ter, 14 abril 2026 17:27
Entrevista Nota 10: Laura Jucá e a atuação em prol do desenvolvimento sustentável de Fortaleza
Mestranda em Ciências da Cidade trabalhou por quase dez anos na em autarquia municipal, da qual tornou-se a primeira mulher superintendente. Ela carrega o propósito de contribuir para uma cidade organizada, justa e funcional para todos.

Fortaleza como referência em sustentabilidade urbana. É com tal status que a capital cearense chega aos 300 anos e muito passa pela atuação destacada da administradora e mestranda em Ciências da Cidade, Laura Jucá. Com uma trajetória de quase uma década dedicada ao serviço público, Laura consolidou-se como figura central no desenvolvimento sustentável da cidade.
Sua história na gestão municipal marca um pioneirismo histórico: Laura tornou-se a primeira mulher superintendente da Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis). À frente de uma equipe com mais de 700 pessoas, defendeu que a gestão urbana deve ir além da infraestrutura.
Sobre esse compromisso, a gestora é enfática: “A cidade que queremos não se constrói apenas com obras e infraestrutura, mas com consciência coletiva, redução das desigualdades e um compromisso compartilhado com o futuro”.
Formada em Administração pela Unifor, da Fundação Edson Queiroz, e mestranda em Ciências da Cidade na instituição, Laura retornou à jornada acadêmica após 20 anos de mercado com o objetivo de conectar sua vasta experiência prática às soluções teóricas que o futuro urbano exige.
Atualmente, ela é sócia da INTR3S, uma investidora e incentivadora de negócios de impacto social e ambiental, e da RecyBacks, fintech lançada pela investidora que foca na cadeia da reciclagem e na economia circular.
Para Laura, a cidade funciona como um organismo vivo em que a tecnologia e os dados devem servir, prioritariamente, à redução das disparidades sociais. Além de sua atuação empresarial, ela dedica-se ao movimento “Elas na Gestão”, que fortalece redes de liderança feminina e abre caminhos para que mais mulheres ocupem espaços de decisão. Em sua visão, o sucesso de uma capital depende da capacidade de inclusão de todos os cidadãos em um projeto comum.
Na Entrevista Nota 10 desta semana, Laura Jucá reflete sobre os desafios do novo Plano Diretor, a importância da governança integrada e o papel da educação ambiental na construção de uma cidade resiliente. Ela detalha como sua jornada na gestão pública e sua atual fase na iniciativa privada convergem para um único propósito: transformar a realidade urbana de Fortaleza.
Confira a entrevista na íntegra a seguir.
Entrevista Nota 10 — Laura, você atuou por quase 10 anos na Prefeitura de Fortaleza, de integrante da equipe de consolidação da Agefis, em 2016, à primeira mulher no posto de superintendente da mesma, cargo no qual esteve de 2021 a 2024. Como avalia toda essa jornada e sua participação no desenvolvimento de Fortaleza?
Laura Jucá — Minha trajetória na Prefeitura de Fortaleza foi, antes de tudo, uma jornada de construção institucional e de compromisso com a cidade. Entrei na Agefis em um momento de consolidação e tive a oportunidade de acompanhar e contribuir diretamente para o fortalecimento de uma estrutura essencial para o ordenamento urbano.
Fiquei quase 10 anos na Agefis, na qual passei por diferentes funções até assumir a superintendência, o que me permitiu ter uma visão muito completa da gestão pública do planejamento à execução. Como superintendente, liderando uma equipe de mais de 700 pessoas, meu foco foi fortalecer a governança, modernizar processos e aproximar a fiscalização da população, mostrando que ela não é apenas punitiva, mas também educativa e essencial para a cidade.
Participei de momentos extremamente desafiadores, como a pandemia, e de projetos que me marcaram profundamente, como o Agefis nas Escolas. Avalio essa trajetória com muito orgulho, porque ela foi construída com propósito: contribuir para uma cidade mais organizada, justa e funcional para todos.
Entrevista Nota 10 — Você deixou o serviço público no fim de 2024 e, desde então, atua na iniciativa privada. Agora de que maneira se dá a sua atuação no desenvolvimento da nossa cidade?
Laura Jucá — Hoje continuo atuando no desenvolvimento de Fortaleza, mas a partir de uma outra perspectiva: a dos negócios de impacto e da articulação entre setores.
Na INTR3S, trabalho na estruturação de projetos que conectam investimento, sustentabilidade e desenvolvimento urbano. Por meio da RecyBacks, por exemplo, atuamos diretamente na cadeia da reciclagem, criando mecanismos que geram renda, fortalecem a economia circular e contribuem para uma gestão mais eficiente dos resíduos sólidos.
Entrevista Nota 10 — Fortaleza é uma cidade reconhecida pelos avanços em sustentabilidade urbana, tanto que acumula reconhecimentos internacionais. Conquistas assim mostram que a cidade está na direção certa, contudo, a evolução urbana é um processo contínuo e requer adequações. Hoje quais são os principais problemas de Fortaleza e o que fazer para superá-los?
