Entrevista Nota 10: Conrado Schlochauer e o poder do lifelong learning na prática docente

seg, 31 março 2025 11:47

Entrevista Nota 10: Conrado Schlochauer e o poder do lifelong learning na prática docente

Doutor em Psicologia da Aprendizagem fala sobre lifelong learning, formação docente e como práticas pedagógicas podem ser implementadas e aprimoradas no ensino superior


No dia 15 de março, Conrado participou do Encontro Pedagógico Integrado 2025 da Unifor com a palestra “Lifelong Learners - O poder do aprendizado contínuo” (Foto: Ares Soares)
No dia 15 de março, Conrado participou do Encontro Pedagógico Integrado 2025 da Unifor com a palestra “Lifelong Learners - O poder do aprendizado contínuo” (Foto: Ares Soares)

O lema “Ensinando e Aprendendo” da Universidade de Fortaleza, instituição de ensino da Fundação Edson Queiroz, carrega a visão do ensino como uma via de mão dupla: quem aprende também ensina algo a quem está ali guiando o aprendizado em sala de aula.

Seguindo essa filosofia, a Unifor também se dedica à formação contínua de seu corpo docente, aproximando ainda mais os professores do lifelong learning, ou aprendizado ao longo da vida, em português. No Encontro Pedagógico Integrado 2025, inclusive, o conceito ganhou destaque durante uma reflexão sobre o fazer pedagógico. 

O momento foi guiado pelo empreendedor e ativista da aprendizagem Conrado Schlochauer, que ministrou a palestra “Lifelong Learners - O poder do aprendizado contínuo”. Mestre em Criatividade pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e doutor em Psicologia da Aprendizagem pela Universidade de São Paulo (USP), o palestrante contou com a presença de mais de 1.200 professores da Unifor no evento.

“O professor e a professora estão a entender a necessidade de repensar a maneira como organiza o seu material, divide seu conteúdo, apresenta. Enfim, essa acho que é a principal abordagem do lifelong learning, pensando nos docentes”, pontua.

Conrado é fundador e membro da nōvi, empresa especializada no desenvolvimento de culturas de aprendizagem, e autor do best-seller “Lifelong Learners – o poder do aprendizado contínuo”. Nos últimos 30 anos, tem se dedicado ao questionamento do modelo tradicional de educação corporativa e à proposição de novos métodos e olhares sobre aprendizado.

Na Entrevista Nota 10 desta semana, ele fala sobre lifelong learning, formação docente e como práticas pedagógicas podem ser implementadas e aprimoradas no contexto do ensino superior, além de comentar sua participação no EPI 2025.

Confira na íntegra a seguir.

Entrevista Nota 10 — A docência universitária carrega as próprias questões e necessidades, abrindo um escopo de debate específico no desenvolvimento docente. Como o conceito de lifelong learning pode ser incorporado na formação e prática desses professores para promover uma educação mais adaptativa e relevante no ensino superior?​ 

Conrado Schlochauer — No fundo, de uma maneira geral, as aulas são preparadas e estruturadas com um conteúdo que repetimos, então, especialmente nas matérias menos vinculadas à atualidade - em química, em física, em fisiologia, mesmo em administração -, tem muita matéria que é a mesma, a aula já está lá preparada. Então, temos uma tendência grande de replicar o que a gente vem fazendo com sucesso nos últimos anos.

Temos um perfil de aluno agora que demanda coisas diferentes e com a própria inteligência artificial, que se estrutura, estuda e produz de maneira diferente usando essa ferramenta. O conceito de lifelong learning tem que estar presente agora porque, efetivamente, o que trouxe as faculdades, os professores até aqui, as habilidades, os conhecimentos, não é a mesma coisa que vai continuar, especialmente nessa crise de engajamento que vivemos.

Então, o professor e a professora estão a entender a necessidade de repensar a maneira como organiza o seu material, divide seu conteúdo, apresenta. Enfim, essa acho que é a principal abordagem do lifelong learning, pensando nos professores.

Entrevista Nota 10 — Em seu livro “Lifelong Learners – o poder do aprendizado contínuo”, você enfatiza a importância de retomarmos o controle do nosso processo de aprendizado, deixando de lado a ideia de que só aprendemos se formos ensinados por alguém. Como essa perspectiva pode ser aplicada no desenvolvimento docente contínuo, especialmente com o surgimento de novas tecnologias? De que maneira isso influencia a autonomia dos estudantes tanto em sala de aula quanto fora dela?

Conrado Schlochauer — Eu acho que assim: o estudante dependia durante muito tempo do conhecimento do professor como fonte principal, senão única, do conhecimento, do saber. Hoje o professor divide com as tecnologias, com as redes sociais e com a própria inteligência artificial o papel como fonte de conhecimento. Então, essa função “eu sei mais do que você e vou te contar como funciona o mundo” deixou de ser necessária, deixou de ser útil.

Agora, tem uma função que é o engajamento com o conteúdo e com a matéria, a experiência prática de aplicação, a elucidação de um conceito mais complexo - no fundo, o papel de um grande facilitador de aprendizado, um termo um pouco batido, mas relevante - passou a ser o que é mais importante. Então, nós somos todos profissionais que têm de ajudar o aluno e a aluna a entender e, de alguma maneira, traduzir esse conteúdo que está democratizado em conhecimento. Transformar conteúdo em conhecimento talvez seja um bom objetivo.

Entrevista Nota 10 — Junto a Alex Bretas, você desenvolveu o método CEP+R (Conteúdos, Experiências, Pessoas e Redes) como uma estratégia para potencializar o aprendizado contínuo. Como os docentes podem aplicar esse método em suas práticas pedagógicas para enriquecer a experiência educacional dos estudantes universitários? O ensino superior exige alguma adaptação distinta para a aplicação do CEP+R?

