Como os arquitetos podem ajudar a reduzir os efeitos da emergência climática nas cidades?

Com secas, tempestades e ondas de calor frequentes, profissionais de arquitetura e urbanismo redefinem materiais e projetos para criar edifícios e espaços urbanos mais resilientes

Chuvas acima da média, recordes de temperatura e inundações cada vez mais frequentes. O que antes parecia um cenário de ficção científica tornou-se a realidade cotidiana do noticiário global.

No Brasil, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) aponta que mais de dois mil municípios estão expostos a riscos geo-hidrológicos e que, entre 2020 e 2023, mais de 6,8 milhões de pessoas ficaram desabrigadas ou desalojadas devido aos desastres climáticos.

Em 2025, dias antes da COP-30 em Belém (PA), uma intensa sequência de tornados afetou o Sul do país. Este evento, segundo o relatório de operação do Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil (SINPDEC) , deixou sete mortos, centenas de feridos e cerca de 90% da área urbana sofreu algum tipo de dano, com residências e edificações comerciais destruídas, além de prejuízos à infraestrutura pública, como escolas, unidades de saúde, redes de energia e abastecimento de água.

Cenários como esse levantam um debate importante e cada vez mais necessário para a sociedade: como a arquitetura pode ser sustentável e contribuir para o combate ou a mitigação dos efeitos da crise climática nos ambientes urbanos?

Do resgate ancestral às estratégias bioclimáticas 

Ao contrário do que se possa imaginar, responder à emergência climática não significa necessariamente inventar a arquitetura do zero, mas sim recuperar princípios fundamentais que se perderam ao longo das últimas décadas. É o que defende Liana Feingold, professora do curso de Arquitetura e Urbanismo e da Especialização em Arquitetura e Projeto Sustentável da Universidade de Fortaleza (Unifor), instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz . 

“Não se trata de pensar do zero, mas de resgatar práticas que sempre foram muito bem aplicadas desde os nossos povos originários, através dos recursos existentes, através de projetar em harmonia com a própria natureza. Em alguns momentos, isso tudo foi se perdendo por algumas questões mais estéticas ou mesmo de determinados materiais aplicados de forma errada ou em localizações erradas”, explica a arquiteta urbanista.

Ela pontua que, hoje, quando fazemos trocas com a forma de projetar africana, por exemplo, estamos falando de processos que dialogam diretamente com a nossa realidade, especialmente no Nordeste.

Dados da organização Architecture 2030 mostram que as operações prediais respondem por 27% das emissões anuais de carbono no mundo, enquanto o “carbono incorporado” na fabricação de cimento, aço e alumínio adiciona outros 15%. Por isso, profissionais da arquitetura e da construção civil têm focado em saídas para minimizar esse impacto ambiental.

Reduzir a pegada de carbono de uma edificação envolve tanto a escolha consciente dos materiais de construção quanto o desenho de estratégias passivas de conforto que eliminem a dependência de sistemas mecânicos de refrigeração.

Na prática contemporânea, o trabalho do arquiteto organiza-se em duas frentes complementares:

  • Mitigação: escolha de materiais de menor pegada ecológica (como a madeira engenheirada) e redução do consumo energético predial para diminuir as emissões de gases de efeito estufa.
  • Adaptação: desenvolvimento de soluções construtivas e urbanas capazes de resistir e amortecer os impactos dos eventos extremos.

Para a professora Liana Feingold, a busca por soluções efetivas exige um mergulho profundo na diversidade de opções disponíveis no mercado: “Desde a arquitetura moderna, os brises-soleils, as chaminés, as exaustões naturais, essa troca de temperatura frio e quente, retenção de temperatura, a arquitetura sempre soube como utilizar esses artifícios. E agora, cada vez mais, percebemos que, mesmo com as mudanças, precisamos ainda mais evoluir nessa percepção de que temos boas alternativas”.

Soluções baseadas na natureza e na escala urbana 

A  resposta à crise ambiental ultrapassa os limites das paredes de uma residência ou edifício corporativo. O planejamento dos espaços públicos, das vias de circulação e das áreas de convivência desempenha papel crucial na regulação da temperatura das cidades e na prevenção de tragédias geo-hidrológicas.

Entre as principais alternativas destacam-se as Soluções Baseadas na Natureza (SBN). Instrumentos como jardins de chuva, lajes verdes, superfícies permeáveis e parques lineares atuam como sistemas drenantes e filtrantes, imitando o comportamento original dos ecossistemas para absorver o excesso de águas pluviais e mitigar o efeito das ilhas de calor urbanas. 

“A própria natureza mostra como uma cidade deveria absorver a água. Os jardins drenantes e filtrantes são aprendizados de como a natureza se comporta, nos quais inserimos novas materialidades para manter essa mesma funcionalidade”, destaca Liana Feingold.



