seg, 10 agosto 2026 17:28
Entrevista Nota 10: Liana Feingold e a missão de revitalizar espaços coletivos
Arquiteta urbanista e professora da Pós-Unifor defende a requalificação de espaços a partir da escuta ativa da comunidade

A relação de Liana Feingold com a Arquitetura e o Urbanismo começou ainda na infância, influenciada pelo ambiente familiar. Graduada pela Universidade de Fortaleza (Unifor), da Fundação Edson Queiroz, construiu uma trajetória marcada pela atuação em projetos de relevância social, a partir da associação entre arquitetura, sustentabilidade e qualidade de vida.
Professora da Especialização em Arquitetura e Projeto Sustentável da Unifor, Liana é especialista em Neuroarquitetura pelo Insper e em Urbanismo Social pelo Instituto de Pós-Graduação e Graduação (IPOG). A formação ampliou seu repertório para compreender como os espaços interferem nas experiências humanas e como a arquitetura pode contribuir para cidades mais inclusivas.
Em 2009, ao lado da arquiteta e professora Laura Rios, também da Especialização em Arquitetura e Projeto Sustentável, fundou o Ateliê Estar Urbano, empresa de arquitetura e urbanismo que atua com técnicas projetuais e construtivas voltadas à transformação social. O escritório trabalha com acupuntura urbana, neuroarquitetura, biofilia e metodologias participativas, além de desenvolver projetos em parceria com comunidades, empresas e Poder Público.
Ao longo de sua trajetória, Liana acumulou experiências em diferentes frentes, incluindo participações na CasaCor Ceará, com oito premiações, além de projetos de ruas compartilhadas, mobiliários urbanos e intervenções em espaços públicos. O Estar Urbano também é cofundador da Rede Brasileira de Urbanismo Social e desenvolve ações baseadas na metodologia “Sentir, Projetar, Realizar e Conectar”.
É nesse encontro entre arquitetura, urbanismo e compromisso social que se insere o Território Vivo, projeto desenvolvido desde 2025 por alunos da especialização em Arquitetura e Projeto Sustentável, em parceria com o Instituto Escolhi Amar, o Estar Urbano e a Associação Comunitária do Conjunto São Vicente de Paulo.
Atualmente, a iniciativa promove a requalificação da Comunidade São Vicente de Paula, conhecida como Comunidade das Quadras, na Aldeota, em Fortaleza. Construído a partir da escuta ativa dos moradores, o projeto reúne intervenções de baixo custo e impacto social, com propostas como murais, sinalização comunitária, espaços lúdicos, horta, farmácia viva, mobiliário urbano e melhorias na cozinha comunitária.
Nesta Entrevista Nota 10, Liana Feingold revisita sua trajetória na Arquitetura e no Urbanismo, comenta a experiência à frente do Ateliê Estar Urbano e fala sobre a atuação docente na especialização em Arquitetura e Projeto Sustentável.
Leia a entrevista na íntegra a seguir.
Entrevista Nota 10 — A sua história com a profissão começou ainda na infância por incentivo de seu pai arquiteto. Considera que a influência familiar foi o fator determinante para escolher a Arquitetura e Urbanismo lá em 1998?
Liana Feingold — Sim. A família sempre nos inspira e, no meu caso, ela foi esse solo fértil para criar, inventar e experimentar. Sempre tive muito incentivo dentro de casa e também na escola.
Para mim, arquitetura nunca parecia um trabalho, mas algo prazeroso de fazer. Observar meu pai exercendo a profissão e acompanhar o lado artístico da minha mãe, que gostava de organizar festas e cuidar da casa, despertou naturalmente esse interesse.
Acredito que esse ambiente favoreceu minha inspiração e minha liberdade de escolha. Os caminhos vão sendo amadurecidos ao longo da vida, mas, no meu caso, essa inspiração inicial veio, sem dúvida, da família.
Entrevista Nota 10 — A sua atuação na área começou durante a graduação, de 1998 a 2005. Desde então, constrói uma carreira marcada pela atuação em iniciativas com viés social, como o projeto Território Vivo. De que forma a Universidade contribuiu para você ser uma profissional com olhar aguçado para o social?
