Entrevista Nota 10: Augusto Carioca e a união entre ciência e impacto social como pilar da saúde coletiva
seg, 21 setembro 2026 11:57
Entrevista Nota 10: Augusto Carioca e a união entre ciência e impacto social como pilar da saúde coletiva
Docente inicia trajetória como coordenador do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Unifor com o propósito de aliar produção científica e relevância para a sociedade

O professor Augusto Carioca atua na Universidade de Fortaleza (Unifor) — da Fundação Edson Queiroz — desde 2017, mas neste semestre vive um novo capítulo de sua história na instituição de ensino. Isso porque abraça a missão de coordenar o Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (PPGSC).
Ele inicia a gestão com o desafio de dar continuidade a uma construção coletiva e definir as prioridades para os próximos anos. Entre os tópicos principais estão o fortalecimento da produção científica, da internacionalização e das redes de colaboração. O novo coordenador também visa ampliar a aproximação entre a pós-graduação, os serviços de saúde e as políticas públicas, além de atualizar a formação oferecida aos pós-graduandos.
Graduado em Nutrição pela Universidade Estadual do Ceará (Uece), Augusto é mestre em Ciências e doutor em Nutrição em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP). Sua formação acadêmica acompanha uma trajetória dedicada à pesquisa e à compreensão dos fatores que influenciam a saúde das populações.
Na área científica, o docente desenvolve estudos em Epidemiologia Social e Nutricional, com foco em consumo e comportamento alimentar, desigualdades sociais e iniquidades em saúde. Também coordena o Laboratório de Estudos sobre Epidemiologia Social e Nutricional (Leson) e lidera o grupo de pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em Epidemiologia e Saúde Coletiva.
Além de coordenador e professor do PPGSC, Augusto leciona na graduação em Nutrição da Unifor — formação, aliás, em que ministra disciplinas desde o início da jornada na instituição. O docente atua ainda em cursos de pós-graduação da Uece e possui bolsa de pesquisa do CNPq.
Nesta Entrevista Nota 10, o nutricionista fala sobre os desafios da nova coordenação, a importância da interdisciplinaridade e os aprendizados deixados pelas recentes crises sanitárias. Ele também aborda inovação, pesquisa, formação acadêmica e o papel da saúde coletiva na construção de respostas para os problemas da população.
Leia a entrevista na íntegra a seguir.
Entrevista Nota 10 — Quais são as prioridades da nova coordenação do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Unifor e que avanços projeta implementar nos próximos anos?
Augusto Carioca — Assumir a coordenação do PPGSC é, ao mesmo tempo, dar continuidade a uma trajetória construída coletivamente e pensar nos próximos passos do Programa. Uma das nossas principais prioridades é fortalecer a identidade do PPGSC como um programa interdisciplinar, conectado aos grandes desafios contemporâneos da saúde coletiva e comprometido com a produção de conhecimento que tenha relevância científica e impacto social.
Para os próximos anos, queremos avançar na qualificação da produção científica, na internacionalização, na ampliação das redes de colaboração e na aproximação ainda maior com os serviços de saúde e com as políticas públicas. Também estamos discutindo a atualização da nossa matriz curricular, incorporando temas emergentes, como:
- epidemiologia social,
- ciência da implementação,
- integridade acadêmica,
- divulgação científica,
- equidade em saúde,
- saúde de populações historicamente vulnerabilizadas,
- novas abordagens quantitativas e qualitativas.
Outro ponto fundamental é fortalecer a experiência dos nossos estudantes. Queremos um Programa no qual mestrandos e doutorandos encontrem oportunidades de formação, pesquisa, extensão, inovação e inserção em redes nacionais e internacionais. Mais do que indicadores acadêmicos, nosso objetivo é consolidar um ambiente intelectual colaborativo e capaz de formar pessoas que produzam ciência relevante para a sociedade.
Entrevista Nota 10 — O campo da Saúde Coletiva compreende o processo saúde-doença a partir de fatores sociais, econômicos e ambientais. Como essa perspectiva amplia a formação dos profissionais e quais competências são essenciais para atuar nessa área?
Augusto Carioca — Uma das grandes contribuições da Saúde Coletiva é justamente mostrar que saúde não pode ser compreendida apenas a partir da doença ou do indivíduo. Onde uma pessoa nasce, mora, trabalha, estuda, se alimenta e envelhece, assim como sua renda, gênero, raça, condições ambientais e acesso às políticas públicas, influencia profundamente suas oportunidades de viver com saúde.
