Doe de Coração: a solidariedade que salva vidas começa com um “sim”

seg, 31 agosto 2026 14:47

Doe de Coração: a solidariedade que salva vidas começa com um “sim”

Promovida pela Fundação Edson Queiroz, a campanha Doe de Coração chega à 24ª edição em 2026 e segue com foco no incentivo à doação de órgãos e tecidos. Nesta reportagem especial, três pacientes transplantados contam como o ato de solidariedade de outras famílias deu a eles mais uma oportunidade de vida.


Ajude a salvar a vida de outras pessoas: converse com a sua família e manifeste seu desejo. Seja doador ou doadora você também! (Foto: Ares Soares)
Ajude a salvar a vida de outras pessoas: converse com a sua família e manifeste seu desejo. Seja doador ou doadora você também! (Foto: Ares Soares)

A pequena Amália Fiorese, de 6 anos, é vaidosa com os longos cabelos cacheados, adora brincar e costuma viajar para o Piauí para visitar a família. Carmen Freitas é técnica de enfermagem e, ao longo dos 59 anos de vida, viveu em Guaramiranga e Fortaleza, mas decidiu firmar residência em Redenção, cidade simbólica para o Ceará. O advogado Altair Almeida, aos 68 anos, construiu a vida profissional e pessoal na ponte aérea entre São Paulo e Brasília, mas tem carinho especial por Fortaleza, cidade onde conheceu sua esposa e companheira de vida.

À primeira vista, pode parecer que os três não têm nada em comum. As idades, as histórias de vida e até as cidades natais de cada um deles são diferentes. Caminhos que dificilmente se cruzariam. Mas existe algo que une essas trajetórias tão distintas: os três tiveram as vidas salvas por um “sim”. Um “sim” que, para alguém, significou a decisão de doar órgãos.

Carmen Freitas ainda lembra do exato horário em que recebeu a ligação. Eram 9h da manhã. Nela, o aviso aguardado: ela tinha uma hora para chegar no Hospital do Coração, em Fortaleza, porque havia um possível doador e ela poderia receber, ainda naquele dia, o coração que aguardava há meses. “Você fica muito feliz, apavorado. É um misto muito grande de emoções”, ela tenta descrever. 

Para Altair, o número 11 passou a representar sorte. Das grandes. Foi apenas na 11ª vez em que recebeu a notícia da compatibilidade de pulmão com o doador, que a doação enfim se concretizou – antes disso, havia lidado com a decepção do “não” mais de uma vez, mas sem nunca perder a esperança. “Quando eu estava na maca, a caminho do centro cirúrgico, eu falei: ‘ó agora não tem mais jeito, agora eu realmente acho que vai dar certo’. É uma mistura de tudo, de medo, insegurança. Mas, acima de tudo, de muita confiança em Deus e fé”, relata.

“Ana Maria, tem um coração para Amália”. Essa foi a frase que Ana Maria Maciel ouviu do esposo, Gustavo Fiorese, depois de um ano e meio esperando por um transplante para a filha Amália, ainda com 3 anos. Quando houve a confirmação, ela correu para o hospital. Literalmente. “Fui a pé daqui para lá. Não é tão longe, mas [foi] no meio do sol quente”, conta e se emociona ao lembrar que, por onde passava nos corredores do Hospital do Coração, todos celebravam o coração que a pequena Amália iria receber. 

O “sim” para a doação de órgãos foi o que tornou cada um desses momentos possível. Um ato de generosidade e esperança que está no centro da campanha Doe de Coração, promovida pela Fundação Edson Queiroz. A iniciativa chega, em 2026, à 24ª edição na busca por conscientizar sobre a doação de órgãos e tecidos no Ceará.

A sensibilização das pessoas e a visibilidade para o tema são os principais objetivos da campanha, explica o médico Lourrany Borges, coordenador da campanha Doe de Coração deste ano. Lourrany é professor de Atenção Primária no curso de Medicina da Universidade de Fortaleza (Unifor), onde também atua como coordenador-adjunto. 

Ele explica que ainda não existe, no Brasil, um documento em que cada pessoa autorize ou informe que é um doador de órgãos. É possível fazer uma declaração gratuita em cartório, mas a decisão final cabe à família. “Lógico que, no momento de dor, se a família às vezes não tem tanta informação, ela não vai ficar tão aberta à doação”, afirma.