Liana Feingold — A universidade foi um grande laboratório de experimentação, criatividade e trocas. Durante a graduação, viajei para diversos estados brasileiros para participar de congressos e encontros de Arquitetura, onde conheci estudantes de diferentes regiões do país. Naquela época, as redes sociais ainda estavam começando, então esses encontros presenciais tinham um valor enorme.
Neles, sempre discutíamos uma questão que permanece muito atual: como tornar a Arquitetura e o Urbanismo acessíveis para todos em um país onde esse acesso ainda é tão restrito. Desde que me formei, construí uma carreira baseada na criatividade, no compromisso ambiental e social. Meu escritório sempre atendeu empresas e clientes que podiam investir em projetos, mas uma inquietação permanecia: como levar arquitetura de qualidade para quem mais precisa?
A pandemia reforçou ainda mais essa reflexão. Ela mostrou que a qualidade dos espaços onde vivemos afeta toda a sociedade. Essa preocupação me levou a buscar um equilíbrio entre a sustentabilidade financeira do escritório e o compromisso de desenvolver projetos que também beneficiassem comunidades que não têm condições de contratar um arquiteto.
Entrevista Nota 10 — Em que momento decidiu abraçar a missão de revitalizar espaços públicos?
Liana Feingold — O interesse pelo urbanismo sempre esteve presente desde a graduação. Muitos estudantes desejam atuar nessa área, mas nem sempre encontram oportunidades imediatas. Por isso, grande parte inicia a carreira em áreas mais acessíveis, como projetos residenciais, interiores e reformas, o que também faz parte do processo de formação profissional.
Depois de muitos anos atuando no mercado, percebi que Fortaleza vivia um momento em que as pessoas estavam cada vez mais isoladas e inseguras em relação aos espaços públicos. Ao mesmo tempo, crescia a cobrança por ações do Poder Público que estimulassem o convívio e a ocupação da cidade.
Diversos estudos mostram que ruas bem ocupadas e espaços públicos ativos contribuem diretamente para a segurança urbana. Sempre me incomodou ouvir pessoas elogiarem cidades europeias porque era possível caminhar, encontrar pessoas e usufruir dos espaços públicos, quando Fortaleza possui um clima extremamente favorável para isso.
Foi a partir dessa inquietação que passamos a enxergar a cidade como um laboratório vivo, onde projetos e intervenções poderiam ser testados, avaliados e aperfeiçoados. Muitas dessas experiências dialogaram com o Poder Público, contribuindo inclusive para regulamentações que permitiram que outras pessoas também desenvolvessem iniciativas semelhantes.
Entrevista Nota 10 — Ainda sobre a requalificação de espaços públicos. Para promover uma ação é necessário haver liberação por parte do Poder Público? Se a resposta for afirmativa, pode escolher o processo de maneira detalhada?
Liana Feingold — Depende da dimensão da intervenção. Em muitos casos, é importante dialogar com a Regional responsável pela área onde a ação será realizada. Em comunidades com infraestrutura bastante precária, esse diálogo também ajuda a adequar as propostas à realidade local.
Em projetos desenvolvidos em bairros como Cidade 2000 e Praia de Iracema, por exemplo, contamos com apoio do Poder Público e de outras instituições que já atuavam nesses territórios. O diálogo entre comunidade, empresas, sociedade civil e governo sempre fortalece as iniciativas e permite identificar objetivos em comum.
Também é importante compreender que a legislação precisa acompanhar as transformações da cidade. Muitas vezes, novas demandas exigem novas formas de atuação e acabam impulsionando mudanças legais.
As práticas de urbanismo tático demonstram isso. Inclusive, a própria Prefeitura de Fortaleza já utilizou essa metodologia para testar intervenções antes de investir em obras definitivas. Trata-se de uma estratégia inteligente, democrática e que permite ouvir a população antes da implantação permanente de um projeto.
Entrevista Nota 10 — De que forma se dá a escolha do local para requalificação urbana e quais etapas compõem a ação?
Liana Feingold — Os projetos surgem a partir das demandas que chegam ao Ateliê Estar Urbano e à pós-graduação. Comunidades, comerciantes, representantes da sociedade civil e até o Poder Público nos procuram em busca de soluções para melhorar a qualidade de vida, qualificar espaços públicos e fortalecer a convivência.