Essa perspectiva amplia muito a formação profissional porque exige que o estudante consiga transitar entre diferentes campos do conhecimento. É necessário compreender epidemiologia e métodos de pesquisa, mas também políticas públicas, planejamento, gestão, ciências sociais e humanas e os determinantes sociais e ambientais da saúde.
Por isso, considero essenciais competências como pensamento crítico, capacidade de analisar dados e evidências científicas, compreensão das desigualdades e iniquidades em saúde, trabalho interdisciplinar e capacidade de diálogo com gestores, profissionais, comunidades e formuladores de políticas. Não basta produzir evidência; é preciso compreender o contexto em que ela será utilizada e desenvolver capacidade para transformar conhecimento em ação.
Entrevista Nota 10 — O PPGSC reúne estudantes com trajetórias acadêmicas e profissionais diversas. De que maneira essa pluralidade contribui para a produção de conhecimento e para a construção de respostas mais integradas aos desafios da saúde da população?
Augusto Carioca — Essa diversidade é uma das maiores riquezas da Saúde Coletiva. Em uma mesma turma podemos ter profissionais de diferentes áreas da saúde, educação e também de outros campos do conhecimento, com experiências em assistência, gestão, pesquisa, docência e políticas públicas.
Quando colocamos essas trajetórias em diálogo, um mesmo problema passa a ser observado sob diferentes perspectivas. Uma questão que inicialmente parece estritamente clínica pode revelar dimensões sociais, territoriais, econômicas, ambientais ou relacionadas à organização dos serviços de saúde.
Essa pluralidade também melhora a própria produção científica. Os estudantes aprendem a formular perguntas mais complexas, trabalhar de maneira interdisciplinar e reconhecer que problemas complexos dificilmente são solucionados por uma única profissão ou disciplina. É exatamente esse tipo de diálogo que precisamos estimular para enfrentar os desafios atuais da saúde da população.
Entrevista Nota 10 — As recentes crises sanitárias evidenciaram a importância da ciência, da gestão e das políticas públicas em saúde. Quais aprendizados desse período ainda orientam as pesquisas e as discussões desenvolvidas no programa?
Augusto Carioca — As crises sanitárias recentes deixaram muitos aprendizados. Um deles foi tornar ainda mais evidente que ciência, gestão e políticas públicas precisam caminhar juntas. Produzir conhecimento rapidamente foi fundamental, mas também foi necessário transformar evidências em decisões, organizar serviços, comunicar riscos e construir respostas capazes de alcançar populações muito diferentes.
Outro aprendizado importante foi perceber que uma crise sanitária não atinge todas as pessoas da mesma maneira. Condições de moradia, trabalho, renda, alimentação, acesso aos serviços de saúde e proteção social influenciam tanto a exposição aos riscos quanto a capacidade de enfrentá-los.
Essas questões permanecem muito presentes nas pesquisas do PPGSC. Discutimos vigilância em saúde, desigualdades sociais, saúde mental, alimentação e nutrição, organização dos serviços, políticas públicas, comunicação científica e uso de dados para tomada de decisão. Talvez uma das principais lições seja justamente esta: sistemas de saúde resilientes dependem de ciência de qualidade, vigilância permanente, políticas públicas consistentes e capacidade de responder às desigualdades existentes na sociedade.
Entrevista Nota 10 — Como o PPGSC articula ensino, pesquisa, extensão e inovação, especialmente em parceria com a Diretoria de Tecnologia (DTec), para transformar resultados científicos em produtos, ferramentas e soluções aplicáveis à sociedade?
Augusto Carioca — Temos procurado trabalhar com a ideia de que uma pesquisa não precisa terminar na publicação de um artigo científico. O artigo é fundamental para comunicar o conhecimento produzido, mas determinados resultados podem e devem gerar outras formas de impacto.
É nesse sentido que a integração entre ensino, pesquisa, extensão e inovação se torna estratégica. Uma dissertação ou tese pode resultar, por exemplo, em materiais educativos, protocolos, indicadores, painéis de monitoramento, instrumentos de avaliação, tecnologias digitais ou ferramentas de apoio à decisão.
A aproximação com a DTec amplia essas possibilidades porque permite reunir a expertise dos pesquisadores em saúde coletiva com competências tecnológicas necessárias para transformar uma ideia ou evidência científica em uma solução aplicável. Queremos fortalecer cada vez mais essa cultura no PPGSC: identificar, desde o desenho dos projetos, quais resultados podem ser traduzidos em produtos e tecnologias úteis aos serviços, gestores, profissionais e à população.