“A campanha Doe de Coração serve para informar as pessoas, para trazer esse assunto à tona, antecipando o diálogo. [...] Enfrentando mitos, reforçando a importância, trazendo como também um ato de solidariedade, uma colaboração coletiva.”Lourrany Borges, médico, coordenador da Doe de Coração 2026 e professor do curso de Medicina da Unifor

“Cada dia com ela era dia de glória”

Ana Maria Maciel, mãe de Amália Fiorese, lembra que, quando soube que a filha precisaria de um transplante, ainda tinha uma visão de que o processo dependia de uma situação trágica envolvendo outra pessoa. Mas logo percebeu que essa visão estava equivocada. “Eu entendi que não era nada disso. Aquela pessoa, aquela família teve a sabedoria de dizer ‘sim’ para outra [família] prosseguir. É um ato divino. Eu chamo de divino porque só Deus mesmo naquela pessoa para ela dizer sim”, defende.

Amália ainda não tinha nascido quando Ana Maria e Gustavo Fiorese descobriram que a filha tinha hipoplasia do coração esquerdo, defeito congênito em que o lado esquerdo do coração não se desenvolve de forma correta e fica muito pequeno.

O diagnóstico severo fez com que os médicos aconselhassem que o parto fosse realizado em São Paulo ou em Fortaleza, mas haviam alertado que a cardiopatia de Amália era “incompatível com a vida”. No nascimento dela, na capital cearense, a primeira surpresa. “Ela não foi entubada, ela respirou por conta própria. Um milagre mesmo”, relembra Ana Maria.

Contudo, a filha seguia com o mesmo diagnóstico e precisava de um acompanhamento constante, o que levou a família a vivenciar meses de idas e vindas entre o Ceará e o Piauí. Foi quando, com apenas dois anos, veio a necessidade da primeira cirurgia de Amália, realizada em janeiro de 2022. 

“Ali, a gente já não retornou mais [para casa], porque ela ficou muito, muito grave”, conta Ana Maria. Amália foi internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por necessitar de cuidados constantes. E foi ali que ela celebrou o aniversário de três anos, assim como o Natal e o Réveillon. 

Ana Maria relembra as dificuldades enfrentadas durante o período, o número de vezes em que Amália foi “desenganada” e as cirurgias que enfrentou. Mas ela afirma que não gosta de falar que este foi um período de luta. “Eu digo que era glória, porque todo dia era um dia com ela. Eu não estava lutando ali, eu estava vivendo”, diz. 

Eles já tinham vivenciado o “não”, mas foi em um sábado de março de 2023 que veio o “sim”. “Ela foi para o centro cirúrgico às 18h e [faltando] 5 [minutos] para 8h da noite, o coração chegou. Eu lembro nesse dia, ele chegando e o pessoal batendo palma, aquela alegria”, detalha. 

“Nós fomos ver ela [quando acabou o transplante]. Quando eu cheguei lá dentro... [Antes] Amália tinha cor de papel branco, ela não tinha cor, não tinha sangue. Quando eu entrei, vi o pé da Amália, era vermelho. Eu estava de luva, mas eu peguei nela, quente. Sabe o que é quente? O sangue pulsando. Os lábios vermelhos. Cor de vida, vida”, relata Ana Maria.

Os últimos três anos, após o transplante de Amália, ainda são de cuidados. Por ter passado tanto tempo entubada, ela precisou ter as vias aéreas reconstruídas devido às sequelas. Ela agora estuda em casa, além de fazer terapia ocupacional e também fonoaudióloga. “Mas, no geral, é outra vida que a gente está vivendo”, celebra.


“Eu acho que, durante o processo da educação de um ser humano, ele já tinha de saber isso. Eu digo isso porque é de suma prioridade uma pessoa saber que doar é vida. E assim, principalmente, a campanha como é da universidade, e assim, os jovens em si, eles às vezes se fecham muito para muita coisa. E eu acho tão interessante ser falado dentro da Unifor, que se expande para todo o Ceará, para todo mundo.”Ana Maria Maciel, mãe de Amália, que passou por um transplante de coração aos 3 anos de idade

A importância da informação para salvar vidas

Lourrany Borges também reforça a atuação da Unifor na campanha Doe de Coração, uma iniciativa que é o “orgulho da universidade”. “Essa campanha faz parte da responsabilidade social da Universidade e da própria Fundação Edson Queiroz”, afirma o professor.

É um papel também da universidade essa transformação social, a propagação de informações científicas, a própria educação em saúde e, principalmente, as pessoas jovens, que estão dentro da comunidade acadêmica e podem levar esse assunto para as suas casas”, reforça. “A Unifor tem um poder muito grande de alcance nas suas redes sociais, na imprensa e também na própria comunidade acadêmica divulgando essas informações”.

Esse alcance propiciado pela comunidade acadêmica, para que as informações sobre o tema extrapolem o campus da instituição de ensino, são fatores que contribuem para a importância da campanha no cenário cearense.

