Entrevista Nota 10: Juçara Mapurunga e o papel da psicanálise na pandemia

qui, 14 janeiro 2021 11:09

Entrevista Nota 10: Juçara Mapurunga e o papel da psicanálise na pandemia

Doutora em Psicologia e professora do Programa de Pós-graduação da Unifor destaca como a psicanálise ajuda a compreender questões da atualidade


Juçara Rocha Soares Mapurunga é Doutora em Psicologia e professora da Universidade de Fortaleza (Foto: Ares Soares)
Juçara Rocha Soares Mapurunga é Doutora em Psicologia e professora da Universidade de Fortaleza (Foto: Ares Soares)

Sob a ótica da Psicanálise, campo clínico e de investigação teórica da psique humana desenvolvido por Sigmund Freud, Juçara Mapurunga, professora do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza, instituição da Fundação Edson Queiroz, traz à luz importantes questões contemporâneas. 

Doutora em Psicologia e docente do Programa de Pós-graduação da Unifor, a psicanalista fala com exclusividade ao Entrevista Nota 10 sobre a relação dessa ciência com a pandemia e enfatiza também a relevância da atenção à saúde mental na atualidade. Confira na íntegra:

Entrevista Nota 10 - Professora, sabemos que o ano de 2021 chega com a forte responsabilidade de cumprir diversas expectativas que ficaram paralisadas em 2020 para muitas pessoas por conta do contexto pandêmico no qual permanecemos inseridos, infelizmente. Qual a importância de trabalhar o olhar para si mesmo e manter a saúde mental diante do desejo do imediatismo? 

Juçara Mapurunga - O desejo de imediatismo é aquele que quer ver as coisas prontas de imediato sem maiores implicações do sujeito com sua realização. A saúde mental para a psicanálise é você estar em equilíbrio entre o seu desejo e as trocas que você realiza com o laço social na busca de fazer valer suas escolhas, ou seja daquilo que você quer ou se permite realizar dos seus desejos inconscientes. E para isso só olhando para si mesmo, sua subjetividade e singularidade. Com a pandemia revemos a obra freudiana de 1930, “O mal estar na civilização”, que diz ser o primeiro ato civilizatório da humanidade a renúncia ao desejo de satisfazer plenamente nossos impulsos mais primários e imediatistas para que possamos construir e estruturar o social. O isolamento e o distanciamento social como procedimentos de biossegurança trazem sofrimento psíquico é certo, mas também são um exercício ético além das normas de saúde e sanitarismo, pois fazem que olhemos para o outro ao olharmos para nós mesmos ao nos cuidar como indivíduos em prol de um coletivo. 

Entrevista Nota 10 - E a solidão? Que lugar ocupa nesse contexto?

Juçara Mapurunga - Bom, esse isolamento e distanciamento social afetou o convívio é certo, mudou a estética das relações, privilegiando o virtual em detrimento do presencial dos corpos, trazendo a solidão em muitos casos. Mas convenhamos nesse cenário de desigualdades sociais que vivemos a solidão pode até ser um privilégio, pois muitos tiveram que fazer o isolamento em espaços minúsculos, sem possibilidade de seguir as normas ideais de biossegurança, ou nem puderam fazer como os sem teto. Mas a solidão pode ocupar vários espaços nesse contexto, como um espaço de criação através do estar em si que a solidão pode proporcionar, de reflexão e de crescimento espiritual. A solidão pode ser encarada por outros como uma punição, ou uma segregação do social, como o caso de muitos idosos e pessoas de grupo de riscos, sem muitos recursos de trocas simbólicas que pode levar à ansiedade e depressão. 

Entrevista Nota 10 - O que a permanência no espaço físico da casa representou para as relações familiares durante o lockdown?

Juçara Mapurunga - Como em tudo na vida esse acontecimento foi ambivalente trazendo representações positivas e negativas. Para algumas pessoas o ficar em casa trouxe a descoberta dessa dimensão física da casa e psíquica do lar que o corre-corre da vida cotidiana não permitia usufruir, então foi um ciclo com muito enriquecedor que propiciou o estreitamento e fortalecimento dos laços familiares. Para outros o convívio intenso trouxe a exacerbação de conflitos, atritos e em muitos casos o aumento da violência doméstica, por razões estruturais concretas como a falta de condições do espaço físico, dos conflitos relacionais, da crise econômica, entre outros fatores.

Entrevista Nota 10 - Ainda sobre o assunto pandemia, percebemos que ela tem escancarado o individualismo e o egoísmo de muitas pessoas na falta de cuidado para com o próximo, a recusa ao uso da máscara e a negação da própria pandemia são exemplos… Será que estamos apenas alimentando a “ilusão” de que nós, enquanto sociedade, sairemos melhores desse momento? 

Juçara Mapurunga - Ilusão e individualismo do narcisismo são questões elaboradas por Freud desde 1914 em “Introdução ao Narcisismo” e “O futuro de uma ilusão” em 1927, em que podemos resumir do seguinte modo adequando à nossa atual situação: somos antes de mais nada seres narcísicos, voltados para nós mesmos acima de tudo, por isso somos individualistas e egoístas. O  narcisismo é o amor que a pessoa atribui a si mesmo, como a um objeto libidinoso, do desejo, pode ser designado como o complemento libidinoso do egoísmo, e assim é que repetimos nossos erros, nosso egoísmo em busca da satisfação de nossos desejos. Freud descobre que o narcisismo é estrutural, uma forma de investimento libidinoso, pulsão necessária à vida subjetiva, mas quando excessivo, torna-se patológico e cheio de ilusões de magnitude e completude. Assim a ilusão é o erro inundado pelo nosso desejo.  É preciso um desejo e uma colaboração coletivos para vencermos a pandemia causada pelo coronavírus, sem ilusões, mas com a crença na ciência e na fé também de um mundo melhor sem tanta desigualdade e preconceitos e respeito às diversidades humanas, ao meio ambiente e aos animais. O individualismo voltado para a satisfação de nossos prazeres, como andar sem máscara e fazer aglomerações indo a festas, etc e tal, está fadado ao fracasso tanto pessoal quanto coletivo. 

