Entrevista Nota 10: Luciana Maia e a psicologia social no enfrentamento ao preconceito e à discriminação
seg, 11 maio 2026 20:39
Entrevista Nota 10: Luciana Maia e a psicologia social no enfrentamento ao preconceito e à discriminação
Coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Processos de Exclusão Social da Unifor explica como preconceitos são aprendidos socialmente e por que a ciência é capaz de ajudar a desaprendê-los, destacando a importância da cooperação científica nacional para promover uma sociedade mais inclusiva

Sabia que existe diferença entre estereótipo, preconceito e discriminação? Na psicologia social, esses três conceitos estão relacionados, mas não significam a mesma coisa. É por meio da combinação dessas definições, no entanto, que a exclusão social se torna uma realidade concreta e cada vez mais urgente na sociedade.
Segundo a psicóloga Luciana Maria Maia Viana — docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGP) e coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Processos de Exclusão Social (Lepes) da Universidade de Fortaleza, instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz —, esses processos não acontecem de forma isolada, contribuindo para a manutenção de desigualdades históricas ao afetar grupos minoritários.
“Nesse sentido, o preconceito não deve ser visto apenas como uma questão individual: ele também está presente nas instituições, nas políticas públicas, nas relações de trabalho, na escola e nos modos como a sociedade organiza oportunidades e reconhecimento social. Por isso, compreender esses fenômenos é fundamental para enfrentar processos de exclusão social e promover relações mais democráticas e inclusivas”, explica a professora.
Além da sua atuação à frente do Lepes na Unifor, ela também integra o Comitê Gestor do Observatório Nacional dos Preconceitos (INCT-Preconceitos). A iniciativa reúne pesquisadores de diferentes regiões do Brasil em torno de um objetivo comum: compreender os preconceitos contemporâneos e desenvolver estratégias de enfrentamento baseadas em evidências científicas.
Graduada em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Luciana é mestre e doutora em Psicologia Social pela mesma instituição, com estágio pós-doutoral no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, em Portugal. É membro do Grupo de Trabalho “A Psicologia Social e sua Diversidade Teórico-Metodológica” da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia (ANPEPP).
Na Entrevista Nota 10 desta semana, ela fala sobre preconceito, psicologia social e diferenciais formativos do PPGP, além de ressaltar o trabalho feito pelo Lepes e a colaboração entre a Unifor e o INCT-Preconceitos.
Confira a entrevista na íntegra a seguir.
Entrevista Nota 10 — De acordo com a psicologia social, qual a diferença entre estereótipo, preconceito e discriminação? De que maneira esses conceitos se conectam ao processo de exclusão social, especialmente de grupos minorizados?
Luciana Maia — Na psicologia social, esses três conceitos estão relacionados, mas não significam a mesma coisa. Os estereótipos são ideias, imagens ou generalizações que as pessoas compartilham sobre determinados grupos sociais – por exemplo, expectativas sobre como certos grupos “são”, “agem” ou “deveriam agir”.
Já o preconceito envolve uma atitude construída a partir desses estereótipos, marcada por julgamentos, emoções e avaliações, geralmente negativas. Embora frequentemente associado a manifestações hostis e explícitas, o preconceito também pode ocorrer de formas mais sutis e benevolentes, expresso em discursos aparentemente positivos, protetivos ou paternalistas, mas que acabam reforçando desigualdades e lugares sociais hierarquizados.
A discriminação, por sua vez, refere-se às práticas e comportamentos que produzem tratamento desigual, exclusão ou violência contra pessoas pertencentes a determinados grupos sociais.
Esses processos não acontecem de forma isolada. Eles se articulam e contribuem para a manutenção de desigualdades históricas, afetando grupos minoritários como mulheres, pessoas negras, pessoas com deficiência, população LGBTQIA+, pessoas gordas, povos indígenas, entre outros. Essas desigualdades podem ser facilmente identificadas quando analisamos indicadores sociais como escolaridade, acesso e permanência no mercado de trabalho formal, renda, condições de moradia e acesso a direitos sociais básicos.
