Entrevista Nota 10: Leonardo Danziato e a materialização do debate sobre corpo, sofrimento e poder em livro

ter, 13 outubro 2026 12:06

Entrevista Nota 10: Leonardo Danziato e a materialização do debate sobre corpo, sofrimento e poder em livro

Professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Unifor esmiúça a sua obra “O Gozo e o Poder”, que propõe uma leitura política do conceito de gozo, formulado pelo psicanalista francês Jacques Lacan


Leonardo Danziato atua como psicanalista desde 1987 e possui pós-doutorado pela Université Paris-Cité, da França (Foto: Ares Soares)
Leonardo Danziato atua como psicanalista desde 1987 e possui pós-doutorado pela Université Paris-Cité, da França (Foto: Ares Soares)

A relação entre corpo, sofrimento e relações de poder orienta a trajetória do professor Leonardo Danziato, que inicia uma nova reflexão sobre esses temas com o lançamento do livro "O Gozo e o Poder: sobre a Dimensão Política do Gozo". A obra investiga como os discursos sociais e as transformações históricas influenciam as formas de satisfação, sofrimento e constituição das subjetividades, aproximando a psicanálise de questões políticas e culturais da contemporaneidade.

Professor doutor titular do Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGP) da Universidade de Fortaleza (Unifor), instituição de ensino da Fundação Edson Queiroz, Danziato possui pós-doutorado pela Université Paris-Cité (França) e doutorado e mestrado em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Psicanalista com atuação clínica desde 1987, é analista-membro da Litoral – Escola de Psicanálise e coordena o Laboratório de Estudos em Psicanálise, Cultura e Subjetividade (LAEpCUS).

Sua trajetória acadêmica reúne estudos sobre os processos culturais, discursivos, políticos e subjetivos do mundo contemporâneo. O pesquisador também desenvolve investigações sobre violência e questões de gênero, sexualidade, corpo e política, além de acompanhar pesquisas relacionadas às manifestações da adolescência e às práticas de autolesão no ambiente educacional.

Publicado a partir de sua pesquisa de doutorado, defendida em 2006, "O Gozo e o Poder" propõe leitura política do conceito de gozo, desenvolvido na psicanálise de Jacques Lacan. A obra parte das reflexões de Sigmund Freud sobre os conflitos entre as pulsões e a cultura e avança para uma análise das mudanças provocadas pela modernidade, especialmente com a emergência do capitalismo e do discurso científico.

Ao articular a teoria lacaniana dos quatro discursos com a perspectiva genealógica de Michel Foucault, Danziato examina como as relações entre saber, verdade e poder participam da organização da vida social e da experiência subjetiva. Em tal percurso, o autor discute a formação de um mercado do saber e de um mercado do gozo, em que a oferta de objetos e possibilidades de consumo alimenta a ideia de satisfação ilimitada, com consequências para a autonomia e a singularidade dos sujeitos.

O livro "O Gozo e o Poder" foi lançado na última quinta-feira (8) durante o I Colóquio Internacional sobre Corpo e Sofrimento no Contexto Escolar, realizado na Biblioteca Unifor. O evento reuniu reuniu pesquisadores da Unifor e de instituições estrangeiras, como a Université Rennes II, situada na França. 

As reflexões da obra, inclusive, também dialogam com pesquisas conduzidas pelo professor na Unifor, entre elas uma investigação sobre práticas de autolesão no contexto escolar, desenvolvida em parceria com a Secretaria da Educação do Ceará (Seduc). A pesquisa visa compreender o sofrimento adolescente e promover espaços de conversação entre estudantes e professores, valorizando a escuta e a construção de alternativas simbólicas para a expressão das experiências individuais.

Nesta Entrevista Nota 10, Leonardo Danziato aborda as relações entre psicanálise e política, os efeitos do capitalismo e das tecnologias sobre a subjetividade e os desafios do sofrimento psíquico entre adolescentes. O professor também discute a contribuição da formação oferecida pelo PPGP da Unifor e a importância do intercâmbio acadêmico para ampliar o debate sobre corpo, sofrimento e relações de poder.

Leia a entrevista na íntegra a seguir.

Entrevista Nota 10 — Sob a ótica da psicanálise, como o conceito do gozo se conecta com as manifestações do sofrimento e as relações de poder? O que o motivou a aprofundar essa investigação e transformá-la em um livro? 

