A arte como ferramenta transformadora na formação acadêmica

seg, 31 março 2025 11:18

A arte como ferramenta transformadora na formação acadêmica

Por meio da integração entre arte e educação, a Universidade de Fortaleza oferece aos alunos experiências enriquecedoras que ampliam o conhecimento e fortalecem a sensibilidade crítica


Professores de diferentes cursos da Unifor utilizam o Espaço Cultural e suas exposições como ferramentas de ensino e aprendizagem (Foto: Ares Soares)
Professores de diferentes cursos da Unifor utilizam o Espaço Cultural e suas exposições como ferramentas de ensino e aprendizagem (Foto: Ares Soares)

A arte, em suas mais variadas formas, é um instrumento valioso no processo de formação acadêmica nas universidades. Seu papel vai além das disciplinas estritamente criativas, funcionando também como uma ferramenta interdisciplinar que estimula o conhecimento e a aprendizagem.

No contexto universitário, as produções artísticas contribuem para o aprofundamento do conhecimento ao estabelecer conexões entre diferentes áreas do saber. Essa junção entre arte e educação estimula a formação de um pensamento mais amplo e integrado, capacitando os alunos a estabelecer relações entre diversos campos e a desenvolver uma visão mais abrangente do mundo.

A Universidade de Fortaleza — instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz — reafirma, desde sua fundação em 1973, o compromisso com a arte e a cultura como pilares fundamentais da formação acadêmica e do desenvolvimento humano, é o que destaca a professora Adriana Helena Moreira, vice-reitora de Extensão e Comunidade Universitária. Segundo ela, iniciativas como a tradicional Unifor Plástica — cuja primeira edição ocorreu no mesmo ano da criação da Universidade — reforça essa vocação.

“A Vice-Reitoria de Extensão e Comunidade Universitária (Virex) desempenha papel essencial nesse fortalecimento ao promover iniciativas que aproximam a comunidade acadêmica e o público externo das manifestações artísticas. A continuidade da Unifor Plástica, a realização de exposições de relevância nacional e internacional no Espaço Cultural Unifor, além da oferta de atividades formativas, como palestras, cursos e visitas mediadas, são exemplos desse compromisso”, ressalta.

Além da programação artística regular, a Unifor também abriga um dos mais importantes acervos de artes visuais do país, pertencente à Fundação Edson Queiroz (FEQ). As obras da coleção não apenas compõem algumas das mostras promovidas pela Universidade, como também circulam por museus brasileiros e estrangeiros, promovendo o intercâmbio cultural e ampliando o alcance das produções artísticas.

Laboratório vivo

Símbolo desse compromisso, o Espaço Cultural Unifor é um ambiente que vai além da contemplação e funciona como um laboratório de experiências formativas, oferecendo aos estudantes a oportunidade de contato direto com obras de diferentes períodos e linguagens. A vivência incentiva a sensibilidade estética e o pensamento crítico, reforça Adriana Helena.

“Esse convívio estimula a reflexão crítica, a criatividade e a interdisciplinaridade, permitindo que estudantes de diversas áreas do conhecimento ampliem sua percepção sobre o mundo e as múltiplas expressões culturais. Além disso, a programação diversificada do Espaço Cultural incentiva o desenvolvimento de uma sensibilidade estética e cidadã, essencial para a formação de profissionais mais humanizados e conscientes do papel da arte na sociedade”, conta.


O Núcleo Diálogos é um dos locais de aprendizado para os mais diferentes cursos da Unifor (Foto: Ares Soares)

Para fortalecer essa integração, a Unifor desenvolve estratégias que conectam o conteúdo das exposições ao currículo acadêmico. Professores são estimulados a utilizar o espaço como recurso pedagógico, por meio de visitas mediadas, debates temáticos e atividades práticas relacionadas ao universo das exposições em cartaz. 

Destaque importante nesse processo é o Núcleo Diálogos, ambiente criado dentro do próprio Espaço Cultural para receber turmas, promover encontros acadêmicos e sediar eventos como lançamentos de livros, palestras e debates. A proposta tem aproximado ainda mais o público universitário e externo das ações que unem arte, cultura e educação, consolidando a Unifor como referência na difusão cultural no Ceará e no Brasil.

