Entrevista Nota 10: Marina Bitu e a identidade nordestina na moda de luxo

ter, 3 novembro 2026 11:50

Entrevista Nota 10: Marina Bitu e a identidade nordestina na moda de luxo

Fundada pela entrevistada e sócia Cecília Baima, grife MARINA BITU possui nove anos de trajetória e presença cativa em principais circuitos de moda contemporânea


Na última semana, Marina Bitu esteve na Unifor para ministrar masterclass e mentoria aos alunos dos cursos de Moda e de Design de Moda (Ares Soares)
Na última semana, Marina Bitu esteve na Unifor para ministrar masterclass e mentoria aos alunos dos cursos de Moda e de Design de Moda (Ares Soares)

Fundada em 2017 pelas estilistas Marina Bitu e Cecília Baima, a MARINA BITU é uma marca cearense de moda autoral dedicada à transformação de referências culturais, memórias afetivas e saberes tradicionais em coleções de luxo. Com linguagem conectada à identidade nordestina, a grife constrói peças que unem sofisticação, experimentação e valorização das raízes brasileiras.

O trabalho da marca parte da pesquisa contínua sobre a cultura e os fazeres manuais. Plissados, crochê, macramê, rendas, bordados e trançados integram o repertório de técnicas artesanais presentes nas coleções, ao lado da investigação de materiais naturais. Em cada criação, passado, presente e futuro se encontram em narrativas visuais que conferem identidade às peças.

O compromisso com o desenvolvimento local também faz parte da atuação da MARINA BITU. Por meio de projetos e colaborações com comunidades artesãs, a marca contribui para a valorização dos saberes tradicionais do Ceará e para o fortalecimento do empreendedorismo feminino. A relação entre moda, território e responsabilidade social orienta escolhas que vão além da estética e alcançam os processos de criação e produção.

Ao longo de sua trajetória, a grife conquistou espaço em importantes circuitos da moda nacional e internacional. Entre as participações estão o São Paulo Fashion Week, a WHITE Milano e a Coterie New York, além de projetos em cidades como Londres e Paris. A grife também ganhou destaque em publicações como Vogue Brasil, Harper’s Bazaar, Marie Claire, Elle, Forbes, Estadão, Folha de S.Paulo e Exame.

A trajetória da marca cearense foi tema da masterclass “Da raiz ao mundo: construindo uma moda autoral com identidade”, ministrada pela estilista e designer de moda cearense Marina Bitu na Universidade de Fortaleza (Unifor), instituição da Fundação Edson Queiroz. A convidada é graduada em Design de Moda pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

O encontro, realizado no auditório da Biblioteca na última semana, apresentou aos participantes aspectos da carreira da profissional, seu processo criativo e experiências na construção de uma moda autoral conectada à cultura brasileira. A programação também incluiu uma mentoria, exclusiva para alunos convidados dos cursos de Moda da Unifor, com atividades sobre pesquisa de referências, experimentação de materiais e desenvolvimento de produtos.

Nesta Entrevista Nota 10, Marina Bitu fala sobre as referências pessoais e culturais presentes em suas criações, relembra o início da carreira e explica como o diálogo com artesãs contribuiu para a identidade da marca. A estilista também reflete sobre representatividade na moda, os desafios de conciliar liberdade criativa e viabilidade comercial e a importância de construir uma produção autoral conectada à cultura brasileira.

Leia a entrevista na íntegra a seguir.

Entrevista Nota 10 — Sua trajetória como estilista tem uma relação muito forte com as memórias afetivas e as referências culturais do Ceará. De que maneira suas experiências pessoais influenciam o processo criativo da marca?

Marina Bitu —  Durante muito tempo, minhas referências estavam relacionadas ao que eu vivia dentro de casa e ao que meu pai me apresentava. Eu tinha pouco contato com outras cidades e culturas, então meu universo era formado pelas experiências às quais conseguia ter acesso. Na época, não valorizava algumas dessas referências, como as músicas de Luiz Gonzaga que meu pai costumava ouvir. Hoje, percebo o quanto elas contribuíram para minha formação.