Conrado Schlochauer — O CEP+R, mais do que um método, é uma maneira como a gente organizou as fontes de aprendizado possíveis, e eu acho que ele poderia ser uma bela referência para a construção das experiências de aprendizagem dos alunos.

Então, "C" de "Conteúdo" continua sendo muito relevante. E aí podemos abrir diversos tipos de conteúdos possíveis,  de formatos possíveis: desde a própria apresentação que fazemos, o uso de vídeos, o uso de artigos e por aí vai, continua sendo uma fonte muito importante.

O "E" de "Experiência" é aplicação prática, muitos de nós já fazemos isso. E eu gosto de pensar em aplicação prática direta e indireta. Aplicação prática direta é "estou no laboratório, preciso aprender como usar uma pipeta, eu vou usar uma pipeta", então, é colocar a mão na massa, nos laboratórios, de novo, coisas que já fazemos. A experiência indireta é "como é que eu posso ter uma outra experiência que me ajude a desenvolver a competência?". Na palestra, dei o meu exemplo de como é que o meu curso de palhaço me ajudou a desenvolver a competência de criatividade. Então, buscar nesse tipo de dinâmica de troca pode ser algo interessante.

"Pessoas" tem muito a ver com identificarmos - num circuito próximo ou pode ser um outro professor, um executivo, uma executiva de uma grande empresa - pessoas que ilustrem o aprendizado que estamos oferecendo de uma maneira mais pragmática.

E "Redes" têm dois olhares também. Podem ser tanto olhar o grupo de aprendizes como uma rede de aprendizado, e podemos dividir a sala em grupos menores, mas tem um grupo que se estimula; e podem ser também um grupo de fora da sala - por exemplo, em tecnologia, você tem os fóruns ainda funcionando muito. Então, quais são as redes que estão estudando e se aprofundando nesse tema que podemos conectar os nossos alunos? Acho que essa é uma maneira de estruturar e de pensar.

Entrevista Nota 10 — As avaliações fazem parte do processo de aprendizagem dos alunos, mas também são importantes ferramentas no desenvolvimento das metodologias de ensino aplicadas pelos professores. Como as avaliações podem ser estruturadas para fornecer feedback construtivo aos docentes, visando a melhoria contínua de suas práticas pedagógicas e, consequentemente, a qualidade do ensino oferecido aos estudantes universitários?

Conrado Schlochauer — Em relação às avaliações, eu acho que temos que separar o que estamos avaliando. Muitas vezes, a avaliação acaba esbarrando em quanto os alunos gostaram ou não do professor, da matéria, da abordagem. Essa é uma avaliação quase que se faz num show de entretenimento, "você achou interessante?". Eu acho que é importante, obviamente, que se o aluno ou a aluna estiverem aborrecidos ou não estiverem gostando ou presenciarem uma situação de assédio, acho que tem que ter um espaço para ouvir o aluno e a aluna nesse processo. Mas acho que isso é parte do processo. Ele é um indicador quase operacional. No fundo, os grandes indicadores de avaliação têm que ver na capacidade de colocar em prática aquilo que conseguimos fazer.

No começo, especialmente a partir do pensamento de competências, temos uma expectativa de aplicação. Então, se conseguirmos ter um método de avaliação que avalia a capacidade de aplicação e não a capacidade de memorização de conhecimento, temos uma bela referência para construir essa iniciativa.

Entrevista Nota 10 — Você participou do último Encontro Pedagógico Integrado (EPI) da Unifor ministrando a palestra “Lifelong Learners - O poder do aprendizado contínuo”. Qual a importância de momentos como esse para o desenvolvimento docente, especialmente no âmbito universitário? E qual o papel das instituições de ensino superior no estímulo ao aperfeiçoamento contínuo desses profissionais da educação? 

Conrado Schlochauer — O evento foi bárbaro. Colocar 1.200 professores no evento e alinhar o objetivo do ano, que é a avaliação, e convidá-los para o processo de aprendizado, eu acho muito corajoso e muito importante. Eu senti as pessoas super presentes. No final, falei com um monte de gente. No fundo acho que é um ponto de saída, um ponto de largada para esse convite para o aprendizado contínuo. Repetindo o que eu falei na primeira pergunta sob outro aspecto, temos uma tendência de ter o nosso material e aplicar a mesma aula, porque é assim que funciona, e o convite à mudança acho que é algo muito, muito bacana.

Entrevista Nota 10 — No EPI deste ano, a Unifor adotou como mote “Ensinar, aprender e transformar”, uma inspiração no próprio slogan da Universidade: “Ensinando e aprendendo”. De que maneira essa visão se encaixa no conceito de lifelong learning ao tratar o aprendizado como uma via de mão dupla? Para você, como os pilares da Unifor — ensino, pesquisa e extensão — bebem dessa fonte para formar profissionais de excelência e produzir conhecimento transformador? 

Conrado Schlochauer — Eu acho maravilhoso, porque sabemos que precisamos desse processo de crescimento contínuo. E isso vai acontecer por meio da humildade do reconhecimento de que mesmo quem ensina tem que aprender. Então, acho que essa vulnerabilidade é uma coisa super, super relevante. Ensino, pesquisa e extensão, mais uma vez, eu acho que é o que diferencia, especialmente pesquisa e extensão, a Unifor como essa ilha de excelência no nosso país quando falamos de educação privada. A seriedade com que esses assuntos são abordados é o que faz diferença.