Recebemos solicitações de diferentes naturezas: comunidades que desejam transformar seus territórios, comerciantes interessados em ativar ruas e estimular a permanência de pessoas, além de moradores que identificam problemas ou oportunidades de melhoria em seus bairros. Ao longo dessas experiências, desenvolvemos uma metodologia própria que organiza todas as etapas do processo e facilita tanto a execução quanto a avaliação dos resultados.
A metodologia é composta por quatro etapas: Sentir, Projetar, Realizar e Conectar. A etapa “Sentir" consiste na escuta ativa da comunidade. É nesse momento que buscamos compreender as reais necessidades do território, pois um projeto só será sustentável se responder às demandas de quem vive naquele espaço.
Na etapa “Projetar”, as soluções são desenvolvidas com responsabilidade ambiental, utilizando materiais acessíveis, duráveis e que reduzam impactos ao meio ambiente. Em seguida vem o “Realizar”, quando o projeto é implantado com respeito à vizinhança, ao entorno e às técnicas construtivas adequadas, garantindo que a execução esteja alinhada ao que foi planejado.
Por fim, o “Conectar” representa o acompanhamento pós-ocupação. É o momento de observar como o espaço passou a ser utilizado, coletar indicadores, mensurar resultados e identificar possíveis ajustes. Chamamos essa etapa de "Conectar" porque entendemos que as relações entre pessoas e cidade estão sempre se transformando.
Entrevista Nota 10 — A metodologia está aplicada ao projeto Território Vivo, formada pelos seus alunos da especialização em Arquitetura e Projeto Sustentável. Atualmente, a iniciativa promove a requalificação da Comunidade das Quadras e isso certamente trará inúmeros benefícios à comunidade local. Entre os benefícios, quais considera principais?
Liana Feingold — A Comunidade das Quadras já recebeu duas turmas da pós-graduação, e cada uma identificou novas demandas. Na primeira etapa, os estudantes propuseram uma feira comunitária para incentivar pequenos negócios, fortalecer a economia local e aproximar a comunidade do restante da cidade.
Também foram realizadas intervenções de baixo custo, como pinturas, soluções de sombreamento e melhorias nos espaços coletivos, buscando tornar o ambiente mais confortável para os moradores.
Na etapa mais recente, surgiram novas prioridades, como a criação de uma cozinha comunitária que permita ampliar a produção de alimentos e receber visitantes interessados em conhecer o trabalho desenvolvido pela associação.
O principal objetivo é criar espaços que fortaleçam a autonomia financeira da comunidade. Quanto mais oportunidades de geração de renda existirem, menor será a dependência de doações e maior será a capacidade de desenvolver novos projetos.
Outro avanço importante foi a implantação de uma fábrica comunitária na sede da associação. Um grupo de mulheres passou por capacitação para transformar resíduos plásticos em móveis, como mesas e cadeiras, e agora trabalha no desenvolvimento de novas linhas de produtos com foco em design e inovação. Além de reduzir resíduos, a iniciativa fortalece a economia local e amplia as possibilidades de geração de renda para a comunidade.
Entrevista Nota 10 — A exemplo do projeto Território Vivo, a especialização reúne diferentes perspectivas sobre sustentabilidade, unindo aspectos ambientais, tecnológicos e sociais. Quais são os principais temas e experiências que o curso proporciona aos alunos?
Liana Feingold — A especialização em Arquitetura e Projeto Sustentável reúne diferentes perspectivas sobre sustentabilidade. Além do conteúdo técnico, o curso aproxima os alunos das demandas do mercado e da realidade social.
A pós-graduação promove visitas técnicas a experiências de bioconstrução, arquitetura vernacular e uso de materiais naturais, valorizando conhecimentos tradicionais e soluções que reduzam os impactos ambientais. Todo esse conteúdo está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.
Ao mesmo tempo, o curso discute tecnologias, criatividade e inovação, sempre associadas ao compromisso ambiental e à equidade social. Afinal, não é possível falar em sustentabilidade sem considerar que grande parte da população ainda vive em condições inadequadas de moradia.
Outro aspecto importante é a mensuração dos resultados. Hoje não basta afirmar que um projeto é sustentável. É preciso apresentar indicadores que comprovem esse compromisso e demonstrem os impactos gerados para os clientes, para a sociedade e para o meio ambiente. Esse é um dos temas centrais discutidos ao longo da especialização.