Com o tempo, entendi que essas memórias poderiam se transformar em elementos de pesquisa e criação. Em uma coleção desenvolvida durante a pandemia, por exemplo, utilizamos referências como sanfona, rapadura, mariola, peta e literatura de cordel. Eram elementos comuns da minha infância, mas que se transformaram em cores, estampas, silhuetas e objetos de design. Não precisei recorrer a grandes referências internacionais para construir aquela coleção. Parti da minha própria realidade.

Entrevista Nota 10 — A sua jornada teve início ainda durante a formação em moda, com uma experiência em uma loja de tecidos, e passou por diferentes empresas antes da consolidação da sua marca autoral. Quais aprendizados dessas primeiras experiências foram fundamentais para sua formação como estilista e empreendedora?

Marina Bitu — Minha primeira experiência profissional foi em 2009, durante um estágio em uma loja de tecidos. Ali, aprendi muito sobre materiais, agilidade e resolução de problemas. Precisava entender rapidamente o que os clientes procuravam e transformar suas ideias em desenhos. Essa experiência me ensinou a ser mais objetiva e dinâmica no processo criativo.

Aos 19 anos, também tive minha primeira tentativa de empreender, mas o negócio não deu certo. Depois da graduação, cheguei a considerar outros caminhos profissionais, porque sabia que trabalhar com criação envolvia instabilidade. Em 2012, comecei a trabalhar na Anamac e, posteriormente, passei por outras empresas, sempre com o objetivo de ampliar meus conhecimentos.

Um dos períodos mais importantes foi minha experiência de cinco anos na Água de Coco. Durante o desenvolvimento de uma coleção em parceria com rendeiras, percebi que, apesar de já trabalhar há mais de dez anos com moda no Ceará, conhecia pouco sobre técnicas artesanais do nosso território, como o labirinto, o bilro e a renda renascença.

O contato com essas mulheres transformou meu olhar sobre o artesanato e a cultura local. Foi ali que compreendi a importância de aproximar o passado do presente e de reconhecer os conhecimentos transmitidos entre gerações. Essa experiência foi decisiva para a construção da identidade que a minha marca tem hoje.

Entrevista Nota 10 — Em suas coleções, você também trabalha com referências do artesanato e dos saberes tradicionais do Ceará. Como aconteceu essa aproximação com as artesãs e de que forma ela transformou o posicionamento da marca?

Marina Bitu — O contato com as artesãs me fez compreender a importância das técnicas artesanais do Nordeste, das histórias transmitidas entre gerações e do conhecimento construído por essas mulheres. 

Também passei a refletir sobre o risco de perdermos essas tradições, principalmente porque muitas artesãs estão envelhecendo e não encontram, necessariamente, novas gerações interessadas em dar continuidade ao trabalho. Acredito que os designers podem contribuir com esse processo ao estabelecer parcerias, respeitando o conhecimento de quem domina as técnicas e colaborando com aquilo que sabem sobre mercado, produto e desenvolvimento.

Foi nesse encontro que compreendi melhor o caminho da minha marca. Hoje, a relação com a cultura, o artesanato, o território e a memória representa uma parte fundamental do que fazemos.

Entrevista Nota 10 — Você defende que referências regionais podem gerar criações contemporâneas e alcançar projeção internacional. Como transformar esses elementos em uma linguagem autoral, sem recorrer a estereótipos?

Marina Bitu — Acredito que cada profissional precisa identificar o que deseja comunicar e quais experiências, lugares e conhecimentos influenciam seu olhar. No meu caso, o interior do Ceará e as tradições artesanais se tornaram pontos de partida porque fazem parte da minha história. Mas isso não significa que todos têm de seguir o mesmo caminho. Cada pessoa deve encontrar seu próprio universo de referências.

Também considero importante pesquisar aquilo que foi esquecido ou pouco valorizado ao longo da história. Durante muito tempo, olhamos principalmente para referências europeias e deixamos em segundo plano muitos ofícios ligados às nossas origens indígenas e africanas. Precisamos ampliar esse olhar e reconhecer a riqueza cultural que existe no Brasil.

O Nordeste, por exemplo, não se resume ao sertão. O litoral, as cidades, a vegetação e, principalmente, as pessoas participam da construção da identidade regional. O desafio é compreender essas referências e transformá-las em algo particular, sem reproduzir estereótipos ou discursos que não correspondem à nossa realidade.

