Recorde em acidentes de trabalho no Brasil: como o profissional de segurança pode mudar esse cenário

seg, 19 outubro 2026 18:04

Recorde em acidentes de trabalho no Brasil: como o profissional de segurança pode mudar esse cenário

Número de acidentes laborais em alta no país expõe falhas na gestão de riscos e reforça a importância de especialistas em segurança


Em 2025, o Brasil registrou recorde de acidentes e mortes no trabalho, com mais de 800 mil ocorrências e 3 mil óbitos no ano (Foto: Getty Images)
Em 2025, o Brasil registrou recorde de acidentes e mortes no trabalho, com mais de 800 mil ocorrências e 3 mil óbitos no ano (Foto: Getty Images)

Voltar para casa em segurança após o expediente deveria ser uma garantia, mas o aumento constante de acidentes no trabalho expõe uma realidade incômoda: na maioria das empresas brasileiras, a saúde e a integridade física dos colaboradores ainda não são tratadas como prioridade.

Dados demonstram que os acidentes de trabalho continuam crescendo a passos largos no país. O Brasil registrou, em 2025, o maior volume de ocorrências e mortes laborais de sua história recente. Segundo levantamento da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), foram contabilizados 806.011 acidentes e 3.644 óbitos ao longo de apenas 12 meses.

Ao analisar o recorte de 2016 a 2025, o país acumula a estarrecedora marca de 6,4 milhões de acidentes e 27.486 mortes no trabalho. As consequências refletem-se também nos números de produtividade: no mesmo período, registraram-se mais de 106 milhões de dias de trabalho perdidos devido a afastamentos temporários e cerca de 249 milhões de dias debitados — indicador utilizado para mensurar o impacto permanente de lesões graves e óbitos na vida dos trabalhadores.

De acordo com a engenheira civil Pauliana Rocha, docente da Especialização em Engenharia de Segurança do Trabalho da Universidade de Fortaleza (Unifor) — instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz —, a persistência dos acidentes reflete a falta de uma gestão que encare a prevenção como um valor indispensável, e não como custo ou mera obrigação. Para ela, prevenir exige ir muito além de investimentos pontuais em infraestrutura e equipamentos.

“Hoje, é fundamental que as empresas desenvolvam uma gestão estruturada de saúde e segurança, definam perfis adequados para atuar em atividades críticas e promovam uma atuação proativa na identificação e mitigação de riscos”, pontua.

Ela explica que a antecipação dos perigos, aliada ao fortalecimento da percepção de risco e ao comprometimento das lideranças, é essencial para evitar que acidentes ocorram. “A segurança precisa estar integrada à estratégia do negócio e não ser tratada apenas como uma resposta após os incidentes”, afirma a docente.

Regulamentada no Brasil em 1985, pela Lei nº 7.410, a Engenharia de Segurança oficializou a atuação de especialistas dedicados a mapear perigos e a implementar protocolos de proteção. Contudo, o cenário atual demonstra que a existência de leis não basta se as organizações continuarem encarando a segurança como mero cumprimento burocrático de normas.

A dinâmica das notificações: alta contínua e as causas de ocorrências no ambiente laboral 

O mapeamento detalhado pela Secretaria de Inspeção do Trabalho toma como base as Comunicações de Acidentes de Trabalho (CAT) enviadas ao eSocial e ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

As curvas históricas do levantamento mostram que, após um breve período de retração em 2020 — ocasionado pela desaceleração da atividade econômica durante o auge da pandemia de covid-19 —, os registros voltaram a subir. No intervalo entre 2020 e 2025, o Brasil registrou um salto de 65,8% no volume total de acidentes notificados e um crescimento de 60,8% no número de vítimas fatais.

A análise técnica revela que essa ascensão é alimentada por fatores comportamentais e falhas operacionais que se repetem diariamente nos canteiros de obras, galpões de logística, fábricas e escritórios. Como explica a professora Pauliana Rocha, as origens dos acidentes apontam para falhas recorrentes de acompanhamento e suporte dentro das organizações.

“Entre as principais causas estão o descumprimento das regras de segurança, a ausência de padrões claros de trabalho, falhas na supervisão e a insuficiência de recursos para a gestão dos riscos. Além disso, muitas ocorrências decorrem da falta de uma cultura organizacional forte, onde a segurança seja entendida como um valor e não apenas uma obrigação legal”, enfatiza.

Para a docente, quando o ambiente corporativo trata a prevenção como um entrave ao cumprimento de metas ou apenas como um rol de exigências fiscais, abre-se espaço para a desatenção e o desrespeito aos procedimentos protetivos. É indispensável que as empresas:

  • definam regras claras,
  • ofereçam suporte técnico contínuo,
  • fiscalizem o cumprimento rigoroso e inegociável dos requisitos de segurança em cada etapa produtiva.

Além disso, a estrutura dos registros aponta mudanças importantes no perfil dos acidentes ao longo da última década. Os acidentes típicos – aqueles ocorridos no exercício da atividade profissional – permanecem como a maioria esmagadora das notificações, representando cerca de 65% do total acumulado. 

No entanto, os acidentes de trajeto, sofridos pelo trabalhador no percurso entre a sua residência e o local de trabalho, ganharam relevância contínua na composição das estatísticas, atingindo a fatia de 19,3%.

As doenças ocupacionais também apresentaram um pico atípico nos anos de emergência sanitária, sob o forte impacto das contaminações por Covid-19 enquadradas como enfermidades relacionadas ao trabalho, em especial na área da saúde.