A Doe de Coração ajuda, assim, a difundir informações de qualidade, desvendar mitos sobre a doação de órgãos e acabar com preconceitos sobre essa atitude que salva milhares de vidas no Brasil e no mundo. Além disso, ela impacta a própria formação dos profissionais.

“Muitas vezes acontece um diagnóstico, por exemplo, de morte encefálica em que o paciente poderia ser um potencial doador, mas a equipe de saúde, os médicos, outros profissionais da área, às vezes não fazem essa conversa em relação à doação ou não entram em contato com a Central de Transplantes acerca desse caso por falta de conhecimento, inclusive técnico”, diz.

Por isso, reforça ele, a importância que esse tema seja discutido dentro da universidade e esteja presente nos currículos dos cursos da área de saúde, como Medicina e Enfermagem, mas também no cotidiano de estudantes de todos os cursos. “Ter esse tema no dia-a-dia dos alunos é de suma importância também para a formação profissional deles”, diz.

Uma corrida contra o tempo para conseguir uma nova chance

Altair Almeida também fala sobre a importância que a campanha Doe de Coração possui justamente nessa difusão de informações sobre a doação de órgãos e na visibilidade alcançada graças a iniciativa, que permite que a discussão sobre o tema seja feita por cada vez mais pessoas.


“[A Doe de Coração] é uma campanha muito grande. O pessoal da Unifor se dedica muito, e a gente é muito grato pelo apoio. É uma campanha fundamental porque é preciso que as pessoas tenham essa consciência de que é preciso doar. Quanto mais as pessoas falarem com as famílias, que são doadoras, vai ser muito melhor, vai facilitar lá na frente.”Altair Almeida, recebeu o transplante de pulmão em março de 2025 

A história de Altair, assim como a da família da pequena Amália, também envolve uma mudança não apenas de vida, mas de estado. Ele morava em Brasília quando, em 2018, recebeu o diagnóstico de fibrose pulmonar — doença crônica e progressiva que causa o enrijecimento e a cicatrização do tecido pulmonar, o que dificulta a respiração e a troca de oxigênio. No caso de Altair, essa síndrome era idiopática, ou seja, não era possível saber a causa da lesão pulmonar. 

Apesar do diagnóstico, ele conviveu com a doença sem muitas dificuldades por cinco anos. Foi apenas em 2023 que o quadro dele piorou. “O avanço da doença foi muito rápido. O que eu não tinha piorado nos anos anteriores, eu piorei tudo de uma vez”, relembra. 

Altair passou a precisar de oxigênio para respirar devido às constantes quedas na saturação. O cansaço ficou frequente e até caminhadas curtas causavam dificuldade na respiração. Ele precisou ficar internado após uma pneumotórax, no final de 2023, e depois disso precisou de oxigênio 24 horas por dia. 

Na época, ele ainda vivia no Distrito Federal. “Em 2024, meu médico lá de Brasília falou: ‘Olha, não tem outra solução para você, senão um transplante pulmonar’”, conta. Foi indicado a ele uma avaliação em Fortaleza, mais especificamente no Hospital de Messejana, referência no tratamento pulmonar. 

Após ser avaliado, ele foi inserido na lista para transplante e, na sequência, se mudou para Fortaleza para aguardar a chamada que poderia salvar a sua vida. “E a gente começava também uma luta contra o tempo, porque o transplante de pulmão tem uma limitação de idade. Eu só poderia fazer o transplante de pulmão até 65 anos. E eu já tinha 64 anos, ia fazer 65 em novembro. Então, começou uma luta realmente contra o tempo”, lembra. 

A luta contra o tempo não foi o único desafio enfrentado por Altair. O pulmão é um dos órgãos mais difíceis de ser considerado apto para o transplante, explica ele, devido a facilidade de contaminação. 

Além disso, teve que lidar com a decepção: Altair foi chamado 10 vezes para fazer o transplante, mas não houve como seguir com o processo. Algumas vezes, lembra, o órgão apresentou alguma infecção que retirava as condições para o transplante. Em outras, a família do doador em potencial não aceitou seguir com a doação

“Dói muito na gente. A gente entende, longe de querer julgar uma família que nega o transplante. Mas dói muito, porque você está realmente dependendo daquilo. A sua vida depende daquilo. Você está realmente caminhando pro final, está percebendo que já não tem mais forças”, diz. 

Nesses momentos em que a força faltava, ele buscava suporte na fé e no apoio das pessoas mais próximas. Uma delas, cita Altair, foi a esposa Francis Almeida, natural do Ceará. Foi aqui no estado, ainda na década de 1980, que os dois se conheceram, jamais imaginando que um dia voltariam à terra cearense tantos anos depois para enfrentar uma batalha.


