seg, 1 junho 2026 14:50
Pesquisa Unifor: estudo sobre envelhecimento ovariano recebe prêmio internacional
Integrando medicina moderna reprodutiva a biologia do envelhecimento, o artigo consiste em uma revisão científica translacional que discute avanços promissores para preservar a saúde reprodutiva feminina

Com o adiamento da maternidade, o aumento da expectativa de vida e o crescimento expressivo de mulheres enfrentando infertilidade associada à idade, menopausa precoce e doenças relacionadas ao envelhecimento reprodutivo, entender o envelhecimento ovariano tornou-se um tema extremamente relevante para a saúde feminina e para a medicina moderna.
Foi a partir dessa problemática que o médico ginecologista e obstetra Marcelo Cavalcante, professor do Programa de Pós-Graduação de Ciências Médicas (PPGCM) da Universidade de Fortaleza — instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz —, desenvolveu o estudo “Envelhecimento ovariano em humanos: estratégias potenciais para prolongar a vida reprodutiva”.
Consistindo em uma revisão científica narrativa e translacional, a pesquisa teve como objetivo discutir estratégias que possam preservar a função ovariana para, assim, promover um envelhecimento feminino mais saudável. Os resultados alcançados pela equipe de cientistas mostram que a preservação da reserva ovariana pode impactar não apenas a fertilidade, mas também a longevidade e a qualidade de vida das mulheres.
Por sua relevância, o artigo recebeu o Prêmio de Publicação Excepcional da GeroScience de 2026, um prestigiado reconhecimento oferecido pela American Aging Association (AGE) em parceria com o periódico GeroScience. A premiação celebra pesquisas originais e revisões de destaque que causam forte impacto no campo da biologia do envelhecimento e de doenças relacionadas à idade.
Marcelo destaca que, para a equipe de pesquisadores, o prêmio é o reconhecimento de anos de dedicação à pesquisa translacional, sendo esse um campo da ciência que transforma descobertas laboratoriais em tratamentos.
“Esse reconhecimento representa uma enorme honra e demonstra que a ciência produzida no Brasil, especialmente na Universidade de Fortaleza, possui relevância e impacto internacional. Receber um prêmio da American Aging Association, uma das principais sociedades científicas do mundo na área do envelhecimento, mostra que o trabalho desenvolvido pelo nosso grupo alcançou destaque global.” — Marcelo Cavalcante, médico ginecologista, obstetra, especialista em Reprodução Assistida e docente da Unifor
De acordo com Marcelo, que é especialista em Reprodução Assistida e conta com mais de 25 anos de atuação na área de medicina reprodutiva, a ideia do estudo surgiu a partir da integração entre a prática clínica em reprodução humana e as pesquisas em biologia do envelhecimento. Foi durante seu pós-doutorado nos Estados Unidos que ele investigou diferentes aspectos do envelhecimento ovariano.
A experiência científica, aliada à vivência clínica, permitiu observar que muitas mulheres buscam tratamento apenas quando já apresentam redução significativa da reserva ovariana, o que limita as possibilidades terapêuticas.
Segundo o médico, essa realidade motivou a discussão do envelhecimento ovariano de forma preventiva, destacando fatores modificáveis, hábitos de vida e estratégias capazes de retardar a perda folicular, além de aproximar duas áreas centrais da medicina contemporânea: longevidade saudável e saúde reprodutiva.
Para a pesquisadora Adriana Rolim, professora do PPGCM e integrante do grupo de cientistas responsáveis pelo artigo, a premiação representa o reconhecimento do trabalho feito e válida a urgência científica de olhar para a saúde da mulher sob uma ótica de medicina preventiva.
A docente, que também é diretora de Pesquisa da Unifor, afirma que o reconhecimento é a confirmação de que propor critérios rigorosos para adiar a falência ovariana é um caminho indispensável para a ciência global.
