Entrevista Nota 10: Jacqueline Holanda e o patrimônio histórico como memória e oportunidade de mercado
seg, 28 setembro 2026 11:48
Entrevista Nota 10: Jacqueline Holanda e o patrimônio histórico como memória e oportunidade de mercado
Docente da Especialização em Patrimônio e Restauro da Unifor analisa a importância da preservação cultural, mapeia o mercado de trabalho na área e apresenta os diferenciais da formação na Universidade

Ao circular por ruas, avenidas e espaços públicos, é possível descobrir partes da identidade de uma cidade e sua população estampadas nas fachadas históricas. Seja pelo estilo arquitetônico, pelas origens da construção ou pelo afeto saudoso de quem ali compartilhou experiências únicas, os prédios antigos são símbolos guardiões da memória de um povo e da construção do próprio presente. Por isso, a conservação de espaços como esses é tão importante.
Para a arquiteta Jacqueline Holanda — docente do curso de Arquitetura e Urbanismo e da Especialização em Patrimônio e Restauro da Universidade de Fortaleza (Unifor), instituição da Fundação Edson Queiroz —, memória, história e identidade são elementos que se relacionam essencialmente. No entanto, para compreender o que representa essa identidade, é necessário o conhecimento sobre nossa própria cultura material e imaterial.
“O resultado da falta desse conhecimento se reflete na incapacidade de citar e afirmar o valor dos nossos bens culturais e patrimoniais, permitindo que muitos desrespeitem, vandalizem e destruam, sem reflexão nem remorso. Uma educação patrimonial mais efetiva é uma necessidade urgente hoje e perpassa a necessidade da valorização, do orgulho e da autoestima pelo que somos e já fomos capazes de criar e construir”, reflete.
A demanda por conhecimento qualificado perpassa especialmente a formação de profissionais que atuam na conservação e no restauro desses patrimônios físicos. De arquitetos e engenheiros, passando por turismólogos, historiadores e museólogos, até advogados, jornalistas, artistas e pedagogos — a expertise de cada um se expande com a capacitação direcionada para a área. O mercado de trabalho, inclusive, tem se transformado e aberto portas.
“O fato de estarmos diante de uma mudança de cenário local, mesmo que ainda lenta, com relação ao reconhecimento e à valorização do patrimônio, revela uma demanda a ser atendida, o que pode ser compreendido como uma oportunidade para a inserção em um espaço que expõe cada vez mais a carência de profissionais qualificados”, analisa Jacqueline.
Especialista em Metodologia do Ensino da Arte e mestre em Educação pela Universidade Estadual do Ceará (Uece), a docente realizou um curso de Museologia, na Universidade de Lisboa (ULisboa). Possui experiência na área de arquitetura, urbanismo, patrimônio cultural, artes e educação, tendo atuado como docente em várias instituições de ensino superior.
Presidente e membro fundadora da Academia Cearense de Artes, Jacqueline também ministra aulas na Especialização em Arteterapia e Arte-Educação da Pós-Unifor. Na Entrevista Nota 10, ela fala sobre patrimônio histórico e cultural, o mercado de trabalho na área e os diferenciais da Especialização em Patrimônio e Restauro da Unifor.
Leia a entrevista na íntegra a seguir.
Entrevista Nota 10 — Recentemente, tivemos em Fortaleza o episódio da estátua da Sagrada Família, que acabou caindo durante a retirada do prédio da antiga Escola Jesus, Maria e José. Como especialista, qual a sua leitura desse caso? O que perdas como essa revelam sobre o estágio atual das nossas políticas de conservação e gestão de patrimônio?
Jacqueline Holanda — Atualmente, é possível vislumbrar uma perspectiva cada vez mais positiva para o crescimento da área do patrimônio em nosso estado, especialmente se compararmos com o cenário de 15 ou 20 anos atrás. São mudanças muito recentes e que vêm se processando lentamente, mas já é possível perceber que os fatos relativos a esse tema têm obtido cada vez mais repercussão e uma difusão que antes não se via.
