Entrevista Nota 10: Fábio Peixoto e a pesquisa premiada sobre o abuso de direitos fundamentais

seg, 27 julho 2026 12:12

Entrevista Nota 10: Fábio Peixoto e a pesquisa premiada sobre o abuso de direitos fundamentais

Procurador do Estado do Ceará e egresso da Pós-Unifor detalha a produção do livro originado da sua renomada tese de doutorado em Direito Constitucional


Fábio Peixoto se tornou mestre em Direito Constitucional pela Unifor em 2022 e, no ano seguinte, viu seu trabalho ser reconhecido pela Capes e FIBE (Foto: arquivo pessoal)
Fábio Peixoto se tornou mestre em Direito Constitucional pela Unifor em 2022 e, no ano seguinte, viu seu trabalho ser reconhecido pela Capes e FIBE (Foto: arquivo pessoal)

O tema abuso de direito sempre despertou inquietação ao jurista Fábio Peixoto. E foi a partir de reflexões de casos envolvendo o assunto que escolheu o objeto de pesquisa no mestrado e doutorado da Universidade de Fortaleza (Unifor), da Fundação Edson Queiroz. A pesquisa amadureceu ao longo da jornada acadêmica e culminou na publicação do livro Abuso de Direitos Fundamentais, baseado em sua tese de doutorado.

Resultado da tese de Doutorado em Direito Constitucional da Unifor, a obra recebeu menção honrosa no Prêmio Capes de Tese e conquistou o 1º Prêmio FIBE (Fórum de Integração Brasil-Europa), ambos em 2023. Os reconhecimentos evidenciam a relevância da pesquisa para o debate jurídico nacional e internacional.

O lançamento oficial do livro será realizado no dia 15 de setembro, às 18h15, no auditório H-85 da Unifor. A apresentação da obra ficará a cargo do professor Eduardo Rocha Dias, orientador de Fábio no doutorado e um dos principais incentivadores da pesquisa.

A programação contará ainda com a presença do presidente do FIBE e professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL), Vitalino Canas, responsável pela conferência “Sistemas políticos e governabilidade”. A palestra abordará os desafios contemporâneos da relação entre o direito constitucional e os sistemas democráticos.

Procurador do Estado do Ceará e doutor em Direito Constitucional pela Unifor, Fábio Peixoto construiu uma trajetória que une atuação profissional e produção acadêmica. Ao longo da carreira, consolidou-se como referência no campo jurídico, com pesquisas voltadas à teoria constitucional e aos direitos fundamentais.

Graduado em Direito pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Fábio iniciou a carreira na Petrobras após aprovação em concurso público. Desde 2008 atua como Procurador do Estado do Ceará. No âmbito acadêmico, além de doutor, é mestre em Direito e Gestão de Conflitos pela Unifor e possui MBA em Direito Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Nesta Entrevista Nota 10, o procurador revisita sua trajetória acadêmica e profissional, comenta a produção do livro Abuso de Direitos Fundamentais, analisa a importância das premiações conquistadas e destaca a contribuição do Programa de Pós-Graduação em Direito (PPGD) da Unifor para o desenvolvimento de uma pesquisa reconhecida entre as mais relevantes do país.

Leia a entrevista na íntegra a seguir.

Entrevista Nota 10 — Se considerarmos o seu início na graduação, são 26 anos dedicados ao Direito. Nesse período, construiu carreira sólida como advogado, chegou ao cargo de Procurador do Estado do Ceará e conquistou reconhecimentos acadêmicos. O que vem à sua cabeça ao revisitar a própria história?

Fábio Peixoto — Ao revisitar esses 26 anos de dedicação ao Direito — nunca tinha parado para pensar nesse número, para falar a verdade —, o que posso destacar é a continuidade entre a prática profissional e a preocupação teórica.

A trajetória na advocacia pública e privada me colocou em contato direto com decisões judiciais que, muitas vezes, recorrem a fórmulas quase mágicas, como “abuso” ou “excesso” no exercício de direitos, sem permitirem um controle suficientemente claro, o que acabou se tornando uma inquietação acadêmica que perpassa a tese e o livro.

Olhando para trás, eu vejo um movimento de gradual densificação dessa inquietação — o que aconteceu não apenas sob a minha perspectiva de jurista, mas de modo geral na perspectiva da sociedade: hoje, temos mais ou menos meios de, como sociedade, controlarmos o discurso judicial, do que há 26 anos?