Entrevista Nota 10 — O Ambulatório da Dor e o Laboratório de Estudos sobre Epidemiologia Social e Nutricional (Leson) aproximam a pós-graduação de demandas concretas da população. Qual é a importância desses espaços para a formação dos estudantes e para o impacto social das pesquisas?
Augusto Carioca — O Ambulatório da Dor, coordenado pela professora Ana Paula Abdon, é um exemplo muito importante de como o PPGSC consegue aproximar ensino, pesquisa e cuidado das necessidades concretas da população. É uma iniciativa que demonstra, na prática, como a Universidade pode produzir conhecimento e, ao mesmo tempo, oferecer respostas a problemas relevantes de saúde.
A dor, especialmente quando crônica, é um fenômeno complexo e não pode ser compreendida apenas pela dimensão biológica. Ela envolve aspectos sociais, emocionais, econômicos, ocupacionais e relacionados às condições de vida. Por isso, o trabalho desenvolvido no Ambulatório dialoga diretamente com a perspectiva interdisciplinar da saúde coletiva.
Para os nossos estudantes, essa experiência permite compreender os problemas de saúde a partir da realidade das pessoas, formular perguntas de pesquisa socialmente relevantes e perceber como os resultados científicos podem retornar à população e contribuir para qualificar o cuidado.
Esse é um aspecto que queremos fortalecer no PPGSC: criar cada vez mais pontes entre aquilo que pesquisamos e as necessidades da sociedade. O trabalho coordenado pela professora Ana Paula no Ambulatório da Dor materializa muito bem essa proposta, integrando formação, produção de conhecimento e impacto social.
Entrevista Nota 10 — A partir das experiências dos mestrandos, percebe-se que o programa também promove colaboração, autonomia e mudanças na prática profissional. Como o senhor avalia essa relação entre a formação acadêmica e a transformação das trajetórias dos estudantes?
Augusto Carioca — A pós-graduação transforma não apenas a capacidade de fazer pesquisa, mas também a maneira como o profissional observa e interpreta a realidade. Ao longo do mestrado ou doutorado, o estudante aprende a questionar, buscar evidências, reconhecer limitações, construir argumentos e tomar decisões de forma mais crítica.
Essa autonomia intelectual é uma das principais entregas de uma formação stricto sensu. E ela não precisa resultar necessariamente em uma carreira exclusivamente acadêmica. Um egresso que retorna a um serviço de saúde, à gestão pública, à assistência, à docência ou a uma organização da sociedade leva consigo novas ferramentas para compreender problemas e propor soluções.
Ao mesmo tempo, procuramos estimular uma ciência colaborativa. A pesquisa contemporânea é cada vez menos uma atividade individual. Ela depende de grupos, redes e diferentes competências. Por isso, queremos formar profissionais que tenham autonomia intelectual, mas que saibam trabalhar coletivamente, compartilhar conhecimento e construir parcerias.
Entrevista Nota 10 — Considerando os desafios atuais da saúde coletiva, que perfil de profissional o PPGSC pretende formar e de que maneira seus mestres e doutores podem contribuir para o SUS, as políticas públicas e a melhoria da qualidade de vida?
Augusto Carioca — Queremos formar mestres e doutores com sólida formação científica, pensamento crítico, compromisso ético e sensibilidade para reconhecer as desigualdades que estruturam o processo saúde-doença. Profissionais capazes de produzir conhecimento rigoroso, mas também de dialogar com a sociedade e compreender as necessidades dos territórios e dos serviços.
Isso envolve domínio de métodos de pesquisa, capacidade de analisar criticamente evidências e dados, compreensão do SUS e das políticas públicas, trabalho interdisciplinar e habilidade para transformar conhecimento científico em propostas de intervenção.
Acredito que nossos egressos podem contribuir em muitos espaços: universidades, serviços de saúde, gestão municipal, estadual e federal, organizações da sociedade civil, instituições de pesquisa e organismos nacionais e internacionais. Independentemente do espaço de atuação, esperamos que carreguem uma característica comum: a capacidade de fazer boas perguntas, produzir e interpretar evidências e utilizá-las para enfrentar problemas concretos.
No fim, essa é uma das missões fundamentais da Saúde Coletiva e também do nosso Programa: formar pessoas capazes de produzir conhecimento que contribua para reduzir iniquidades, fortalecer o SUS e melhorar as condições de vida e saúde da população.