A comoção gerada pelo acidente na retirada da escultura na Escola Jesus, Maria e José é prova disso. Até pouco tempo, fatos como esse mal eram divulgados e a prática de multas e outras punições previstas em lei para crimes contra o patrimônio cultural eram, muitas vezes, omitidas ou esquecidas. A própria criação do Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Histórico-Cultural de Fortaleza (COMPHIC) é, sob ponto de vista histórico, muito recente, datando de 2008.
Temos tido cada vez mais cobranças e ações nesse sentido por parte dos órgãos responsáveis, gerando demandas, como o edital para seleção de projetos voltados à realização de estudos, levantamentos e elaboração de laudos técnicos sobre imóveis tombados no município. [Tudo isso] agora, em 2025, o que mobilizou a concorrência entre vários interessados.
A previsão é que cada vez mais oportunidades como essa surjam e que os profissionais dedicados ao patrimônio cultural se qualifiquem e se especializem para o bom atendimento destas demandas.
Entrevista Nota 10 — Vivemos em cidades que muitas vezes priorizam o novo. Diante disso, qual é o principal argumento para mostrar à sociedade que preservar o patrimônio é vital? Como a educação patrimonial ajuda nessa conscientização?
Jacqueline Holanda — A composição da nossa identidade pode se processar de forma individual e coletiva. Memória, história e identidade são elementos que se relacionam essencialmente. Um exemplo de identidade coletiva que podemos dividir é nossa identidade como cearenses.
Mas para compreender o que representa essa identidade, é necessário o conhecimento sobre nossa própria cultura material e imaterial, em suas manifestações eruditas e populares. Infelizmente, de modo geral, nossos conterrâneos ainda têm expressado ausência de conhecimentos sobre nossas manifestações culturais e nossa trajetória histórica como povo, que é a base do estabelecimento de qualquer cultura e que encontra reflexo na apropriação do espaço, como território.
Não possuirmos esses conhecimentos em nossa memória dificulta a consolidação do respeito por nosso legado histórico e patrimonial, seja na valorização de manifestações como o Reisado, a confecção tradicional da rabeca, a dança Maneiro-pau; seja no reconhecimento do significado social e histórico da arquitetura do palacete Carvalho Mota.
O resultado dessa falta de conhecimento se reflete na incapacidade de citar e afirmar o valor dos nossos bens culturais e patrimoniais, permitindo que muitos desrespeitem, vandalizem e destruam, sem reflexão nem remorso. Uma educação patrimonial mais efetiva é uma necessidade urgente hoje e perpassa a necessidade da valorização, do orgulho e da autoestima pelo que somos e já fomos capazes de criar e construir.
Entrevista Nota 10 — Para quem é leigo, os termos às vezes se confundem. Na essência, o que significa “restaurar” um bem? Onde termina a conservação e começa o restauro?
Jacqueline Holanda — “Conservar” é considerado um conceito mais importante para esta área que “restaurar”. Apesar deste último ser mais reconhecido pelo leigo. A restauração representa o restabelecimento do conjunto de materiais que fisicamente constituem um bem material. Infelizmente, ela pressupõe que já houve dano, ou seja, o bem que necessita de restauração não foi bem conservado. Por esse motivo, teóricos como Cesare Brandi afirmam que o restauro deve ter caráter excepcional. A ideia é que todo bem que tenha significação cultural deve ser bem conservado.
Segundo documentos internacionais, como a Carta de Burra, a conservação designa os cuidados a se ter com um bem para que este preserve seu valor estético, histórico, científico ou social — ou seja, as características que representam sua relevância para uma comunidade —, constituindo um legado para as gerações futuras e elemento essencial para o fortalecimento da identidade cultural e autoestima de um povo.
Entrevista Nota 10 — Saindo da dependência exclusiva de órgãos públicos, o mercado de patrimônio e restauro tem passado por grandes transformações. Como você avalia o cenário atual? Hoje, quais são as principais oportunidades profissionais para quem deseja atuar nessa área?
Jacqueline Holanda — O fato de estarmos diante de uma mudança de cenário local, mesmo que ainda lenta, com relação ao reconhecimento e à valorização do patrimônio, revela uma demanda a ser atendida, o que pode ser compreendido como uma oportunidade para a inserção em um espaço que expõe cada vez mais a carência de profissionais qualificados.