A professora Roselene Couras, do Centro de Ciências da Comunicação e Gestão (CCG), tem integrado em sua prática pedagógica uma iniciativa que alia ensino, vivência cultural e interdisciplinaridade, como a inclusão de visitas às exposições como parte do programa de disciplinas ministradas nos cursos onde leciona, tais como Administração, Moda e Comércio Exterior.

“Os próprios alunos são minha maior motivação. Eles precisam viver experiências e aprender com elas. A Universidade nos presenteia com vários espaços incríveis, então sempre procuro usá-los para viver novas experiências com os alunos. Essa iniciativa surgiu de uma busca que tenho, em sempre proporcionar às minhas turmas oportunidades de ter novos conhecimentos”, salienta.

Ainda de acordo com Roselene, as visitas ao Espaço Cultural não apenas enriquecem o repertório dos estudantes, como também aproximam os conteúdos acadêmicos de contextos práticos e inspiradores.


“As visitas contribuem por serem oportunidades únicas, pois o Espaço Cultural Unifor ajuda na disseminação da arte no Brasil com acesso gratuito e traz a possibilidade de viver a cultura. Em relação ao conteúdo da disciplina, sempre temos a oportunidade de criar um elo com a arte e o que estamos trabalhando em sala de aula”Roselene Couras, professora do Centro de Ciências da Comunicação e Gestão

Influência da arte na formação dos arquitetos

Jacqueline Holanda, docente do curso de Arquitetura e Urbanismo, também integra as visitas às exposições como parte estruturante de sua prática docente, unindo formação estética, crítica e histórica ao processo criativo dos estudantes. Ela defende que a arte é essencial em todos os aspectos da vida, e que a arquitetura deve ser compreendida como arte aplicada.

“Tenho trabalhado com disciplinas que abordam a reflexão histórica da arquitetura e sua abordagem teórica, com aplicação no Ateliê de Projeto. Ministro as disciplinas de Teoria, História e Projeto no 4º e no 7º semestres. Inicialmente, discutimos a evolução tecnológica pós-Revolução Industrial e o nascimento da ciência do Urbanismo, passando pelos efeitos das vanguardas artísticas na arquitetura e sua forte influência sobre as concepções modernas e contemporâneas”, detalha.


A professora Jacqueline leva sua turma para uma aula especial nas exposições do Espaço Cultural (Foto: Vito Moura)

A professora destaca ainda que, no 7º semestre, o foco se volta ao campo da conservação e do restauro na arquitetura, com aplicação direta no Ateliê de Projeto. Lá, os alunos desenvolvem uma intervenção em edificação histórica do patrimônio cearense. “A visita às exposições colabora com a promoção de debates sobre o patrimônio cultural e suas vertentes, abrindo espaço à sensibilização para a valorização, respeito e conservação”, exemplifica.

Para Jacqueline, a imersão em exposições artísticas é indispensável ao desenvolvimento pleno do profissional arquiteto. Ela conta que, por meio da sua experiência de vivências profissionais em consonância com sua formação acadêmica, percebeu como o processo criativo em arquitetura — no tratamento das formas, volumes, cores e até na integração com aspectos tecnológicos, como uso das estruturas, itens de conforto ambiental e novos materiais — necessita enormemente da sensibilização artística.

A docente reforça ainda que a percepção e compreensão do espaço e suas relações de proporção, harmonia e equilíbrio não podem ser plenamente compreendidos e trabalhados sem o incentivo à ampliação do imaginário.