Altair e sua esposa Francis (Foto: Ares Soares)

Francis, “com o sangue de Maria Bonita”, acabou tomando a causa da doação de órgãos como uma bandeira, conta Altair. “Ela está até criando uma associação cearense de pré e pós transplante para apoiar as pessoas que estão nessa situação”, compartilha. 

Em março de 2025, relembra Altair, ele havia chegado em uma situação delicada, em que não conseguia fazer atividades básicas, como caminhar. “E o meu milagre veio. O órgão era compatível, a família disse sim. No dia 11 de março de 2025, eu consegui fazer o transplante”, celebra.

A mudança realizada pela campanha Doe de Coração

A cirurgia de Altair Almeida foi um dos 2.090 transplantes de órgãos e tecidos realizados no Ceará apenas em 2025. O número superou o recorde alcançado em 2024, quando foram feitos 2.029 transplantes. O professor Lourrany Borges reforça esse crescimento constante no número de transplantes no Ceará, inclusive com pessoas de outros estados vindo para o Ceará para realizar as cirurgias, como foi o caso de Altair. 

Os resultados ressaltam a importância da campanha Doe de Coração para esse cenário. “A campanha mudou o olhar do cearense em relação a doação de órgãos”, afirma. Em 2003, primeiro ano da campanha, o número de transplantes era de 300 — agora, esse valor é quase sete vezes maior


“É a maior de todas as provas de amor pela humanidade. (...) Dizer sim para ajudar outra pessoa, porque através do seu filho, do seu irmão, do seu pai, do seu marido que está indo embora, você vai ajudar alguém a ficar mais um tempo, a ter um tempo de ficar saudável. Isso é maravilhosamente grande demais.”Carmen Freitas, recebeu um coração transplantado em setembro de 2023

Era um dia comum na vida da Carmen Freitas em 2012. De folga do trabalho como técnica de enfermagem, começou a sentir um aperto no peito. Na manhã seguinte, o diagnóstico veio: cardiomegalia, também conhecido como coração crescido — um problema de família, que havia acometido a mãe de Carmen. 

Ela precisou iniciar o tratamento medicamentoso e, por anos, conviveu com a doença, apesar de sentir a respiração ficando cada dia mais difícil e o cansaço sendo cada vez maior. Em 2018, veio o “chacoalhão”, como ela mesma descreve. 

A médica que acompanhava o tratamento dela disse que havia chegado o momento em que era preciso pensar no transplante, uma possibilidade que tinha sido levantada desde quando ela foi diagnosticada. “É uma coisa nova, que assusta, você fica abalado mesmo”, disse. 

O processo ainda demorou mais um pouco. Ela seguiu com medicações por um tempo e, só alguns anos depois, iniciou os exames e consultas para entrar na fila de espera. Enfrentou complicações pelo caminho e chegou a ser internada. 

Foi em setembro de 2023 que veio a ligação para que ela fosse até o hospital para realizar o transplante. Ela relembra o “misto de emoções” ao receber a notícia, que logo foi compartilhada com toda a família. A alegria com o sucesso da operação veio acompanhada de uma tensão com a longa recuperação, com complicações e percalços, além da necessidade de cuidado. 

A força vinha da lembrança da família, com os três filhos e os três netos, além do marido, José Francisco Gomes da Silva. “O meu homem de ferro mesmo era meu esposo. Ele é que foi o mais importante, que segurou na minha mão”, relembra. “Eu fui para casa, meu marido sempre ali perto de mim, foi a coisa mais importante da minha vida, foi um presente maravilhoso que Deus me deu”.


Carmen e seu esposo José Francisco (Foto: Ares Soares)

“Quando eu saí do hospital, a gente ia dar uma voltinha de cadeira de rodas e a coisa que eu mais invejava era quem podia sentar, levantar e dar um passo ou dois”, relembra. Agora, a vida é outra. “Hoje, eu já varro a minha casa, tomo banho sozinho, faço a minha comida, estou fazendo caminhada. Um espetáculo”, comemora.

As histórias de Carmen, Altair e Amália reforçam a importância da conscientização e do acesso às informações sobre a doação de órgãos. Quanto mais pessoas souberem da possibilidade de salvar vidas, maiores serão as chances de transformar a dor da partida de alguém em esperança para outras pessoas. Converse com a sua família e manifeste seu desejo. Seja doador ou doadora você também!

Serviço 

Abertura da campanha Doe de Coração 2026
Data: 1º de setembro
Horário: 9h
Local: Auditório da Biblioteca Central da Universidade de Fortaleza

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