Diante de um cenário de crescimento de eventos e ações destinados à cultura, sob suas diversas manifestações, a especialização na área pode ampliar o desenvolvimento e a qualidade destas propostas. Não só com relação a intervenções de conservação e restauro de bens materiais, como obras de arte e arquitetura histórica, mas também no registro, na defesa e na manutenção de manifestações da cultura imaterial e apoio a seus participantes.
Observa-se o crescimento do interesse por parte de gestores, instituições educacionais e organizações culturais — como prefeituras de diversas cidades, por exemplo — no estabelecimento de um turismo também de natureza cultural, com a criação de museus históricos locais, promoção de exposições artísticas e de eventos sazonais.
Tais ações abrem espaço ao trabalho de agentes e promotores culturais, curadores, gestores, entre outros, com formações diversas, tais como: artistas, historiadores, advogados, pedagogos, designers, museólogos, turismólogos. Além, obviamente, de arquitetos e engenheiros, capacitados a realizar um trabalho especializado, não mais amador e sim com embasamento e referência no conhecimento e no verdadeiro potencial de crescimento da área, para o desenvolvimento de projetos de qualidade superior.
Entrevista Nota 10 — Como docente e curadora da Especialização em Patrimônio e Restauro da Unifor, quais são os grandes diferenciais do curso em relação ao mercado atual? Na metodologia, como acontece o equilíbrio entre a teoria e a vivência prática, seja em laboratório ou em intervenções reais?
Jacqueline Holanda — A proposta do curso foi desenvolvida visando trazer embasamento teórico científico e aplicado para os profissionais da área da cultura e patrimônio, de modo geral. Não é um curso voltado apenas para conservação e restauro na arquitetura, mas direcionado às diversas formações conectadas ao setor cultural, onde se observa também poucas oportunidades de especialização desse nível.
Para isso, o curso foi organizado de modo a oferecer conhecimento atualizado sobre a atuação no setor sob diversos pontos de vista, tais como, conceitual, jurídico, organizacional e criativo. Dentro dessa proposta, portanto, teremos experiências de laboratório direcionadas à prática do restauro na arte e na arquitetura, visando oportunizar a experimentação e reconhecimento destes procedimentos também para quem vai atuar no acompanhamento, avaliação e gestão institucional, envolvendo estas ações.
Teremos também proposta de experiências de elaboração de planejamento organizacional, levantamento e pesquisa, além de visitas técnicas a espaços de ação, para investigação, análise e vivência prática.
Entrevista Nota 10 — Na matriz curricular do curso, como as novas tecnologias — a exemplo do escaneamento 3D, da modelagem e de novos materiais — são aplicadas ao restauro de bens antigos? Qual o papel do diálogo entre a inovação tecnológica e a conservação histórica para a construção de um perfil profissional de destaque?
Jacqueline Holanda — Esse diálogo é fundamental, principalmente se considerarmos o interesse na continuidade da existência dos bens históricos. Para isso, a inovação tecnológica tem sido aproveitada de forma essencial em experiências como o escaneamento 3D na arquitetura e arqueologia, com uso de sistemas como SLAM e LiDAR, convertendo a leitura do espaço em modelos BIM, facilitando a conservação dos levantamentos destes espaços, a compatibilização de projetos e a definição de mapeamento de danos para restauros.
As possibilidades de exploração destes recursos têm se mostrado muito amplas e são utilizadas também na modelagem de elementos danificados para recriação de partes ausentes ou para uso da anastilose, com aplicações na arte e na arquitetura. As mais atuais teorias na área sustentam e afirmam a necessidade da atenção constante às inovações científicas e tecnológicas para o desenvolvimento contínuo das técnicas em benefício da manutenção da qualidade nas ações de conservação e restauro.
Na proposta do curso da Unifor, as práticas em laboratório são direcionadas à aplicação dos conhecimentos adquiridos, considerando prioritariamente o acesso às inovações tecnológicas e contando com a utilização de locais como o Laboratório de Inovação e Prototipagem (LIP), referência para estas ações no campus.