“Nossa capacidade de imaginação é essencial à criação. Precisa ser alimentada regularmente, continuamente do apelo ao sensível, à reflexão e à inovação de possibilidades de análise e ação. Para isso, às visitas aos espaços de arte e a convivência máxima possível com as obras de grandes criadores, é essencial. Não acredito ser possível a concepção de um bom projeto, sem essa integração entre conhecimento técnico e sensibilidade artística”Jacqueline Holanda, professora do curso de Arquitetura e Urbanismo

Novo olhar sobre os direitos humanos

A Unifor se destaca pela integração da arte com o aprendizado acadêmico já desde o primeiro semestre, proporcionando aos seus alunos experiências enriquecedoras nas exposições do Espaço Cultural. Alunos de diferentes cursos participam semestralmente de atividades que conectam a teoria com a prática, estimulando novas reflexões sobre os temas trabalhados em sala de aula. 

Recentemente, a professora Mônica Barbosa, responsável pela disciplina Direitos Humanos, proporcionou aos seus alunos uma imersão nas exposições “Um Oceano Dentro de Mim” e “Imagens em Trânsito”. Segundo ela, as mostras das artistas Jane Batista e Delfina Rocha retratam de forma bem precisa o conteúdo que ela leciona, como a temática do direito à igualdade. “Por meio das exposições, trazemos as vivências e a transparência da realidade do dia a dia", acrescenta.

Letícia Vitória Medeiros, estudante do primeiro semestre do curso de Direito, participou da atividade e descreveu como as exposições a ajudaram a entender os direitos humanos de uma maneira mais sensível. “A arte tem o poder da sensibilização e tornar experiências vividas nas exposições mais tangíveis”, afirmou Letícia.


“Ao apresentar imagens, relatos e representações artísticas, as exposições ajudam a visualizar temas como o direito à dignidade, liberdade de expressão e igualdade”Letícia Vitória Medeiros, aluna do curso de Direito

Além disso, Letícia destaca a importância de vivenciar a teoria fora da sala de aula: “Na minha opinião, todos os professores deveriam explorar mais atividades com o mundo real e sair da sua zona de conforto”.

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A arte na construção da identidade

No curso de Psicologia, os estudantes também tiveram a oportunidade de experimentar a arte como ferramenta de aprendizado. Gabriela Oliveira e Samuel Girão, ambos do primeiro semestre, participaram de uma aula diferenciada da disciplina Psicologia, Cultura, Arte e Diversidade, conduzida pela professora Juçara Mapurunga, na exposição “Armorial 50”, que celebra a cultura nordestina.

Gabriela ressaltou como a arte armorial ajudou a entender a psicologia cultural e a construção da identidade. “Durante a visita, foi possível estabelecer conexões entre as obras expostas e os conceitos de psicologia cultural, especialmente no que diz respeito à construção da identidade e da memória coletiva”, afirma. Para ela, a exposição evidenciou como a cultura influencia comportamentos e a formação do indivíduo.


“A arte armorial resgata símbolos, mitos e narrativas populares que fortalecem a identidade nordestina, demonstrando como a cultura molda percepções e comportamentos. Um exemplo claro dessa relação foi a observação das xilogravuras e das peças inspiradas na literatura de cordel, que evocam emoções e experiências coletivas compartilhadas. Esse aspecto dialoga com os estudos sobre narrativas culturais e seu papel na formação do self, pois mostram como histórias e símbolos influenciam a maneira como as pessoas compreendem a si mesmas e ao mundo ao redor”Gabriela Oliveira, aluna do curso de Psicologia

Samuel compartilhou sua experiência ao observar como a arte popular pode ajudar na compreensão da identidade cultural: “O Movimento Armorial busca valorizar as manifestações artísticas nordestinas, permitindo reflexões sobre como a cultura influencia subjetividades, processos identitários e formas de expressão simbólica. A experiência prática proporcionada pela visita aprofundou a discussão sobre diversidade cultural e demonstrou como a arte reflete e molda nossa subjetividade”.

Ambos estudantes destacaram a importância de atividades como essa para a formação de psicólogos, especialmente no que se refere à compreensão das diversas culturas e manifestações artísticas.

“A arte, principalmente a nordestina mostrada no Armorial, está diretamente ligada às tradições populares. Para um psicólogo, entender essas formas de expressão é fundamental para compreender como as pessoas constroem sua identidade e dão significado às suas experiências”, conclui Gabriela.