Entrevista Nota 10 — Você e a arquiteta Laura Rios fundaram o ateliê Estar Urbano em 2009. Como se deu o nascimento da empresa? E hoje depois de 17 anos de atuação no mercado, qual avaliação você faz sobre esse ateliê, que representa um propósito de vida?
Liana Feingold — São 17 anos marcados por diferentes fases e muito aprendizado. Minha parceria com Laura começou ainda na Universidade, quando percebemos que compartilhávamos a mesma forma de pensar arquitetura, sempre baseada na criatividade, na pesquisa e no diálogo.
Ao longo dos anos, crescemos juntas porque aprendemos continuamente com cada projeto, com os profissionais da equipe, com os alunos e com as comunidades onde atuamos. A experiência trouxe maturidade, mas também a certeza de que nunca estamos prontos. Para mim, maturidade significa compreender que sempre existe algo novo para aprender e que cada projeto exige um olhar renovado.
Por isso, evitamos chegar a um território com soluções prontas. Cada comunidade possui características e necessidades próprias. Mesmo quando alguns desafios são semelhantes, é preciso escutar, compreender e construir respostas coletivamente. Essa disposição para aprender continuamente e para atuar com sensibilidade talvez seja o maior propósito que o Estar Urbano representa.
Entrevista Nota 10 — À frente do Estar Urbano, você assinou projetos para grandes empresas e como resultado foi agraciada com oito premiações no evento Casa Cor Ceará. O que sente ao olhar a própria trajetória e ver que alcançou tanto protagonismo na profissão?
Liana Feingold — O que mais me gratifica é poder dialogar com diferentes universos. A CasaCor representa um espaço importante de inovação e lançamento de tendências, mas também fico feliz quando essa visibilidade contribui para fortalecer projetos de impacto social, como os desenvolvidos nas comunidades.
É muito significativo perceber que esses diferentes contextos podem conversar entre si. A mesma arquitetura que está presente em uma mostra pode servir para ampliar o olhar sobre sustentabilidade, inclusão e transformação social.
Procuro levar para esses ambientes temas que fazem parte da minha atuação profissional, como sustentabilidade, economia circular, valorização da cultura local, do artesanato e dos materiais produzidos na nossa região. No último ano, por exemplo, utilizamos pisos produzidos a partir da reciclagem de pneus, demonstrando que soluções sustentáveis podem ser duráveis, inovadoras e esteticamente relevantes.
Outro conceito que orienta nosso trabalho é a neuroarquitetura. Buscamos criar espaços que proporcionem experiências sensoriais positivas, permitindo que cada pessoa vivencie o ambiente de maneira única. As especializações em Neuroarquitetura e Urbanismo Social ampliaram meu repertório e fortaleceram essa forma de enxergar os projetos, sempre conciliando criatividade, sustentabilidade e bem-estar.
Entrevista Nota 10 — Quando recebeu o convite para integrar o corpo docente da Especialização em Arquitetura e Projeto Sustentável e de que forma sua trajetória profissional contribui para a formação de outros arquitetos?
Liana Feingold — Minha trajetória na docência começou há cerca de dez anos, mas comecei na Pós-Unifor em 2019. Antes da pós-graduação, também lecionei na graduação em diferentes cidades, e foi nesse período que descobri o quanto ensinar também significa aprender continuamente.
Na graduação, compartilhamos experiências que contribuem para a formação dos futuros profissionais. Já na pós-graduação, o diálogo acontece entre arquitetos que já atuam no mercado e trazem suas próprias vivências para a sala de aula.Essa troca é extremamente enriquecedora. Ao mesmo tempo em que apresentamos novos conceitos e metodologias, também aprendemos com as experiências dos alunos.
É gratificante perceber quando um profissional amplia seu repertório e passa a enxergar novas possibilidades de atuação, seja por meio da neuroarquitetura, das estratégias biofílicas ou de outras abordagens discutidas durante o curso. Além de ensinar técnicas, busco estimular uma forma de projetar pautada pelo propósito, pela responsabilidade ambiental, pelo respeito às pessoas e pela consciência sobre os impactos que a arquitetura produz na sociedade.