uma das principais iniciativas de conscientização sobre a doação de órgãos e tecidos no Ceará.
Em 2026, o movimento é coordenado pelo médico, docente e coordenador-adjunto do curso de Medicina da Universidade de Fortaleza (Unifor), Lourrany Borges. Graduado em Medicina pela Universidade Federal do Ceará (UFC), é mestre e doutor em Saúde Pública pela instituição.
Ele possui residência em Medicina de Família e Comunidade pela UFC e pós-graduação em Gestão de Políticas Públicas para HIV/AIDS, Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), Hepatites Virais e Tuberculose pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Também é especialista em Preceptoria em Medicina de Família e Comunidade pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), em parceria com a UNA-SUS.
Entre 2009 e 2011, foi pesquisador bolsista no Centro de Saúde Global do Departamento de Doenças Infecciosas e Saúde Internacional da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos. Atualmente, além da atuação acadêmica, dedica-se à Atenção Primária à Saúde como médico.
Na Entrevista Nota 10 desta semana, Lourrany Borges fala sobre a responsabilidade de assumir a coordenação da Doe de Coração, o impacto da iniciativa na conscientização da população cearense e os desafios enfrentados pelo sistema público de transplantes no Brasil.
Entrevista Nota 10 — O que representa para você assumir a liderança da campanha Doe de Coração da Fundação Edson Queiroz em 2026?
Lourrany Borges — Assumir a liderança da campanha Doe de Coração em 2026 representa uma grande responsabilidade e uma oportunidade de contribuir para uma iniciativa consolidada da Fundação Edson Queiroz, que mobiliza a comunidade acadêmica e a sociedade em torno da doação de órgãos e tecidos. Como médico de família e comunidade e coordenador adjunto do curso de Medicina da Universidade de Fortaleza, compreendo que a promoção da saúde também envolve educação, comunicação e mobilização social. Nesse sentido, meu papel será articular pessoas, conhecimentos e instituições, ampliando o alcance de uma mensagem que pode contribuir para salvar vidas.
Entrevista Nota 10 — O que você diria sobre a importância de as famílias conversarem sobre a decisão de doar órgãos antes de uma situação de perda?
Lourrany Borges — Essa conversa é fundamental porque, diante de uma perda, a família vivencia um momento de intenso sofrimento e precisa tomar decisões complexas. Quando a vontade de ser doador já foi expressa de maneira clara, os familiares têm maior segurança para respeitar essa decisão.
No Brasil, a autorização familiar é necessária para que a doação após a morte seja realizada. Por isso, não basta desejar ser doador: é preciso comunicar esse desejo às pessoas mais próximas. O diálogo prévio transforma uma decisão individual em uma possibilidade concreta de doação.
Entrevista Nota 10 — Como a sua trajetória na Medicina contribuiu para a sua visão sobre a importância da doação de órgãos e dos transplantes?
Lourrany Borges — Durante minha graduação em Medicina na Universidade Federal do Ceará, tive contato, como estudante, com serviços de transplante, principalmente nas áreas renal e hepática.
Naquele período, fui supervisionado por professores de grande referência, alguns dos quais hoje são meus colegas no curso de Medicina da Universidade de Fortaleza. Essa trajetória me permitiu compreender, desde a formação médica, a complexidade do processo de doação e transplante e a importância do trabalho integrado entre profissionais, instituições, pacientes e famílias.
Atualmente, como médico de família e comunidade e coordenador adjunto do curso de Medicina, reconheço também o papel da educação e da comunicação em saúde para ampliar o conhecimento da população, favorecer o diálogo familiar e fortalecer uma cultura de solidariedade em torno da doação de órgãos e tecidos.
Entrevista Nota 10 — Quais são os principais objetivos e a mensagem que a campanha Doe de Coração pretende levar à sociedade neste ano?
Lourrany Borges — A campanha pretende ampliar o acesso a informações claras e confiáveis sobre a doação de órgãos e tecidos, combater dúvidas e mitos, estimular o diálogo entre as famílias e mobilizar a comunidade acadêmica e a sociedade.
Também queremos aproximar a população dos profissionais e das instituições que atuam nessa área, valorizando a experiência dos docentes da Universidade de Fortaleza e dos serviços de saúde do Ceará ligados à doação e aos transplantes.
A mensagem central é que a doação começa com uma conversa. Manifestar esse desejo à família é um gesto simples, mas essencial para que a decisão possa ser conhecida e respeitada. A campanha de 2026 integra a mobilização anual da Fundação Edson Queiroz para conscientizar a comunidade acadêmica e a sociedade sobre a importância da doação de órgãos.
Entrevista Nota 10 — Quais são os principais obstáculos para que esse sistema alcance ainda mais pessoas?
Lourrany Borges — O Brasil tem, de fato, um dos maiores programas públicos de transplantes do mundo. Fechamos 2025 com mais de 31 mil procedimentos, um recorde histórico, com o SUS financiando cerca de 86% de tudo, do exame preparatório à medicação de uso contínuo após a cirurgia, gratuitamente. Ainda assim, havia quase 74 mil pessoas ativas na lista de espera até o fim de 2025. Vejo quatro obstáculos principais.