Nesse sentido, o preconceito não deve ser visto apenas como uma questão individual: ele também está presente nas instituições, nas políticas públicas, nas relações de trabalho, na escola e nos modos como a sociedade organiza oportunidades e reconhecimento social. Por isso, compreender esses fenômenos é fundamental para enfrentar processos de exclusão social e promover relações mais democráticas e inclusivas.
Entrevista Nota 10 — Muitos acreditam que preconceito é algo “natural”, mas a ciência mostra o contrário. É possível desaprender preconceitos? De que forma a psicologia social atua nesse processo de desconstrução, tanto a nível individual quanto coletivo?
Luciana Maia — Sim. Hoje sabemos, a partir de diferentes pesquisas, que o preconceito não é algo natural ou inevitável; ele é aprendido socialmente e, justamente por isso, também pode ser transformado. Desde cedo, as pessoas aprendem formas de perceber determinados grupos por meio da família, da escola, da mídia, das redes sociais e das experiências do cotidiano.
A psicologia social busca compreender como esses preconceitos são construídos e reproduzidos, mas também investiga estratégias capazes de reduzi-los. Diversos estudos mostram, por exemplo, que experiências de diálogo, convivência, contato entre grupos diferentes, escuta e reflexão crítica podem ajudar a diminuir estereótipos e atitudes preconceituosas.
Esse processo acontece tanto no nível individual quanto coletivo. Individualmente, envolve reconhecer crenças e padrões que muitas vezes aprendemos sem perceber. Coletivamente, exige mudanças nas instituições, nas práticas sociais, na educação e nas políticas públicas. Por isso, combater o preconceito não depende apenas de boa vontade individual, mas também da construção de contextos sociais mais inclusivos e democráticos.
Entrevista Nota 10 — Como docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGP) e coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Processos de Exclusão Social (Lepes) da Unifor, quais são os principais desafios ao formar novos pesquisadores em um campo tão sensível e necessário como a psicologia social?
Luciana Maia — Um dos principais desafios é formar pesquisadores capazes de produzir conhecimento científico rigoroso sem perder a sensibilidade ética diante das desigualdades presentes na sociedade brasileira. Trabalhar com temas como preconceito, exclusão social, violência, vulnerabilidade e direitos humanos exige preparo teórico e metodológico, mas também pensamento crítico, compromisso ético e responsabilidade social.
Como docente do PPGP da Unifor e coordenadora do LEPES, acompanho de perto a formação de estudantes da graduação, do mestrado e do doutorado em processos que articulam pesquisa, extensão e impacto social. Buscamos incentivar investigações conectadas a problemas concretos da sociedade e que dialoguem diretamente com contextos como escola, saúde, trabalho e políticas públicas.
Entrevista Nota 10 — Qual o diferencial do PPGP para quem deseja se destacar na produção científica da psicologia social?
Luciana Maia — O PPGP da Unifor se destaca pela qualidade da formação científica, pela inserção nacional e internacional de seus pesquisadores e pela forte articulação entre teoria, pesquisa e compromisso com a transformação social. Além do Lepes, o programa conta com outros sete laboratórios de pesquisa consolidados que, a partir de diferentes enfoques teóricos e metodológicos, contribuem para a produção de conhecimento relevante em diversas áreas da Psicologia. Esses laboratórios oferecem aos estudantes experiências de pesquisa articuladas a problemas concretos da sociedade, além da participação em redes nacionais e internacionais de colaboração científica e em projetos de impacto social.
Entrevista Nota 10 — O Lepes é uma referência no PPGP da Unifor. Como funciona o laboratório e de que forma ele tem contribuído na análise e compreensão da realidade social do Brasil hoje? Qual o papel dele na preparação técnica e ética dos profissionais que passam por lá?