O custo econômico, a previdência e o impacto humano 

O Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho da SmartLab — iniciativa do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) — revela a dimensão econômica desse cenário. Estima-se que o Brasil perca cerca de 4% do seu Produto Interno Bruto (PIB) todos os anos em razão de doenças e acidentes de trabalho, evidenciando como a falta de segurança compromete a produtividade do país.

Entre 2012 e 2024, a plataforma registrou mais de 2,5 milhões de afastamentos previdenciários acidentários, o que representa uma média superior a 200 mil novos afastamentos anuais. A esmagadora maioria dessas ocorrências enquadra-se em três categorias da Previdência Social:  

  • Auxílio-Doença Acidentário
    Concedido ao trabalhador que sofreu um acidente ou adquiriu uma doença ocupacional e precisa ficar temporariamente longe do trabalho.
  • Aposentadoria por Invalidez Acidentária
    Quando a perícia médica constata que a incapacidade gerada pelo acidente de trabalho é total e permanente. 
  • Auxílio-Acidente
    Concedido como indenização pelas sequelas que reduzem a capacidade laboral, mas que ainda consegue trabalhar.

Por trás dos indicadores econômicos, contudo, a dimensão humana da falta de prevenção revela impactos profundos na vida das famílias. Pauliana Rocha ressalta que as consequências de uma ocorrência grave ultrapassam os muros das empresas.

“Além dos impactos físicos, muitas vezes afeta a saúde mental, a rotina familiar, a estabilidade financeira e a qualidade de vida dos envolvidos. Em alguns casos, as mudanças são permanentes e exigem adaptações significativas no dia a dia. Por isso, o suporte ao trabalhador deve ocorrer antes, durante e após o processo de recuperação, envolvendo ações de acolhimento, reabilitação e acompanhamento contínuo”, defende a docente.

O desafio e o papel do engenheiro de segurança do trabalho   

Superar a vulnerabilidade nos locais de trabalho exige romper com o modelo que isola a gestão de riscos no setor de Segurança e Saúde Ocupacional (SSO). A professora Pauliana Rocha pontua que o maior gargalo vivenciado pelas organizações brasileiras é garantir que a cultura de prevenção esteja integrada a todas as instâncias de liderança.

“Muitas vezes, a segurança é vista como responsabilidade exclusiva da área de Saúde e Segurança, quando, na realidade, deve ser um compromisso de todos. A cultura de prevenção se fortalece quando líderes e empregados entendem que segurança não é uma atividade paralela ao negócio, mas uma condição indispensável para alcançar resultados sustentáveis”, afirma.


Muitos acidentes no trabalho podem ser prevenidos com o treinamento adequado sobre protocolos de segurança e a fiscalização do uso de equipamento de proteção (Foto: Getty Images)

Para estruturar essa prevenção no cotidiano, Pauliana orienta que a criação de políticas transparentes, procedimentos operacionais padronizados e indicadores de desempenho em segurança são passos fundamentais. Ela ressalta ainda a necessidade de investir em capacitação contínua para percepção de riscos, programas de comportamento seguro e o engajamento direto da gestão.

A engenheira salienta ainda que, embora o arcabouço normativo brasileiro seja relevante, o cumprimento da lei por si só não assegura ambientes seguros sem o compromisso social genuíno por parte das corporações.

“As empresas precisam compreender sua responsabilidade social e investir em recursos, processos, desenvolvimento das lideranças e suporte aos trabalhadores. A verdadeira transformação acontece quando a própria empresa assume o compromisso genuíno com a saúde, a segurança e o bem-estar de seus colaboradores.”

Nesse processo de transformação e implementação de políticas preventivas claras, o engenheiro de segurança do trabalho desponta como um profissional altamente estratégico. “A atuação vai além do atendimento à legislação, envolvendo a disseminação da cultura de prevenção, o fortalecimento da percepção de risco e o apoio às lideranças na gestão dos riscos ocupacionais”, destaca Pauliana.

A formação para a construção do profissional do futuro 

A necessidade de conter os índices de acidentes e implementar gestões de risco eficientes reflete diretamente na busca por profissionais qualificados. Na Universidade de Fortaleza, a Especialização em Engenharia de Segurança do Trabalho — voltada para engenheiros e arquitetos — aborda o gerenciamento preventivo, a legislação e o desenvolvimento de competências para a liderança de equipes.

Pauliana Rocha explica que a formação proporciona aos profissionais uma visão ampla e estratégica sobre gestão de riscos, permitindo identificar perigos de forma antecipada e implementar medidas preventivas eficazes.

“Além do conhecimento técnico, o curso contribui para o desenvolvimento de competências de liderança, tomada de decisão e gestão de equipes, fundamentais para influenciar comportamentos e fortalecer a cultura de segurança”, diz.

Sobre a inserção desses especialistas no mercado, a docente ressalta que a demanda por gestão de risco abrange diversos setores da economia, proporcionando uma atuação ampla e em múltiplas áreas operacionais.

Pauliana conta que a própria trajetória reflete essa realidade: formada em Engenharia Civil, teve a oportunidade de atuar em diferentes áreas, como manutenção mecânica, manutenção elétrica, segurança patrimonial, cozinha industrial, construção pesada e, atualmente, na siderurgia.

 “Essa diversidade [de atuação profissional] demonstra como a Especialização em Engenharia de Segurança do Trabalho abre portas e oferece perspectivas de crescimento em múltiplos setores, tanto em funções técnicas quanto em posições de liderança", afirma Pauliana.

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