Pesquisadores da Unifor apresentam estudo sobre planejamento comunitário e resistência urbana no Mucuripe
sex, 30 outubro 2026 10:06
Pesquisadores da Unifor apresentam estudo sobre planejamento comunitário e resistência urbana no Mucuripe
Trabalho apresentado no Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo analisa como a mobilização dos moradores contribui para a construção coletiva do território e para a defesa do direito à cidade

O professor André Araújo Almeida, do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Fortaleza, instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz, e a arquiteta Júlia Pompeu, egressa da Unifor e mestranda da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, participaram do Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo (Enanparq), realizado de 19 a 23 de outubro, em Belo Horizonte (MG).
Neste simpósio, os pesquisadores apresentaram o estudo “Urbanidades, apropriação coletiva e resistências: práticas de planejamento comunitário no Mucuripe, em Fortaleza (CE)”. A investigação retrata as iniciativas de organização e planejamento conduzidas por comunidades do Grande Mucuripe, região histórica localizada no leste da capital alencarina, que podem contribuir na transformação dos territórios e na garantia do direito à cidade.
Em meio ao cenário de vulnerabilidades socioespaciais, pressão político-econômica, conflitos fundiários e disputas relacionadas à permanência dos moradores, a área do Mucuripe foi escolhida para a pesquisa por reunir comunidades com vínculos históricos no território e processos de mobilização diante das transformações urbanas que ameaçam constantemente sua permanência. A escolha também considera o contraste entre as fragilidades sociais das comunidades e a valorização de regiões vizinhas, como a Beira-Mar e o Porto de Fortaleza.
O estudo visa compreender sobre como as práticas comunitárias se contrapõem a dinâmicas de mercado que podem favorecer a homogeneização da paisagem, a divisão urbano-social, além da expulsão de moradores.
Planejamento comunitário e direito à cidade
A pesquisa inicia da hipótese de que a organização coletiva, fundamentada nas experiências cotidianas e nos vínculos históricos e culturais dos moradores com o território, pode expressar o que os autores denominam “urbanidades de resistência”.
Essa noção considera que a construção da cidade não depende apenas das intervenções do poder público e das práticas de mercado, mas também das relações sociais, das formas de apropriação dos espaços e da participação das comunidades nas decisões que afetam suas vidas.
Segundo o professor André Almeida, a população originária do Grande Mucuripe enfrenta novas dinâmicas urbanas que modificam a paisagem e o perfil socioeconômico da região. Ao explicar o sentido da resistência no estudo, ele afirma:
“A população original está construindo [uma urbanidade] de resistência diante de outras urbanidades, de outras dinâmicas que vêm de fora, que modificam a paisagem, trazem novos tipos de construção e um novo perfil socioeconômico. Mas essa população original não usufrui disso, ela é colocada à parte desse desenvolvimento".
Na região estudada, o restauro do Farol do Mucuripe é apresentado pelo professor como exemplo de uma ação que avançou a partir da mobilização social e das propostas incluídas no Plano Popular do Titanzinho. Entre os próximos objetivos dos moradores está a gestão compartilhada do equipamento.
Os resultados apresentados pela pesquisa apontam que as experiências de mobilização no Mucuripe contribuem para fortalecer o sentimento de pertencimento, formar redes locais de colaboração e desenvolver instrumentos de planejamento popular. Essas iniciativas ampliam as possibilidades de participação dos moradores nas decisões sobre o território e reforçam a defesa do direito de permanência.
Na visão da arquiteta Júlia Pompeu, a pesquisa também evidencia a distribuição dos moradores. “O principal sentimento é de admiração pela capacidade de organização e resistência da comunidade do Grande Mucuripe”, afirma. Ela destaca ainda a importância de valorizar as iniciativas locais:
“Mais do que propor soluções de fora para dentro, queremos compreender e valorizar o que já é construído pela própria comunidade”.
Júlia Pompeu, arquiteta egressa da Unifor e mestranda da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. (Foto: Arquivo pessoal)
O estudo também identifica desafios, como a fragilidade institucional das iniciativas comunitárias, a dependência de redes externas de apoio e os conflitos com as políticas urbanas formais. Nesse cenário, o trabalho destaca a importância de reconhecer a participação social como dimensão fundamental do planejamento urbano e das transformações das cidades brasileiras.
Pesquisa e formação acadêmica
Para conduzir a investigação, os estudiosos articularam a revisão teórica e pesquisa empírica, com análise documental de planos institucionais e iniciativas populares, observação territorial e acompanhamento das práticas locais.
O levantamento incluiu entrevistas com lideranças, técnicos e participantes de processos coletivos, além da aplicação de um quadro conceitual para interpretar as relações entre território, participação social e planejamento comunitário.
Ao abordar as relações entre espaço urbano, identidade, participação e justiça espacial, o estudo contribui para o debate sobre os desafios contemporâneos do planejamento das cidades brasileiras. A investigação evidencia a importância de considerar os conhecimentos produzidos pelas próprias comunidades e suas experiências cotidianas na formulação de estratégias de desenvolvimento territorial.
A trajetória acadêmica da arquiteta reflete sua passagem pela Unifor.“Minha formação em Arquitetura e Urbanismo na Unifor foi fundamental para minha trajetória acadêmica, principalmente pelo incentivo à pesquisa, que me motivou a seguir para o mestrado”, afirma Julia Pompeu.
A participação no Enanparq também ocorreu no simpósio “Urbanidade[s] em debate: política urbana, intensificação imobiliária e qualidade do espaço construído em áreas centrais”, coordenado pelas professoras Eunice Abascal, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, e Andréa Tourinho, da Universidade São Judas Tadeu.
A participação no encontro representa uma oportunidade de compartilhar resultados de pesquisa e dialogar com pesquisadores de diferentes instituições sobre questões relacionadas à Arquitetura e ao Urbanismo, fortalecendo a circulação do conhecimento científico e a reflexão sobre as transformações das cidades brasileiras.