Luciana Maia — O Lepes é um espaço de formação, pesquisa e produção científica voltado ao estudo dos processos de exclusão social, preconceito, discriminação e desigualdades sociais. O laboratório é coordenado por mim e pela professora Kaline Lima, também docente do PPGP da Unifor, e reúne atualmente cerca de 45 integrantes, entre estudantes de graduação, mestrado e doutorado, além de pesquisadores colaboradores.
O laboratório desenvolve pesquisas sobre diferentes formas de preconceito e seus impactos psicossociais, investigando temas contemporâneos relevantes para a sociedade brasileira, como racismo, sexismo, capacitismo, gordofobia, preconceito no contexto escolar e exclusão social em diferentes espaços institucionais.
Uma das características mais importantes do LEPES é justamente articular pesquisa científica de qualidade com compromisso social. Mantemos reuniões semanais de pesquisa, grupos de estudos temáticos abertos à comunidade acadêmica e grupos de formação em metodologia de pesquisa qualitativa e quantitativa, contribuindo para a formação científica e ética dos estudantes.
Desde 2019, o laboratório também desenvolve o projeto “Dialogando sobre Preconceito”, em parceria com a graduação em Psicologia, voltado à promoção de debates e ações educativas sobre diferentes formas de discriminação. Mais recentemente, em 2023, criamos o Observatório de Preconceitos nas Escolas de Fortaleza (OPEFor), iniciativa dedicada à produção e sistematização de estudos sobre preconceito no contexto escolar.
Além da formação técnica em pesquisa, o laboratório tem um papel importante na formação ética dos estudantes. Discutimos constantemente os impactos sociais da produção científica, a responsabilidade do pesquisador diante dos participantes e a importância de produzir conhecimento comprometido com os direitos humanos e a redução das desigualdades sociais.
Entrevista Nota 10 — Além da atuação no Lepes, você também integra o comitê gestor do Observatório Nacional dos Preconceitos (INCT-Preconceitos), uma das principais redes de pesquisa sobre o tema no país. Como o INCT articula produção científica e ações concretas de enfrentamento ao preconceito? E qual a importância de iniciativas como essa para a transformação da realidade social brasileira?
Luciana Maia — O Observatório Nacional dos Preconceitos (INCT-Preconceitos) é uma iniciativa extremamente importante porque reúne pesquisadores de diferentes regiões do Brasil em torno de um objetivo comum: compreender os preconceitos contemporâneos e desenvolver estratégias de enfrentamento baseadas em evidências científicas.
O INCT é coordenado por dois importantes pesquisadores da Psicologia Social brasileira, Ana Raquel Torres, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), e Marcus Eugênio Lima, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), contando ainda com um Comitê Gestor formado por pesquisadores de diferentes instituições do país. Nesse contexto, a Unifor ocupa um lugar de destaque por ser a única instituição privada a compor esse comitê, com a minha atuação na coordenação do Eixo de Formação e Extensão do INCT.
Além da forte articulação nacional, o INCT-Preconceitos também estabelece diálogo com pesquisadores internacionais que são referência nos estudos sobre preconceito, discriminação e relações intergrupais, ampliando as possibilidades de intercâmbio científico e colaboração em pesquisas.
Uma das grandes contribuições do INCT é aproximar pesquisa científica, formação, inovação e impacto social. O projeto não se limita à produção acadêmica tradicional. Ele também desenvolve ações de extensão, materiais educativos, articulações com escolas, instituições públicas e sociedade civil, além de estratégias de divulgação científica voltadas para diferentes públicos.
Em um contexto marcado pelo crescimento dos discursos de ódio, da intolerância e da desinformação, iniciativas como essa têm importância estratégica porque ajudam a produzir conhecimento qualificado para subsidiar políticas públicas, intervenções sociais e processos educativos. Além disso, fortalecem redes nacionais e internacionais de colaboração científica e ampliam a capacidade de intervenção social da universidade.