Laura Jucá — Fortaleza avançou muito nos últimos anos e vem se consolidando como uma referência em sustentabilidade urbana, mas ainda carrega desafios estruturais importantes. Para mim, o principal deles é a desigualdade social e territorial que marca profundamente a cidade. Fortaleza é, ao mesmo tempo, várias cidades dentro de uma só: existem bairros com indicadores de desenvolvimento humano comparáveis aos de países mais desenvolvidos da Europa, enquanto outros apresentam condições semelhantes às de regiões da África Subsaariana. Essa disparidade se reflete no acesso a serviços, infraestrutura, oportunidades e qualidade de vida, e é, sem dúvida, o maior desafio a ser enfrentado.
Além disso, questões como a gestão de resíduos sólidos, a necessidade de fortalecer a educação ambiental e o ordenamento do espaço urbano também permanecem centrais.
A cidade que queremos não se constrói apenas com obras e infraestrutura, mas com consciência coletiva, redução das desigualdades e um compromisso compartilhado com o futuro.
Entrevista Nota 10 — O direcionamento do desenvolvimento urbano de Fortaleza está concentrado no novo Plano Diretor. Quais pontos da legislação municipal você destaca e, assim, como podemos imaginar o futuro da “Terra do Sol”?
Laura Jucá — O Plano Diretor é o principal instrumento para orientar o crescimento da cidade e tem um papel fundamental em garantir que esse desenvolvimento ocorra de forma equilibrada, integrada e sustentável. Em Fortaleza, esse processo foi marcado por um amplo ciclo de debates, fóruns e negociações que envolveram diferentes setores da sociedade, refletindo a importância de se pensar coletivamente o futuro urbano.
Ao longo dessas discussões, houve avanços importantes, especialmente na valorização do adensamento inteligente, da mobilidade urbana sustentável e na tentativa de integrar desenvolvimento econômico com preservação ambiental. No entanto, é importante destacar que, na etapa final de aprovação, ocorreram alterações relevantes no texto que haviam sido previamente pactuadas nesses espaços participativos. Algumas dessas mudanças impactaram diretamente áreas de vulnerabilidade ambiental, que deixaram de ter o mesmo nível de proteção inicialmente previsto, o que acende um alerta importante sobre os riscos de ocupação desordenada e seus efeitos no médio e longo prazo.
Isso reforça a necessidade de que o Plano Diretor não seja visto apenas como um documento técnico, mas como um instrumento vivo, que precisa ser constantemente monitorado, revisitado e alinhado ao interesse coletivo, sobretudo diante dos desafios climáticos e das desigualdades urbanas.
Entrevista Nota 10 — E os pilares para o futuro sustentável de Fortaleza, quais são e por quê?
Laura Jucá — Os pilares para o futuro sustentável de Fortaleza passam por uma governança forte e integrada, capaz de articular políticas públicas com planejamento e continuidade. A sustentabilidade ambiental, com foco na gestão de resíduos e no enfrentamento das mudanças climáticas, é igualmente central, assim como um modelo de desenvolvimento econômico que gere inclusão e impacto social positivo.
O uso de tecnologia e dados qualifica a gestão urbana e permite decisões mais eficientes e alinhadas às reais necessidades da população. No entanto, nenhuma dessas transformações acontece de forma isolada. Somente a integração entre setor público, iniciativa privada, terceiro setor e sociedade civil será capaz de promover as mudanças estruturais e duradouras que a cidade de Fortaleza precisa.
Entrevista Nota 10 — Diante da sua trajetória na Prefeitura de Fortaleza, o quão é difícil alinhar crescimento econômico à melhoria da qualidade de vida da população e à construção de uma cidade mais resiliente e inteligente?
Laura Jucá — É desafiador, mas absolutamente necessário, especialmente em uma cidade como Fortaleza, que ainda convive com desafios estruturais importantes.
Fortaleza precisa, ao mesmo tempo, avançar em sua agenda ambiental, preservando áreas de proteção que são fundamentais diante dos efeitos cada vez mais imediatos das mudanças climáticas, e promover desenvolvimento econômico que gere oportunidades reais para a população. Isso passa por investir em educação para os jovens, garantir cuidado e dignidade para os idosos e enfrentar questões básicas que ainda persistem, como o saneamento, que hoje atende cerca de 65% da população.
O segredo está na qualidade das decisões e na capacidade de planejamento de longo prazo. Quando há governança, integração entre políticas públicas e compromisso com o território, é possível crescer economicamente sem comprometer o meio ambiente e, ao mesmo tempo, melhorar de forma concreta a vida das pessoas.
Entrevista Nota 10 — Você é formada em Administração pela Unifor e hoje mestranda em Ciências da Cidade. Inclusive, iniciou o mestrado mais de 20 anos após concluir a graduação. Por que você escolheu voltar à Unifor?
Laura Jucá — Voltar à Unifor foi uma decisão muito consciente, mas também fruto de um desejo que eu já vinha cultivando há algum tempo. Eu queria fazer um mestrado, mas não encontrava um programa que realmente me despertasse interesse, que dialogasse com aquilo que me mobiliza profundamente: o desenvolvimento das cidades. As cidades são organismos vivos, complexos e fascinantes, que hoje já acolhem a maior parte da população mundial e concentram grande parte dos desafios do nosso tempo.