Entrevista Nota 10 —  A sua história no Programa de Pós-Graduação em Direito (PPGD) da Unifor teve início em 2018, quando começou o Mestrado Profissional em Direito e Gestão de Conflitos. Logo depois, em 2020, iniciou o Doutorado em Direito Constitucional, concluído em 2022. Qual a sua percepção sobre o PPGD e de que maneira o programa impactou a sua formação?

Fábio Peixoto — O PPGD foi o espaço em que essa passagem da preocupação prática para a construção dogmática se sistematizou. No mestrado profissional, comecei a trabalhar o tema da liberdade de reunir-se pacificamente. Foi ao lidar com esse tema que ressaltou a questão do discurso judicial de “abuso”, sempre usado para limitar o exercício dos direitos fundamentais. Ali, eu já percebi que o tema do abuso seria o tema da minha contribuição de vida para o Direito.

Do mestrado profissional, segui sem intervalo para o doutorado em Direito Constitucional. Já com uma ideia muito clara do problema sobre o qual eu iria desenvolver a pesquisa de doutorado, o programa ofereceu as condições teóricas e metodológicas para transformar essa percepção em uma pesquisa estruturada. Muito do que consta na tese — e agora no livro — decorreu diretamente do confronto das minhas pré-concepções com ideias e trabalhos jurídicos ensinados e discutidos em sala de aula e em grupos de pesquisa. 

O impacto do PPGD está, assim, em ter proporcionado um ambiente de excelência — reconhecido pelo conceito 6 na Capes —, onde foi possível propor uma dogmática do abuso de direitos fundamentais singular, mas sem deixar dialogar com as tradições civilistas e constitucionais (muitas das quais não disseminadas no Brasil).

Entrevista Nota 10 — O livro Abusos de Direitos Fundamentais resulta da sua tese de doutorado, distinguida com menção honrosa no Prêmio Capes de Tese e conquista do 1º Prêmio FIBE — ambos obtidos em 2023. Por que decidiu centrar o doutorado nesse tema e quais foram as principais dificuldades no processo de produção da tese?

Fábio Peixoto — Como eu já havia antecipado, centrar o doutorado no tema dos abusos de direitos fundamentais decorre diretamente da constatação, feita na prática e confirmada pela pesquisa, de que a noção de abuso vinha sendo utilizada pela jurisprudência brasileira como um mecanismo de restrição de direitos fundamentais sem um controle jurídico-dogmático suficientemente elaborado. 

Ao estudar decisões de tribunais estaduais, STF, STJ e cortes estrangeiras, tornou-se evidente que “abuso” aparecia como justificativa para negar proteção a direitos de expressão, reunião, greve, imprensa, entre outros, muitas vezes por meio de fórmulas vagas, sem critérios mínimos de identificação do que seria um exercício abusivo. Daí veio o objetivo central da tese: racionalizar os parâmetros de identificação do abuso de direitos fundamentais, mostrando que não basta importar, de modo acrítico, as doutrinas civilistas de abuso de direito para o campo constitucional.

As maiores dificuldades estiveram em três frentes principais. Primeiro, em mapear e ordenar a literatura sobre o abuso de direito, que se desenvolve em diferentes fases de maturação, e apresenta soluções muitas vezes contraditórias entre si. Posso afirmar com tranquilidade e senso de dever cumprido que a revisão que fiz sobre a literatura do abuso de direito é a mais abrangente já feita.

Segundo, em compatibilizar a teoria civilista do abuso com a dogmática constitucional, sem cair na instrumentalização totalitária ou funcionalista dos direitos, isso é, sem transformar liberdades em meros instrumentos de fins coletivos, risco que a tese procura enfrentar ao propor critérios dogmáticos singulares por grupos de casos. Terceiro, em construir um modelo que substitua ponderações ad hoc por uma dogmática baseada em grupos de casos e critérios de aplicação.

Entrevista Nota 10 — O quão é representativo para sua jornada a menção honrosa no Prêmio Capes e a conquista no 1º Prêmio FIBE?

Fábio Peixoto — A menção honrosa no Prêmio Capes de Tese 2023 representa, em primeiro lugar, o reconhecimento de que o problema enfrentado — o uso pouco controlado da categoria “abuso de direitos fundamentais” — é relevante para a teoria e para a prática constitucional brasileira. Ao destacar a tese entre as melhores do país, a Capes sinaliza que há valor em investir em pesquisas que sejam densamente teóricas.

Fico muito orgulhoso por ter sido o primeiro egresso do PPGD a receber o reconhecimento honroso da Capes — um mérito hoje já superado por outra egressa do PPGD, Thaís Araújo Dias, que venceu o Prêmio Capes de Tese 2025, mostrando que o PPGD da Unifor segue melhorando cada vez mais.