“A arte, enquanto manifestação simbólica, permite acessar diferentes formas de expressão, histórias e modos de vida, contribuindo para o desenvolvimento de uma postura mais sensível e empática. No campo da psicologia, essa compreensão é essencial para atuar com diferentes públicos e contextos, reconhecendo a influência da cultura nos processos psicológicos. Além disso, experiências como essa ajudam a desconstruir visões reducionistas do conhecimento e a valorizar manifestações locais, promovendo uma atuação profissional mais crítica e contextualizada”Samuel Girão, aluno do curso de Psicologia

Celebração à arte do Ceará e do Nordeste

As exposições “Imagens em Trânsito”, “Um Oceano Dentro de Mim” e “Armorial 50” estão em cartaz no Espaço Cultural Unifor até 29 de junho, com entrada gratuita e visitação de terça a sexta (9h às 19h) e aos fins de semana (12h às 18h). As mostras celebram as produções de artistas locais e a cultura nordestina, oferecendo uma imersão nas múltiplas camadas da identidade e da memória.

Armorial 50” revisita o legado do Movimento Armorial, criado por Ariano Suassuna, com cerca de 140 obras de artistas como Suassuna, Gilvan Samico, e J. Borges. A exposição, que ocupa o segundo andar do Espaço Cultural Unifor, tem a curadoria de Denise Mattar, e homenageia a fusão entre a arte popular e erudita brasileira, em uma experiência imersiva que explora o rico universo cultural do Nordeste.

Já em “Imagens em Trânsito”, a fotógrafa Delfina Rocha conduz os visitantes a um mergulho em sua produção autoral, fruto de mais de oito anos de pesquisa sobre as camadas da memória, do tempo e da identidade. A exposição reúne fotografias e instalações que exploram o tempo e o espaço, convidando os visitantes a revisitar suas próprias histórias. 

Por sua vez, “Um Oceano Dentro de Mim”, de Jane Batista, oferece um olhar sensível sobre identidade e território. Com uma abordagem performática, a artista usa a fotografia para capturar momentos cotidianos do Titanzinho, em Fortaleza, combinando poesia, imagens e reflexões sobre a vida e as conexões afetivas no seu entorno.

Inclusão cultural

O Projeto Rota das Artes, promovido pela Vice-Reitoria de Extensão e Comunidade Universitária (Virex), por meio da Divisão de Arte e Cultura, foi idealizado com o objetivo de democratizar o acesso à arte e estimular a formação de público, levando adolescentes e jovens a criar o hábito de visitar exposições culturais. 

Por meio de transporte gratuito, jovens de escolas públicas e privadas da Região Metropolitana de Fortaleza têm a oportunidade de conhecer exposições de grande relevância cultural e histórica. Eles são recebidos no Espaço Cultural por mediadores especializados, que conduzem a experiência de visitação.

Para a vice-reitora de Extensão e Comunidade Universitária, professora Adriana Helena Moreira, a iniciativa é de fundamental importância para a formação cultural e humana dos cerca de 1.440 estudantes que visitam mensalmente as exposições.

“O projeto tem um impacto positivo na formação dos estudantes ao proporcionar uma experiência imersiva no universo da arte. O contato com obras de relevância artística e histórica amplia o repertório cultural dos jovens, estimula a criatividade e fortalece o senso crítico”, destaca Adriana. A proposta, além de enriquecer o currículo escolar, também promove a inclusão cultural e a valorização do patrimônio artístico.


“Para alunos da rede pública, que muitas vezes têm menos acesso a equipamentos culturais, o projeto representa uma oportunidade única de vivenciar a arte de forma direta e significativa. Ao promover atividades educativas e interativas durante as visitas, o projeto contribui para despertar o interesse pela cultura desde a infância e adolescência, formando cidadãos mais sensíveis e engajados com a valorização do patrimônio artístico”Adriana Helena Moreira, Vice-Reitora de Extensão e Comunidade Universitária

As visitas acontecem de terça a sexta-feira, nos turnos da manhã e da tarde. Para mais informações, as escolas podem entrar em contato por meio do e-mail espacoculturaloficial@gmail.com.