O que faz um paisagista e qual é o seu papel na formação dos espaços urbanos?
Entenda como a atuação do profissional de paisagismo transforma o bem-estar, a convivência humana e a preservação das áreas verdes
Já parou para pensar em como seria a vida urbana sem áreas verdes, parques e praças? Espaços abertos e arborizados não apenas tornam as cidades esteticamente agradáveis, mas desempenham papel direto na saúde mental, no conforto térmico e no fortalecimento do senso de comunidade.
O termo “arquiteto da paisagem” foi empregado pela primeira vez em 1858 por Frederick Law Olmsted, que ao lado do arquiteto Calvert Vaux, desenvolveu o Greensward Plan , projeto vencedor para a criação do Central Park, em Nova York. Movidos pela convicção de que a natureza tem o poder de elevar o espírito humano, os criadores do parque nova-iorquino consolidaram a visão de que os espaços livres estruturam a dinâmica das grandes metrópoles.
Christina Bessa, docente do curso de Arquitetura e Urbanismo e da Especialização em Paisagismo da Universidade de Fortaleza (Unifor) — instituição vinculada à Fundação Edson Queiroz —, explica que embora o mercado identifique o paisagista majoritariamente pelo desenho de jardins, a atuação técnica abrange a concepção de espaços abertos, públicos ou privados, integrando vegetação, piso, mobiliário urbano, circulação e infraestrutura.
Trata-se de um mediador entre o meio natural e a sociedade, capaz de responder às exigências climáticas, culturais e sociais de cada local. “O paisagismo ainda é muito relacionado ao projeto de jardim. Mas a visão que trabalhamos envolve o estudo amplo da paisagem: o paisagismo começa antes, quando inserimos uma edificação no terreno. A própria implantação do edifício já é paisagismo”, conta a professora.
Ela, por exemplo, trabalha desde a concepção do projeto arquitetônico, discutindo a inserção da edificação na paisagem, até os aspectos visuais e como se comunica com o lugar. “A escolha da vegetação precisa ter coerência com a cultura de quem vai vivenciar o espaço. Não é só chegar e colocar uma plantinha; há todo um contexto a ser estudado”, considera.
Escalas de atuação e diálogo com o ambiente urbano
Embora o mercado privado absorva uma demanda contínua para projetos residenciais, comerciais e de interiores, o impacto social da profissão atinge seu ápice quando voltado para os espaços de uso coletivo, como praças, parques urbanos e áreas de preservação.
Para Christina Bessa, que é mestra em Ciências da Cidade, a formação do arquiteto especialista em paisagismo proporciona uma leitura integrada das dinâmicas urbanas e do patrimônio construído.
“Quando tratamos do projeto de um
parque, de uma praça ou de um jardim histórico, existe uma
conversa direta com o espaço urbano e com o patrimônio
histórico. Nesses casos, a intervenção exige a visão de
planejamento urbano e restauro do arquiteto. O paisagismo traz a
escala humana para a cidade: como as pessoas vivenciam o lugar,
quais são as sensações e conexões que o espaço proporciona.”
— Christina Bessa, professora do curso de
Arquitetura e Urbanismo e da Especialização em Paisagismo da Unifor
Segundo ela, a concepção de um projeto paisagístico não se limita a preencher áreas residuais com vegetação, exige uma metodologia estruturada capaz de garantir a viabilidade funcional e a longevidade dos espaços criados.
Na prática, o desenvolvimento de um projeto passa por fases fundamentais de análise e intervenção:
- Análise do terreno e diagnóstico
ambiental
Levantamento das condições bioclimáticas do local, inclinação do solo, regime de ventos, insolação, tipo de substrato e presença de espécies nativas ou preexistentes. - Estudo conceitual e programa de
necessidades
Definição da linguagem estética, zoneamento das atividades, estudo dos fluxos de circulação de pedestres e delimitação de áreas de permanência e contemplação. - Seleção botânica e especificação
de materiais
Escolha criteriosa de espécies vegetais de acordo com sua adaptação ao microclima, volumetria, textura, época de floração e demanda de manutenção. Especificação de pisos drenantes, mobiliário urbano, sistemas de iluminação e elementos aquáticos. -
Acompanhamento da execução e plano de manejo
Supervisão do plantio, preparo do solo e instalação da infraestrutura. Definição de rotinas de adubação, poda e irrigação, reconhecendo que a paisagem é um elemento vivo em constante transformação ao longo das estações.
