Entrevista Nota 10 | Thiago Daniele e o atendimento às mulheres negras e idosas no SUS como foco de estudo
ter, 27 outubro 2026 16:20
Entrevista Nota 10 | Thiago Daniele e o atendimento às mulheres negras e idosas no SUS como foco de estudo
A partir da escuta com grupo de mulheres, professor coordenou manual de orientação profissional "Combate ao racismo e ao idadismo na Atenção Primária à Saúde", contemplado por edital de pesquisa

A transformação da pesquisa científica em ações concretas para a sociedade é o ponto de partida do manual Interseccionalidade e o cuidado: combate ao racismo e ao idadismo na Atenção Primária à Saúde, coordenado pelo professor Thiago Daniele, da Universidade de Fortaleza (Unifor). instituição vinculada à Fundação Edson Queiroz. A publicação aborda o atendimento a mulheres negras e idosas na Atenção Primária à Saúde, com foco no enfrentamento do racismo e do preconceito relacionado à idade.
O trabalho coordenado por Thiago Daniele teve redação e revisão de Ana Mattos, professora do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (PPGSC); Larissa Oliveira, mestranda em Saúde Coletiva; Letticia de Araújo, graduanda em Educação Física; e Danielle Albano, psicóloga com atuação na Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Fortaleza.
O conteúdo parte de uma pesquisa desenvolvida com mulheres negras, idosas e periféricas da Comunidade do Dendê, em Fortaleza, que participaram ativamente da construção do material, desde a escolha dos temas e das imagens até a validação do conteúdo.
A publicação foi selecionada no edital Envelhecer com Futuro, promovido pelo Itaú Viver Mais em parceria com o Portal do Envelhecimento. A iniciativa seleciona e apoia projetos interdisciplinares voltados à promoção do envelhecimento ativo e à garantia dos direitos da população idosa, além de incentivar a aproximação entre a produção acadêmica e a sociedade.
Para a jornalista Beltrina Côrte, fundadora do Portal do Envelhecimento, o edital contribui para a democratização da ciência. “O edital contribui, sem dúvida, para a democratização da ciência. Ou seja, atua como ponte entre a universidade e a sociedade, convertendo teses, dissertações e artigos científicos em conteúdos informativos e de fácil leitura, disponíveis gratuitamente para a sociedade. Outra grande contribuição é o estímulo à formação interdisciplinar de novos pesquisadores que ultrapassam as fronteiras acadêmicas e impactam suas comunidades”, destaca.
Nesta edição da Entrevista Nota 10, Thiago Daniele explica como surgiu a proposta do manual, detalha a participação das mulheres da Comunidade do Dendê na elaboração do conteúdo e reflete sobre os desafios para identificar e combater manifestações de racismo e idadismo nos serviços de saúde. Ele também comenta a importância do reconhecimento recebido pelo edital e o papel da pesquisa na construção de práticas de cuidado mais humanizadas e inclusivas.
Leia a entrevista na íntegra a seguir
Entrevista Nota 10 — Como se deu a ideia de produzir o manual de orientação profissional de combate aos racismo e ao idadismo na Atenção Primária à Saúde?
Thiago Daniele — A ideia do manual surge como uma, não só necessidade social, mas como um meio de transformar a pesquisa em intervenção aplicada, buscando realmente uma transformação social. O produto nasce da dissertação de mestrado da egressa Larissa Oliveira e de atividades do Grupo de Estudo e Pesquisa em Envelhecimento, Saúde e Subjetividades (Gepess) e, graças ao reconhecimento do edital “Envelhecer com Futuro”, conseguimos expandir, produzir e construir um produto social com capacidade mudar realidades dentro do cuidado em saúde.
Entrevista Nota 10 — Logo em sua apresentação, a obra cita o protagonismo do grupo de mulheres negras, idosas e periféricas da Comunidade do Dendê para a produção do material. Pode nos contar de forma detalhada de que forma se deu a contribuição delas?
Thiago Daniele — O produto foi construído com elas, não sobre elas: os temas, as imagens e a validação deste material passaram pelas mãos dessas mulheres. À medida que a equipe construía o material, as mulheres avaliaram o que era mais relevante manter e o que deveria ser descartado — uma curadoria de conteúdo ao longo de todo o processo, não uma validação de ponta única ao final. É importante destacar que no manual elas estão identificadas por código, não por nome.
Entrevista Nota 10 — A obra destaca que o grupo de mulheres observado reconhece com mais facilidade um ato de discriminação pela idade do que pela cor de pele. O que explica isso?
Thiago Daniele — Essa questão evidencia a importância de os profissionais desenvolverem sensibilidade para reconhecer as manifestações do racismo, inclusive aquelas que nem sempre são percebidas pelas próprias mulheres. São marcas que costumo chamar de “invisíveis” entre aspas, pois podem passar despercebidas, mas são perceptíveis na construção histórica, nos relatos e nas falas dessas mulheres.
Embora tenham vivenciado situações de preconceito racial, muitas não reconheciam essas experiências como racismo. Expressões como “negrinhas”, “macacas” e “cabelo ruim”, por exemplo, revelam manifestações racistas que foram naturalizadas e, por isso, nem sempre identificadas como tais pelas próprias mulheres. No entanto, essas marcas estão presentes em seus relatos, na forma como se expressam e nas experiências que compartilham.
Já o idadismo tende a ser reconhecido com mais facilidade porque suas manifestações podem ser mais visíveis e palpáveis, como o preconceito associado ao fato de ser uma mulher idosa, andar mais devagar ou apresentar limitações físicas. Por isso, a discriminação relacionada à idade acaba sendo percebida mais facilmente do que o racismo, o que reforça a necessidade de um olhar atento e sensível dos profissionais para identificar as diferentes formas de exclusão.
Entrevista Nota 10 — Com a ampla divulgação do material, é possível imaginar uma mudança profunda no atendimento às mulheres negras e idosas em unidades de saúde de todo o Brasil?
Thiago Daniele — O manual deixa claro que não representa uma acusação a nenhum profissional Os comportamentos, atitudes e falas exemplificados foram escritos para suscitar a reflexão dos profissionais de saúde, no que se refere, por exemplo, à importância da prestação de serviços, pautados no princípio da atenção humanizada, à população de mulheres negras e idosas na Atenção Primária à Saúde. Reforço que ler o manual e reconhecer esse padrão na própria prática não é motivo de culpa, é o primeiro passo para atender diferente amanhã.
Entrevista Nota 10 — Qual o sentimento de coordenar o manual e ser agraciado com pelo edital Envelhecer com Futuro, que recebe trabalhos de todo o Brasil sobre envelhecimento ativo e garantia de direitos?
Thiago Daniele — O reconhecimento obtido pelo trabalho gera um sentimento de dever cumprido. O que mais me deixa realizado é saber que a construção desse manual pode contribuir para transformar uma realidade social tão difícil e ajudar a mudar situações vivenciadas nas comunidades e nas unidades básicas de saúde. Esse produto simboliza bem o que deve ser o exercício de um professor e pesquisador: construir mudanças reais e aplicadas para além dos muros da universidade.