Entrevista Nota 10 — Você integra o Comitê Gestor do INCT-Preconceitos e a professora Kaline Lima também participa da equipe proponente do projeto, fortalecendo a presença da Unifor nessa rede nacional de pesquisa. Como essa parceria se traduz na prática para o PPGP e para o Lepes? E quais são as perspectivas futuras dessa articulação?
Luciana Maia — A participação da Unifor no INCT-Preconceitos representa o reconhecimento da trajetória que o PPGP vem construindo na área da psicologia social e dos estudos sobre preconceito, discriminação e exclusão social. A minha participação no Comitê Gestor e a atuação da professora Kaline Lima na equipe proponente do INCT fortalecem a inserção da Universidade em uma ampla rede nacional de pesquisa, formação e intervenção social. Esse convite também está relacionado ao reconhecimento do trabalho que o Lepes e o OPEFor vêm desenvolvendo nos últimos anos, especialmente na produção de pesquisas e ações voltadas ao enfrentamento do preconceito no contexto escolar.
Essa participação no INCT-Preconceitos acontece de forma bastante integrada. Na prática, envolve:
- desenvolvimento de pesquisas em rede,
- articulação entre grupos de pesquisa de diferentes regiões do país,
- construção coletiva de estratégias de formação,
- elaboração de ações de extensão,
- divulgação científica voltadas ao enfrentamento do preconceito.
Também possibilita trocas permanentes entre pesquisadores, estudantes e instituições, ampliando o compartilhamento de metodologias, experiências e novas tecnologias sociais.
Além das pesquisas, o INCT-Preconceitos também atua promovendo cursos, formações, webinários e outras ações de circulação do conhecimento, contribuindo diretamente para a popularização da ciência e para a aproximação entre universidade e sociedade. Nesse contexto, a participação da Unifor tem sido estratégica, especialmente nas ações relacionadas ao eixo de Formação e Extensão, fortalecendo iniciativas voltadas à divulgação científica e à construção de diálogos com diferentes públicos.
Além disso, a participação no INCT-Preconceitos amplia oportunidades de formação e financiamento para estudantes e pesquisadores vinculados ao PPGP e ao LEPES, incluindo bolsas de iniciação científica, mestrado, doutorado e bolsas de apoio técnico em nível de doutorado. Isso fortalece não apenas a formação acadêmica dos estudantes, mas também a consolidação de uma rede de pesquisa mais estruturada e com maior potencial de impacto social.
As perspectivas futuras são muito promissoras. O INCT-Preconceitos tem potencial para ampliar ainda mais a aproximação entre ciência e sociedade, fortalecendo ações interinstitucionais, produção de conhecimento aplicado, formação de pesquisadores e desenvolvimento de estratégias de enfrentamento às diferentes formas de preconceito no Brasil. Em novembro de 2026, está previsto para acontecer na Unifor o primeiro encontro nacional de apresentação do INCT-Preconceitos, reunindo pesquisadores de diferentes regiões do país e fortalecendo ainda mais o papel da universidade nesse diálogo nacional sobre preconceito, direitos humanos e transformação social.
Para a Unifor, participar desse movimento reforça o compromisso institucional com uma ciência ética, socialmente relevante e comprometida com os direitos humanos e a transformação social.
Esta notícia está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, contribuindo para o alcance do ODS 4 - Educação de Qualidade, ODS 10 - Redução das Desigualdades e ODS 17 - Parcerias e Meios de Implementação.
A Universidade de Fortaleza reafirma seu compromisso com a construção de uma sociedade mais justa ao utilizar a ciência para compreender e desconstruir processos de exclusão social. Ao fomentar a cooperação científica nacional e democratizar o conhecimento sobre o impacto dos preconceitos, a instituição fortalece a educação cidadã e promove estratégias fundamentais para a redução das desigualdades e a promoção da inclusão social.