“Para a Unifor, este prêmio consolida a instituição como um polo de excelência em pesquisa internacional, demonstrando que a ciência produzida no Ceará tem força e relevância para liderar debates complexos e de alto impacto na saúde pública e na medicina reprodutiva mundial”, comenta Adriana.
Coordenado pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas da Unifor, o estudo contou com participação ativa de docentes, alunos e pesquisadores colaboradores, além do suporte acadêmico e institucional da Universidade. Segundo os pesquisadores, o reconhecimento internacional reforça o crescimento da Unifor no cenário científico global e fortalece a continuidade de projetos conjuntos na área.
Para o desenvolvimento da pesquisa, o PPGCM da Unifor formou parceria com a Faculdade de Nutrição da Universidade Federal de Pelotas (UFPeL), a Burnett School of Biomedical Sciences the University of Central Florida e o Departamento de Cirurgia de Cabeça e Pescoço da Poznan University. A equipe de pesquisa foi composta por:
- Marcelo Borges Cavalcante,
- Adriana Rolim Campos,
- Olga Goiana Martins Sampaio,
- Fernanda Eunice Araújo Câmara,
- Augusto Schneider,
- Bianca Machado de Ávila,
- Juliane Prosczek,
- Michal M Masternak.
Qual a relação entre o envelhecimento dos ovários e a saúde da mulher?
A reserva ovariana corresponde à quantidade de folículos e óvulos presentes nos ovários da mulher. Diferentemente de outros tecidos do corpo, a mulher nasce com um número limitado de óvulos, que vai diminuindo progressivamente ao longo da vida. Essa reserva influencia diretamente a fertilidade, mas também a produção hormonal feminina, especialmente de estrogênio.
À medida que ocorre o envelhecimento ovariano, há um aumento do risco de infertilidade, abortamentos, menopausa precoce e diversas doenças associadas ao hipoestrogenismo (diminuição dos níveis de estrogênio no organismo), como: osteoporose, doenças cardiovasculares, alterações cognitivas e metabólicas. Isso evidencia que a saúde ovariana está intimamente ligada à saúde global da mulher.
A saúde ovariana está intimamente relacionada à saúde da mulher (Foto: Getty Images)
Além da perda da função reprodutiva, a diminuição dos níveis de estrogênio ocasionada pelo envelhecimento ovariano está associada a efeitos de curto e médio prazo extremamente prejudiciais, como ondas de calor, névoa mental (dificuldade de concentração, confusão e lentidão de raciocínio), ressecamento e desconforto genital, dor na relação sexual, fadiga e impactos na qualidade da memória e do sono.
Mesmo com a genética sendo o principal fator determinante da idade da menopausa, há diversos outros fatores ambientais e comportamentais que podem acelerar o envelhecimento ovariano e contribuir para uma redução mais rápida da reserva ovariana. São eles:
- tabagismo;
- obesidade;
- sedentarismo;
- dietas inadequadas;
- estresse crônico;
- exposição a toxinas ambientais;
- doenças autoimunes;
- processos inflamatórios.
Por outro lado, o estudo reforça que um estilo de vida mais saudável, com atividade física moderada, alimentação saudável e controle metabólico, podem ter um impacto importante sobre a longevidade reprodutiva.
Descobertas e contribuições
O estudo aponta avanços promissores no uso de terapias com metformina, rapamicina, antioxidantes, células-tronco e plasma rico em plaquetas (PRP). Experimentos, especialmente em modelos animais, demonstraram que essas intervenções possuem um grande potencial para retardar o envelhecimento e promover o rejuvenescimento da reserva ovariana.
A pesquisa adotou uma abordagem ampla e multidisciplinar, integrando a medicina reprodutiva, a endocrinologia e a biologia do envelhecimento. O trabalho enfatiza a necessidade de compreender o ovário como um importante marcador biológico do envelhecimento feminino, mostrando sua forte relação com a inflamação crônica, a senescência celular e o metabolismo.