Leonardo Danziato — A ideia central de Lacan e da psicanálise é que, o corpo humano, atravessado pela linguagem – a dimensão simbólica – se desnaturaliza e perverte a lógica natural da biologia. De maneira que ele encontra satisfações prazerosas e desprazerosas que não se limitam ao sexo, mas também se manifestam como sofrimento e destruição. É isso que chamamos de gozo: satisfações corpóreas, mas também atravessadas pela linguagem que caracteriza as relações dos sujeitos com os outros e com o corpo. 

Como não há uma “normatização” biológica para essas satisfações, a cultura, o simbólico, a moral, a religião, a política, a educação, enfim, os discursos no laço social, tentam impor e inscrever essas normatizações, e conseguem, mas não completamente. Sempre fica algo não normatizado.

Freud já havia se referido a isso em sua segunda dualidade pulsional, bem conhecida, entre Pulsões de Vida x Pulsões de Morte. O gozo em Lacan é uma precisão desses conceitos.

Pois bem, a forma como os corpos gozam, usufruem dos prazeres e dos sofrimentos da vida, passam por interdições e permissões próprias dos discursos de uma época. Se tomarmos a sexualidade, isso fica muito visível, não só pelas interdições e autorizações, mas pela politização de certas formas de gozo. A pauta das condutas morais e sexuais hoje ganhou proeminência. E há toda uma discussão sobre quais são os gozos legítimos ou não. Há uma tentativa política e discursiva da cultura e dos poderes de gerir e normatizar os gozos do corpo, através de uma suposição moral da naturalidade do corpo e do sexo, que, como disse acima, não vale para os corpos humanos, que não acompanham lógica do natural. Mas, temos aí uma luta e uma nítida operatividade da política.

Quanto ao livro ele é o produto do meu trabalho de pesquisa do Doutorado, defendido em 2006. Fiz poucas atualizações e correções para a publicação em livro.
A proposta é fazer uma leitura política desse conceito crucial para a psicanálise, estabelecido por Lacan, que é o conceito de gozo. Apesar de ser um conceito que se refere ao corpo, ele está atravessado por discursos e pela história, não só de cada um, mas das condições históricas e culturais de uma época.

Entrevista Nota 10 — De que maneira a psicanálise se firma não apenas como um dispositivo clínico individual, mas como uma ferramenta de leitura crítica das estruturas de poder na contemporaneidade? Na sua visão, o que a atuação do psicanalista e a própria sociedade ganham com o desenvolvimento dessa perspectiva?

Leonardo Danziato — Quando nasce um sujeito humano, para se constituir, ele passa por um processo de submissão a uma ordem simbólica de linguagem, que chamamos de grande Outro (A), que, como disse, busca normatizar os movimentos pulsionais e de gozo do corpo. Essa “ordem” se situa numa exterioridade ao sujeito, situada no laço social e tem uma dinâmica discursiva, ética e política de cada época. De maneira que o “indivíduo” se constitui nesse processo de alienação ou sujeição à uma ordem social. E isso implica uma condição política na sua constituição. Portanto, não existe uma individualidade psicológica apartada das condições sociais, históricas, políticas e discursivas de uma época. Como dizia Freud, toda psicologia individual é social. As subjetividades se constituem e se organizam a partir dessas lógicas discursivas, mesmo que resguardem uma singularidade.

Diante dessa lógica política e discursiva da sujeição, os sujeitos fazem suas subversões para defender suas singularidades e seus desejos. Mesmo que possam também ceder a isso para uma servidão voluntária ao outro, como vemos comumente nas religiões e na política das massas. 

Então, o drama do sujeito nunca é unicamente individual, mas também político e discursivo. Que os analistas possam saber e trabalhar com isso, faz avançar a psicanálise e se afastar da ingenuidade psicológica.

Entrevista Nota 10 — No seu novo livro “O Gozo e o Poder: sobre a Dimensão Política do Gozo”, você articula a topologia lacaniana dos quatro discursos com a emergência do capitalismo e do discurso científico. Como a união entre ciência e capital reconfigurou a relação entre saber e verdade? De que forma isso gerou o que você chama de “mercado do gozo”?

Leonardo Danziato — Para esses discursos no laço social que citei acima, Lacan propõe uma topologia dos quatro discursos radicais, que organizam o laço social, com suas interdições proposições de gozo, uma “economia política do gozo”, ou seja, determinando o que se pode e o que não se pode gozar. É claro que isso nunca funciona completamente, porque existe também uma economia política das transgressões.