Entrevista Nota 10 - Como a virtualização das relações afetivas e de consumo tem ganhado relevância na contemporaneidade? De que forma a Psicanálise pode nos ajudar a compreender isso? 

Juçara Mapurunga - A virtualização veio para ficar, é a tecnologia que pode nos ajudar a nos comunicarmos. Para a psicanálise foi o meio de prosseguir, de possibilitar o atendimento ao sofrimento psíquico no momento inicial da pandemia no limiar de 2020. Provou-se ser possível o atendimento online, pois trabalhamos com a palavra, e a voz pode ser ouvida e escutada pelo analista virtualmente. A sociedade de consumo tende a querer o lucro como meta, a psicanálise não pode usar o virtual para facilitar a vida em nome do consumo. Todos os consumos, inclusive de tempo. O tratamento analítico exige um trabalho psíquico que pode ser possibilitado pelo virtual, mas não facilitado, pois isto pode ser resistência ao trabalho do nosso inconsciente. É preciso corpo para haver relação afetiva e mesmo quando pensamos que ela é totalmente virtual, não é pois voz e imagem também são pulsões que nascem dos nossos corpos. A psicanálise ensina a desenvolvermos a escuta do outro, através da escuta de nossa própria voz quando falamos em associação livre aparecem as formações de nosso inconsciente e aprendemos a enfrentar nossos demônios e a ser mais tolerantes com os erros e as diferenças alheias. 

Entrevista Nota 10 - E a Política? Como se relaciona com a Psicanálise? Vivemos um momento de extremismos e ausência de diálogo…

Juçara Mapurunga - A psicanálise é uma prática discursiva que parte de um diálogo entre a(o) analista e a (o) analisante. Esse tratamento tem uma eficácia simbólica que se manifesta nas transformações da vida, nos atos das pessoas e isto é uma ação política. Freud falava de três impossíveis: educar, governar e psicanalisar. Isto quer dizer que são três dimensões que estão sempre inacabadas e que só se permitem no laço social através do discurso e de relações de poder, que permeiam o individual e o coletivo. A ação política não acontece sem problemas ou mal-estar como diria Freud, pois sucumbimos à decadência do nosso corpo que nos leva à morte, às intempéries do meio ambiente e às turbulências das relações com o outro. O extremismo é um narcisismo patológico de achar que suas concepções são as ideais para todos, é se achar melhor que o outro e ilimitado. A Covid-19 veio mostrar que a castração existe, que há um limite para todos, e que a morte chega. Se não colaborarmos, um a um em torno de um coletivo, não haverá sobrevivência, e aí mesmo é que não poderá mesmo haver liberdade e escolhas. A psicanálise traz o discurso da castração simbólica, que organiza e possibilita a vida social. É mais ou menos como se diz que o seu direito termina quando começa o direito do outro.

Entrevista Nota 10 - Poderia falar um pouco sobre seu livro “TPM: Tensão, Paixão e Mal-estar: a Subjetivação de uma Mulher em Tensão Pré-menstrual”? Como ele nasceu e o que aborda?

Juçara Mapurunga - Nasceu do meu mestrado em Psicologia, feito aqui na Unifor. Foi uma injunção acadêmica com o meu trabalho clínico de escuta psicanalítica, ao trabalhar um caso clínico. Aborda ou faz uma construção psicanalítica deste momento de destempero da mulher e as saídas, ou posições subjetivas para ele. Ao invés de patologizar os sintomas da tensão pré-menstrual procuro marcá-la como um atravessamento de fantasias que podem levar à verdade do inconsciente. Em tempos de controle e ilusões de perfeição a tensão menstrual pode ser um espaço de fala do feminino, como a histeria foi para Freud no início do século vinte. Não à toa inspirou meu outro trabalho, que será publicado este ano sobre a invenção do politicamente correto e suas contradições, mas isto já é uma outra história.

Entrevista Nota 10 - Professora, para finalizar, que pesquisas você tem desenvolvido atualmente?   

Juçara Mapurunga - Diversas pesquisas com os alunos de graduação, como o ódio ao feminino e a violência contra as mulheres, a devastação causada nas filhas pelas mães narcísicas, o racismo estrutural na história da psicanálise, a solidão como fator de risco para adoecimento psíquico em idosas, a escuta de mulheres e a construção da feminilidade, o luto da pandemia, por exemplo. Tenho grupos de estudos sobre a Psicanálise e o atendimento on-line e o ódio ao feminino e as problematizações das questões de gênero. Participo de uma pesquisa internacional na pós-graduação, coordenada aqui no Brasil pelo prof. Leonardo Danziato sobre o aumento da violência  doméstica contra as mulheres agora na pandemia, intitulada “Violência de Gênero no Isolamento Social da Pandemia do Covid-19: Uma proposta de intervenção em urgência subjetiva com mulheres em situação de vulnerabilidade e risco”, em que escutamos de forma online mulheres encaminhadas pela defensoria pública