Ao compreender melhor esses mecanismos, o estudo abre portas para pesquisas futuras voltadas para terapias anti-envelhecimento preventivas e metabólicas. O foco dessas estratégias é a preservação prolongada da saúde hormonal da mulher, mostrando que o sistema ovariano pode responder de forma bastante positiva a esses estímulos.
A principal conclusão do artigo é que a preservação da reserva ovariana gera impactos sistêmicos que vão muito além da fertilidade. A longo prazo, essas intervenções podem melhorar a saúde metabólica, óssea, cardiovascular e cognitiva, contribuindo para a redução de doenças associadas à idade e garantindo uma melhor qualidade de vida e longevidade para as mulheres.
Uma rede colaborativa internacional de pesquisa
A pesquisa também se destacou pela forte rede de colaboração construída ao longo dos últimos anos. Desde 2018, durante o pós-doutorado de Marcelo Cavalcante nos Estados Unidos, o grupo passou a desenvolver parcerias nacionais e internacionais voltadas ao estudo do envelhecimento ovariano.
A Unifor capitaneou a articulação da rede de colaboração internacional, aportou a expertise clínica necessária em reprodução humana e estruturou a revisão da literatura, sendo o centro de convergência que definiu os critérios rigorosos propostos no artigo para o adiamento do envelhecimento ovariano.
“Essa sinergia entre diferentes laboratórios e instituições permitiu que o artigo revisasse o tema com um rigor científico global, unindo a prática médica às mais recentes descobertas da ciência básica internacional.” — Adriana Rolim, diretora de Pesquisa da Unifor, docente do PPGCM e pesquisadora integrante do estudo
Durante o Mestrado em Ciências Médicas na Unifor, a médica ginecologista Olga Goiana, pós-graduada em Reprodução Assistida, foi orientada pelo professor Marcelo Cavalcante, que já desenvolvia pesquisas sobre o assunto com outros pesquisadores e profissionais da área da medicina antienvelhecimento e da fertilidade humana.
Na época, a então mestranda participou ativamente no levantamento de dados e estudos científicos sobre o tema para a revisão de literatura e enfatiza a importância da pesquisa na sua formação acadêmica e profissional.
“O grande aprendizado, tendo como exemplo meu orientador, professor Marcelo Cavalcante que o pratica com excelência, foi a importância de unir a assistência com a pesquisa científica, trazendo as demandas reais de nossos pacientes para o centro dos estudos, objetivando soluções concretas para dores reais”, relata Olga.
A integração de estudantes em pesquisas como essa contribui significativamente para sua formação acadêmica e profissional, permitindo que acompanhem de perto todas as etapas do processo científico juntamente com seus orientadores. Essa experiência fortalece o pensamento crítico, amplia o conhecimento prático e estimula o desenvolvimento de habilidades essenciais para a atuação na pesquisa e na produção científica.
Olga destaca que, desde aprender a ouvir e se conectar com as demandas da sociedade até executar adequadamente as fases mais técnicas de levantamento e análise dos dados apresentados, são importantes habilidades que só a prática ensina.
“Espero que o estudo traga ainda mais atenção ao tema e que possa contribuir futuramente na busca de soluções para as repercussões negativas do envelhecimento ovariano, aumentando as chances das mulheres de atingirem a maternidade e melhorando sua qualidade de vida e saúde como um todo.” — Olga Goiana, médica ginecologista, egressa do Mestrado em Ciências Médicas da Unifor e membro da equipe de pesquisa
Esta notícia está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, contribuindo para o alcance do ODS 3 – Saúde e Bem-Estar, do ODS 4 – Educação de Qualidade e ODS 17 – Parcerias e Meios de Implementação.
A Universidade de Fortaleza reafirma, assim, seu compromisso com a pesquisa de ponta, a promoção da saúde e a educação de qualidade. Ao transformar o conhecimento acadêmico e transnacional em soluções práticas, a instituição gera benefícios diretos para a saúde da população e projeta a ciência cearense e brasileira no cenário mundial.