Sustentabilidade, regeneração ambiental e bem-estar
No Brasil, esse direito ao espaço natural e saudável encontra amparo legal no Artigo 225 da Constituição Federal , que garante a todos o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, definindo-o como bem de uso comum do povo e essencial à qualidade de vida.
A conscientização sobre os benefícios do verde refletiu-se em uma expansão direta nas oportunidades de trabalho para os profissionais do setor. Esse movimento foi impulsionado sobretudo pelas transformações vivenciadas durante a pandemia de Covid-19, período em que o isolamento doméstico redefiniu a relação das pessoas com a moradia e com os espaços abertos.
“Depois da pandemia, em que todo mundo se viu preso dentro de casa, houve uma busca maior por essa conexão com o verde. As pessoas passaram a cultivar plantas em varandas, mesmo em apartamentos pequenos, e a procurar espaços livres para atividades ao ar livre assim que os locais reabriram”, diz Christina Bessa.
A docente observa que essa mudança de perspectiva também alcançou o setor público e a gestão das cidades: “Aqui, em Fortaleza, percebo um mercado aquecido e com uma demanda real. O próprio poder público tem entendido a importância de valorizar esses espaços, fomentando a requalificação e os programas de adoção de praças e áreas verdes. É uma área promissora, super agradável de trabalhar e na qual vale a pena investir”.
A atuação profissional abrange um leque diversificado de frentes de trabalho, como as áreas:
- Residencial e interiores: projetos para casas, varandas, jardins privativos e harmonização de plantas em ambientes fechados.
- Comercial e corporativo: pátios, fachadas e espaços de convivência em empresas e empreendimentos imobiliários.
- Espaços públicos e urbanos: parques, praças, bulevares e requalificação de áreas de preservação ou entorno de patrimônios históricos.
A atividade do paisagista não apenas opera na parte estética, mas também na manutenção da saúde mental. Para Christina, a convivência com a natureza alivia o estresse diário, melhora a produtividade em ambientes de trabalho e estimula encontros comunitários ao ar livre.
“O paisagismo traz o olhar humano, essa escala humana: como as pessoas vivenciam a cidade e experimentam o espaço. Quais são as sensações que o projeto passa e como o lugar se torna um ponto de expressão e conexão?”, reflete.
Formação alinhada às tendências do mercado
A expansão do mercado e a complexidade técnica dos projetos exigem profissionais preparados para atender desde a legislação de acessibilidade até os conceitos de infraestrutura verde. Nesse cenário, a Especialização em Paisagismo da Unifor surge como uma resposta direta às demandas do setor.
A professora Christina Bessa enfatiza que a matriz curricular do programa explora competências como concepção criativa, técnicas de implantação de jardim e acessibilidade nos espaços livres.
“Nossa pós-graduação é muito completa. Sendo presencial, temos a oportunidade de fazer visitas in loco e aulas práticas. O próprio campus da Unifor funciona como um grande laboratório, abrigando espécies nativas e exóticas. Temos o projeto Flora do Campus , no qual trabalhamos catalogando a vegetação da Universidade”, diz.
A Especialização em Paisagismo da Pós-Unifor está com as inscrições abertas para arquitetos, urbanistas, engenheiros agrônomos e ambientais e designers de interiores. O curso é presencial e tem duração de 18 meses, iniciando em outubro deste ano até março de 2028.
Esta notícia está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, contribuindo para o alcance dos ODS 4 - Educação de Qualidade, ODS 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis e ODS 15 - Vida Terrestre. A Universidade de Fortaleza reafirma, assim, o seu compromisso com a promoção de espaços abertos, sensibilidade social e o planejamento ecológico.