No nosso mundo moderno, ciência e capitalismo alteraram essa economia de gozo do sujeito, propondo novas formas de gozo, como se fosse possível “tudo-gozar”. Para o capitalismo, o consumo é uma proposição de gozo dos objetos que o mercado oferece. Então, para o capitalismo, quanto mais gozo melhor. Só que para a psicanálise, quanto mais gozo, mas o sujeito se “afanisa”, ou seja, sucumbe nas suas escolhas e singularidades. As adicções contemporâneas – tanto de drogas, psicofármacos ou jogos de azar – ilustram muito bem isso. Gozo sem freios é desubjetivante. Se o sujeito entra nessa via, ele se apaga, ou morre. O problema é que essa lógica do gozo sem “castração”, sem interdição é o que está proposta pelo capitalismo e seus cúmplices, tais como as tecnologias e seus dispositivos, assim como a ciência que produz os objetos do mercado capitalista.

A lógica neoliberal do mercado hoje é o que impera como proposta de subjetivação, cujos efeitos, na verdade, são desubjetivantes. A psicanálise está na contramão dessa lógica, e tem sofrido os efeitos de lutar contra a corrente.

Entrevista Nota 10 — Sua obra será lançada durante o I Colóquio Internacional “Corpo e Sofrimento no Contexto Escolar”. Como as transformações na “economia de gozo do sujeito” descritas no seu livro se manifestam concretamente no corpo dos estudantes e no sofrimento escolar hoje? O que a psicanálise propõe para mitigar esse cenário para além da medicalização e da disciplina?

Leonardo Danziato — Estamos realizando uma pesquisa desde 2025, coordenada por mim em convênio com a Secretaria de Educação (SEDUC) e intitulada “As prática das autolesões no âmbito educacional: uma pesquisa-intervenção com contexto escolar”, onde nossa equipe frequenta uma escola pública para realizar nossas intervenções.

As práticas de autolesões que os adolescentes atualmente realizam sobre seus corpos, ilustra muito bem as formas de sujeição no mundo contemporâneo, onde aquele espaço simbólico de linguagem encontra-se empobrecido, com os Ideias fragilizados, exatamente pela incidência do discurso capitalista e da lógica do mercado. Os jovens não compartilham mais hoje os ideais de mudança do mundo. Os espaços sociais e simbólicos parecem não oferecer mais saídas para uma subversão simbólica. Quando isso não acontece, uma agressividade se volta contra o corpo próprio. É como um protesto mudo, impotente, já que eles não têm outras vias para declarar e fazer reconhecer suas singularidades. O capitalismo e o mercado não querem saber disso. Mas, universalizar e homogeneizar as subjetividades. 

O que estamos propondo na pesquisa, é abrir espaços de “conversação” com os alunos adolescentes e professores que permitam criar e promover esses espaços simbólicos. É uma tentativa de religar os jovens com um mundo simbólico que não esteja sujeitado a lógica imperativa do mercado, mas recompor suas singularidades e tradições culturais e territoriais.

Entrevista Nota 10 — Como pesquisador e docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGP) da Unifor, de que modo essa articulação entre psicanálise, filosofia e política nutre a formação na graduação e pós-graduação da Universidade? De que forma essa abordagem ajuda a formar psicólogos preparados para intervir criticamente na realidade brasileira?

Leonardo Danziato — Há uma interlocução constante entre a Pós-Graduação com a Graduação. Trabalhamos com muitos alunos e bolsistas de iniciação científica da graduação, assim como mestrandos e doutorandos. Isso permite que para além da formação básica da graduação, os estudantes possam compartilhar as práticas de pesquisa e uma leitura politizada da psicanálise, da psicologia e dos processos de subjetivação no mundo contemporâneo.

Entrevista Nota 10 — O Colóquio reúne pesquisadores da Unifor e de instituições estrangeiras, como a Université Rennes II. Qual é o impacto da Universidade promover encontros que conectam a pesquisa de ponta aos dilemas subjetivos da atualidade? Como o intercâmbio acadêmico internacional fortalece a produção científica local?

Leonardo Danziato — Nossa pesquisa tem como colaborador internacional o psicanalista francês prof. Jean-Luc Gaspar da Université Rennes II, mas também estamos iniciando esta possibilidade de interlocução com as colegas argentinas Gabriela Adad e Andrea Nofat da Universidade de Tucumán na Argentina. Todos eles estarão participando do nosso Colóquio “Corpo e Sofrimento no Contexto Escolar”, discutindo essas questões.

Esse intercâmbio internacional é extremamente importante porque articula realidades diferentes da nossa, assim como permite uma interlocução de trabalhos e de pesquisas que enriquecem nossas atividades de ensino e pesquisa aqui na Unifor.

A Unifor tem promovido de maneira intensa e fundamental esse processo de internacionalização, porque entende o valor e a importância dessas interlocuções.


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