O primeiro é converter potencial doador em doador efetivo. Isso depende de identificação precoce, diagnóstico oportuno de morte encefálica, manutenção clínica adequada, comunicação acolhedora com a família e, por fim, a autorização. Falha em qualquer elo e a doação se perde. A recusa familiar é o maior desses elos, mas destaco também a subnotificação: muitos doadores em potencial nunca chegam a ser identificados porque o diagnóstico não é feito ou não é comunicado. Isso é formação médica e é responsabilidade direta de quem forma médicos.
O segundo é a desigualdade territorial. Sudeste e Sul concentram cerca de 76% dos procedimentos do país e a maior parte dos centros transplantadores. Dentro do próprio Ceará, o fenômeno se repete: 68% das notificações vêm de Fortaleza e apenas 32% do interior, e das 25 comissões intra-hospitalares instituídas no estado, 17 estão na capital. No interior, a indisponibilidade ou a demora nos exames pode prolongar o diagnóstico, comprometer a manutenção do doador e fazer com que a doação se perca. Por isso, o Plano Estadual prevê ampliar as organizações de procura de órgãos e fortalecer as comissões nas diferentes regiões de saúde. A chance de um brasileiro ser submetido a um transplante ainda depende demais do lugar onde vive.
O terceiro é a logística, que é uma corrida contra o relógio. Depois da autorização, começa uma operação de altíssima complexidade, com órgãos que têm poucas horas de viabilidade e equipes que precisam estar prontas simultaneamente em pontos diferentes. Houve avanços reais: mais de 4,8 mil voos foram realizados no último ano com o apoio de companhias aéreas e da Força Aérea, e o investimento federal no Sistema Nacional de Transplantes chegou a R$ 1,5 bilhão em 2025, 37% a mais do que em 2022. O Ceará deu um passo importante ao realizar, em janeiro deste ano, sua primeira captação de pulmões no interior do estado. Mas ainda precisamos interiorizar todo o processo.
O quarto, menos visível, é o acesso à linha de cuidado completa. O transplante não começa nem termina na cirurgia. O paciente precisa chegar ao serviço especializado, concluir a avaliação pré-transplante, ser inscrito e devidamente acompanhado na lista e, depois do procedimento, ter acesso contínuo a consultas, exames e imunossupressores pelo resto da vida. Uma interrupção nesse acompanhamento pode custar o órgão e a vida. Por isso digo que o desafio não é apenas fazer mais transplantes, mas garantir que essa oportunidade seja equitativa, independentemente da região onde a pessoa nasceu.
Entrevista Nota 10 — O Ceará é reconhecido nacionalmente pelos programas de transplantes. O que isso representa para o estado e para a Universidade de Fortaleza?
Lourrany Borges — Representa a comprovação de que uma política pública bem estruturada salva vidas. O Ceará fechou 2025 com 2.097 transplantes de órgãos e tecidos, superando os 2.060 de 2024, e ocupa a primeira posição do país em transplantes de córnea, com 1.371 procedimentos. Somos o segundo estado brasileiro em transplantes de fígado por milhão de habitantes e o terceiro em transplantes de coração, com uma taxa de 25 doadores efetivos por milhão de habitantes, bem acima da média nacional, que gira em torno de 19 a 20.
Mas prefiro não falar apenas em números, porque eles escondem a complexidade do que os produz. Cada transplante é o resultado de uma longa cadeia: identificar o doador em potencial, confirmar o diagnóstico de morte encefálica, manter clinicamente esse paciente, acolher e entrevistar a família, avaliar a compatibilidade, alocar, retirar, transportar e transplantar. Tudo isso em poucas horas. O Ceará conseguiu organizar essa cadeia por meio da Central Estadual de Transplantes, das comissões intra-hospitalares, das organizações de procura de órgãos, do Hemoce e de hospitais de referência como o Hospital de Messejana e o Hospital Geral de Fortaleza. É competência assistencial, científica e, sobretudo, organizacional.
Para a Universidade de Fortaleza, esse protagonismo é orgulho e responsabilidade na mesma medida. Vários professores do nosso curso de Medicina atuam ou já atuaram diretamente nessa rede: em transplante renal, cardíaco e de córnea, em hematologia, em imunologia e em histocompatibilidade, e trazem essa vivência para a sala de aula e para os cenários de prática. Nossos estudantes discutem o tema em módulos do nosso currículo e em atividades extracurriculares organizadas pelas ligas acadêmicas.
Quando a Fundação Edson Queiroz sustenta uma campanha como a Doe de Coração há mais de duas décadas, a Universidade deixa de ser apenas formadora e passa a ser agente ativa dessa política pública. É a responsabilidade social saindo do discurso e virando vida.
Entrevista Nota 10 — Que mensagem você gostaria de deixar para quem deseja ser doador, mas ainda não conversou com a própria família sobre esse assunto?
Lourrany Borges — Não adie essa conversa. Escolha um momento tranquilo, manifeste sua vontade com clareza e permita que sua família conheça os motivos da sua decisão.
Falar sobre doação de órgãos não é falar apenas sobre a morte. É falar sobre solidariedade, responsabilidade e possibilidade de continuidade da vida. Uma conversa realizada hoje pode ajudar sua família a respeitar sua vontade no futuro e pode representar uma nova oportunidade para muitas pessoas.