“A biofilia, que é essa prática de se conectar com os elementos naturais, causa muito bem-estar. Quando existe essa troca do meio interno com o meio externo, a gente está falando de eficiência de saúde. Saber usar para cada região a melhor solução não é mais uma alternativa, isso é uma obrigação.” — Liana Feingold, arquiteta urbanista e docente da Unifor
 


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O tripé da sustentabilidade na tomada de decisões 

Para responder com eficácia a essas exigências, o mercado da construção civil passa por uma reestruturação pautada no tripé clássico da sustentabilidade: econômico, social e ambiental. Cada um desses fatores funciona da seguinte forma:

  • Econômico
    O projeto precisa demonstrar viabilidade financeira em seu custo de execução e operação, garantindo também a sustentabilidade financeira dos escritórios e negócios em arquitetura.
  • Social
    Exige escuta qualificada dos usuários e das comunidades. O projeto deixa de ser um ato isolado do projetista para se tornar um processo de co-criação ajustado às demandas reais de quem habitará o espaço.
  • Ambiental
    Envolve a escolha consciente de matérias-primas de baixo impacto, priorização de fornecedores e materiais regionais para reduzir a pegada de transporte, além do foco na durabilidade e no descarte correto ao fim do ciclo de vida da edificação.

Liana enfatiza que a resposta para os problemas complexos trazidos pelas mudanças climáticas não virá de uma solução isolada, mas de uma visão ampla e integrada: “A minha opinião pessoal é que, sempre que nós temos grandes problemas, nós precisamos também pensar em soluções sistêmicas. Então, nunca é só um item que resolve um todo, um circuito de projeções, de interligações que um espaço natural construído implica”, afirma. 

Para ela, o arquiteto tem esse papel esclarecedor tanto para o mercado quanto para cada cliente, que chega com uma demanda ou necessidade. “O arquiteto precisa ser também esse porta-voz do que é viável, do que que pode ser uma alternativa para aquela ideia. Quanto mais repertório e consciência ambiental o profissional tiver, melhor ele vai amparar os clientes e as demandas dos clientes que chegam”, pontua.

Dados e certificações: a validação científica de um projeto sustentável 

Uma das principais transformações no exercício profissional da arquitetura é a migração de discursos genéricos sobre sustentabilidade para a comprovação baseada em dados mensuráveis. O mercado exige, cada vez mais, que o desempenho de uma edificação seja demonstrado tecnicamente por meio de parâmetros de eficiência energética, análise do ciclo de vida dos materiais e certificações ambientais.

Segundo Liana Feingold, esse embasamento científico é indispensável para evitar o uso superficial do conceito de sustentabilidade. O cenário global, por exemplo, conta com diversos selos de desempenho ambiental, assim como a gestão pública local também tem acompanhado essa tendência. 

Em Fortaleza, a prefeitura oferece o Programa de Certificação Fator Verde , uma certificação municipal gerada por meio da Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (SEUMA). O selo avalia e atesta o nível de sustentabilidade de projetos de construção civil e de parcelamento do solo, e o objetivo é incentivar a adoção de técnicas, materiais e sistemas construtivos que reduzam o impacto socioambiental. 

Além do Fator Verde, o município conta com o Selo Empresa Amiga do Meio Ambiente , que certifica empresas que adotam práticas sustentáveis cotidianas em sua operação por no mínimo um ano.

Um projeto sustentável também exige que o profissional acompanhe o desempenho da edificação ao longo do tempo. A mensuração urbana e a Avaliação Pós-Ocupação (APO) surgem como ferramentas essenciais para coletar dados reais sobre o comportamento térmico, o consumo de água e energia e a eficiência do projeto.

Segundo Liana, a Especialização em Arquitetura e Projeto Sustentável da Unifor trabalha muito bem esses três tripés da sustentabilidade. A ideia é que a formação consiga trabalhar por meio de uma mensuração de dados, que é algo que cada vez mais o mercado tem pedido.

“Quando você se propõe a um projeto, você se propõe a melhorias. Então, elencar esses dados que vão ser mensurados no pós-ocupação desse projeto é muito valioso para que a gente consiga trazer sempre justificativas, mas também validar novas possibilidades através de boas execuções, de boas percepções e de boas entregas”, explica a professora.

Formação contínua e socioambiental 

A consolidação dessas exigências coloca o domínio da arquitetura sustentável no centro das competências mais demandadas pelo mercado da construção civil. Para além de atender a exigências regulatórias e selos ambientais, a capacidade de desenhar esses espaços tornou-se um requisito definitivo de responsabilidade e atuação profissional.

A Unifor acompanha essa transformação do mercado oferecendo a Especialização em Arquitetura e Projeto Sustentável , capacitando profissionais para responder com embasamento científico e prático às transformações do planeta.

O curso está com inscrições abertas, voltadas especialmente a profissionais de arquitetura, urbanismo e engenharia civil, com modalidade presencial, duração de 18 meses e carga horária de 370 horas.

 


Esta notícia está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, contribuindo para o alcance dos ODS 4 - Educação de Qualidade, ODS 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis, ODS 13 - Ação Contra a Mudança Global do Clima e ODS 15 - Vida Terrestre. 

A Universidade de Fortaleza reafirma, assim, o seu compromisso com a pesquisa de soluções para os grandes desafios socioambientais e de estratégias de mitigação e adaptação climática das edificações e espaços públicos.