Depois de mais de 20 anos de experiência prática, senti a necessidade de aprofundar minha visão teórica e organizar, com mais método e rigor, os aprendizados que acumulei ao longo da minha trajetória. O Mestrado em Ciências da Cidade surgiu exatamente como esse ponto de encontro entre prática e reflexão.
Entrevista Nota 10 — Em relação ao Mestrado Profissional em Ciências da Cidade, de que forma o curso contribui para a nossa capital?
Laura Jucá — O Mestrado Profissional em Ciências da Cidade tem uma característica essencial: ele está profundamente conectado à realidade e orientado para a solução de problemas concretos. Mais do que formar profissionais que compreendem os desafios urbanos, o curso prepara pessoas capazes de propor e implementar soluções aplicáveis nos territórios.
No meu caso, minha pesquisa está voltada à construção de um novo modelo de gestão de resíduos sólidos orientado à reciclagem, com foco na estruturação de sistemas mais eficientes, inclusivos e alinhados à economia circular. É um tema central para o futuro das cidades, especialmente em contextos como o nosso, onde a gestão de resíduos ainda é um grande desafio, mas também uma enorme oportunidade de geração de valor ambiental, social e econômico.
Entrevista Nota 10 — Primeira mulher no cargo de superintendente da Agefis. O que isso representa para a sua história?
Laura Jucá — Ser a primeira mulher superintendente da Agefis representa muito, mas vai além de uma conquista individual. É um marco que sinaliza uma mudança importante na ocupação dos espaços de decisão, ainda historicamente pouco acessíveis às mulheres. A diversidade nesses ambientes não é apenas uma questão de representatividade, mas de qualidade das decisões, diferentes olhares constroem soluções mais completas e mais justas.
Ao mesmo tempo, essa conquista também evidencia as barreiras que ainda existem. Ao longo da minha trajetória, percebi que muitas mulheres extremamente qualificadas não chegam a esses espaços, não por falta de competência, mas por ausência de rede, de apoio e, muitas vezes, por estruturas que ainda não consideram as múltiplas jornadas que nós enfrentamos.
Foi a partir dessa percepção que nasceu minha atuação no Elas na Gestão, um movimento que criei junto com outras mulheres com o objetivo de fortalecer essa rede de apoio, troca e desenvolvimento. Acreditamos que o avanço das mulheres na liderança passa, necessariamente, por caminharmos juntas, compartilhando experiências e ampliando nossas referências.
Para mim, ocupar esse cargo sempre foi também uma responsabilidade: abrir caminhos, inspirar outras mulheres e mostrar que é possível liderar com firmeza, competência e resultados, sem abrir mão da nossa identidade, da escuta e do cuidado com as pessoas.
Entrevista Nota 10 — Fortaleza celebra 300 anos e você teve participação direta no desenvolvimento da capital cearense. Como define a sua relação com a cidade?
Laura Jucá — Minha relação com Fortaleza é profundamente afetiva, mas também de compromisso e responsabilidade. Foi aqui que construí minha trajetória profissional e pessoal, guiada por um propósito que nasce da minha própria história e das referências que carrego, especialmente do meu pai, que dedicou sua vida ao cuidado com os mais vulneráveis.
Minha formação começou no setor privado, em uma multinacional de auditoria, seguiu por uma grande empresa de serviços e, posteriormente, me levou ao setor público. Foi na Prefeitura de Fortaleza, ao longo de quase uma década, sendo os últimos anos como superintendente da Agefis, que tive a oportunidade de conhecer a cidade em sua complexidade real. Ali, vivenciei de perto as desigualdades, os desafios urbanos e as urgências sociais e ambientais que ainda precisamos enfrentar.
Fortaleza me ensinou muito sobre gestão, mas, sobretudo, sobre pessoas. Me ensinou que cuidar do meio ambiente é também cuidar das pessoas e do futuro coletivo.
Hoje, seja na iniciativa privada ou em projetos de impacto, sigo com o mesmo compromisso: contribuir para uma cidade mais justa, sustentável e cheia de oportunidades. E levo comigo também um propósito pessoal muito claro: incentivar outras mulheres a ocuparem espaços de protagonismo, a não terem medo de se expor e a liderarem em suas áreas. Acredito que inspirar transformação social e ambiental, com responsabilidade e consistência, é uma das formas mais concretas de construir o futuro que queremos para Fortaleza.
Esta reportagem está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, contribuindo para o alcance dos ODSs 4 - Educação de Qualidade, 5 - Igualdade de Gênero, 9 - Indústria, Inovação e Infraestrutura, 10 - Redução das Desigualdades e 11 - Cidades e Comunidades Sustentáveis.
A Unifor, assim, integra formação acadêmica, inovação tecnológica e serviços gratuitos à comunidade. Ao unir preservação ambiental, saúde e inclusão social, a Universidade atua como motor do desenvolvimento sustentável e protagonista na evolução urbana e social de Fortaleza.