O 1º Prêmio FIBE, por sua vez, tem um significado próprio, ligado ao eixo Brasil–Europa. O fato de a tese ter sido escolhida como vencedora e de ter originado o primeiro volume da Coleção FIBE, publicado pela Almedina Brasil, mostra que a proposta de pensar o abuso de direitos fundamentais com base em tradições civilistas francesas, belgas, alemãs, italianas, espanholas e portuguesas, dentre outras, mas com aplicação à realidade brasileira, é capaz de dialogar com a comunidade acadêmica europeia.

O recebimento dessa premiação trouxe ainda muitos outros frutos; em especial, a aproximação entre a Unifor e o FIBE, instituto português do mais alto nível. É resultado dessa aproximação o lançamento do livro Abuso de Direitos Fundamentais, que ocorrerá na Unifor em setembro. 

Entrevista Nota 10 — O livro será lançado oficialmente na Unifor no dia 15 de setembro, sob a presença do professor Vitalino Canas, docente da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL) e presidente da FIBE. Como surgiu a oportunidade de estrear a obra junto à comunidade acadêmica da Unifor?

Fábio Peixoto — Das 3 teses premiadas no 1º Prêmio FIBE, 2 eram de egressos da Unifor: a minha (egresso do PPGD) e a do professor Daniel Rocha Chaves (egresso da graduação). Acredito que isso já mostrou ao FIBE — do outro lado do Atlântico, mas sempre com olhos sobre o Brasil — a excelência da Unifor, como universidade.

Após a edição do livro pela editora Almedina Brasil sob o selo FIBE, a Unifor, por meio do professor Eduardo Rocha Dias, fez o convite para que o FIBE — instituição que exerceu papel tão relevante na divulgação do trabalho, viabilizando a sua publicação — participasse do lançamento. Ficamos muito felizes com a aceitação do convite pelo FIBE, que será representado por nada menos que seu presidente, o professor Vitalino Canas.

O encontro será uma grande oportunidade de estreitarmos ainda mais os laços entre Brasil e Portugal. Na ocasião, seremos brindados com uma palestra do professor Vitalino Canas sobre o tema “Sistemas políticos e governabilidade”, abordando os desafios contemporâneos da relação entre o direito constitucional e os sistemas democráticos.

Entrevista Nota 10 — Não é exagero afirmar que uma parcela do seu sucesso na tese de doutorado passa pelo suporte do professor Eduardo Rocha Dias. De que modo se deu a contribuição dele durante todo o processo?

Fábio Peixoto — Absolutamente nenhum exagero! Até me emociono, ao falar do tamanho dessa contribuição — não apenas acadêmica, mas também afetiva, como amigo — do professor  Eduardo Rocha Dias. A contribuição foi decisiva, não apenas em termos de orientação formal, na forma como ele ajudou a costurar os fios teóricos da pesquisa, mas também na confiança que, mesmo nos meus momentos de maior dúvida, ele sempre me passou.

O meu primeiro contato com o professor Eduardo aconteceu antes mesmo do meu ingresso no PPGD. Desde então, mantivemos sempre, como orientador e orientando, um diálogo muito intenso. A sua disciplina Hermenêutica Constitucional não poderia ser mais proveitosa para a minha pesquisa. Em resumo: jamais deixo de ressaltar que os méritos da tese são compartilhados com o professor Eduardo.

Entrevista Nota 10 — Dada a importância do tema abuso de direito para a formação jurídica, qual a relevância da obra para a discussão acadêmica nas salas de aula?

Fábio Peixoto — O livro organiza, em linguagem mais acessível que a da tese, uma verdadeira dogmática do abuso de direito, partindo das doutrinas civilistas clássicas para, depois, mostrar seus limites e riscos quando transpostas de forma direta para o campo constitucional. Para as salas de aula, isso significa sair da afirmação genérica de que “direitos não são absolutos” e colocar os alunos diante de questões mais “finas”, em especial: quais as exigências de fundamentação para que um determinado exercício abstratamente protegido de um direito pode ser considerado concretamente proibido?

A resposta a essa pergunta é de fundamental importância se, como titulares de direitos, não estamos prontos para deixar que outros decidam arbitrariamente se esses direitos existem ou não. Em suma: aprofundar-se na dogmática do abuso de direito é proteger-se contra os que potencialmente atentarão contra nossos direitos.

Neste contexto, a obra é útil para disciplinas de Direito Constitucional, Teoria da Constituição, Direitos Fundamentais, Direito Civil e até de Processo Civil, na medida em que oferece critérios dogmáticos para pensar abuso de direito de ação, litígios de má-fé e uso indevido de posições jurídicas em geral.


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