Entrevista Nota 10 — A identidade de uma marca também está relacionada às escolhas que ela faz no desenvolvimento dos produtos e na condução do negócio. Como esse posicionamento aparece na prática da Marina Bitu?

Marina Bitu — Para mim, branding é um conceito amplo, que envolve tudo o que a marca faz, comunica e apresenta. Isso inclui as escolhas sobre o que fazer, mas também aquilo que decidimos não fazer. Ao longo da trajetória da empresa, já abri mão de algumas parcerias e patrocínios porque não me identificava com os valores ou o histórico das organizações envolvidas.

Esse posicionamento também aparece na produção. Temos peças que utilizam tecidos da indústria brasileira, materiais reaproveitados e aplicações manuais desenvolvidas por grupos de artesãs. Em um dos projetos, por exemplo, trabalhamos com escamas provenientes do reaproveitamento da pesca do camurupim, em Flecheiras. A partir desse material, envolvemos diferentes profissionais em uma cadeia de produção que também contempla o trabalho artesanal feminino.

Nem sempre é necessário desenvolver um grande projeto social. Às vezes, pequenas decisões já representam uma contribuição importante para a construção de um mercado mais original e ético.

Entrevista Nota 10 — Sua participação na São Paulo Fashion Week apresentou uma coleção inspirada na trajetória de três mulheres ligadas ao conhecimento sobre as águas. Como surgiu essa proposta e qual mensagem você buscou transmitir?

Marina Bitu — Essa coleção representa uma evolução de pesquisas anteriores, que tinham como ponto de partida minha memória e minha relação com Fortaleza. Dessa vez, olhamos para a história de três mulheres: Márcia Ribeiro, pescadora artesanal de Canoa Quebrada; Marta Vannucci, oceanógrafa pioneira nas pesquisas sobre ecossistemas marinhos e manguezais; e Marie Tharp, cartógrafa norte-americana responsável pelo primeiro mapeamento da topografia do fundo oceânico.

A partir de diferentes campos de conhecimento relacionados às águas, elas deixaram contribuições importantes para a pesquisa e a disseminação desse conhecimento entre gerações. Utilizamos a metáfora das profundezas aquáticas para falar sobre o apagamento histórico de mulheres em profissões e áreas de atuação tradicionalmente ocupadas por homens. A narrativa aparece nas silhuetas, nas cores, nas estampas e nos bordados, que traduzem elementos dos universos de cada uma.

Entrevista Nota 10 — Você também aborda a diversidade e a representatividade feminina nas coleções. Como essas questões se refletem nas escolhas da marca?

Marina Bitu — Acredito que o espaço que nós, mulheres, ocupamos ainda tem uma dimensão política, porque estamos em um processo de transformação da sociedade. Como designer, procuro promover mudanças a partir das escolhas que estão ao meu alcance, seja nos produtos, nos discursos ou na forma como a marca se apresenta.

Sempre tive questões relacionadas ao meu corpo e, durante muito tempo, senti falta de encontrar roupas com design para mulheres com corpos maiores. Essa experiência influenciou nossas decisões. Hoje, boa parte das peças da Marina Bitu possui uma grade estendida, que contempla uma diversidade maior de corpos.

Também buscamos dar visibilidade a mulheres que tiveram suas contribuições profissionais apagadas ou pouco reconhecidas. Na coleção mais recente, trabalhamos com histórias de mulheres que ocuparam espaços tradicionalmente associados aos homens. Se tenho alcance e voz por meio do meu trabalho, acredito que preciso utilizá-los de maneira responsável. O silêncio de quem atua como designer é uma escolha muito irresponsável.

Entrevista Nota 10 — A construção de uma marca autoral exige equilíbrio entre liberdade criativa e viabilidade comercial. Como você lida com esse desafio?

Marina Bitu —  Cada produto tem uma função estratégica dentro de uma coleção. Quando desenvolvemos uma marca autoral, precisamos ter criações mais experimentais, porque a originalidade e o estranhamento também ajudam a construir nossa identidade. Essas peças podem despertar o interesse do público e comunicar o conceito da coleção, mesmo que não sejam produzidas em grande escala.

Por outro lado, precisamos compreender que nem toda criação terá o mesmo resultado comercial. Já desenvolvi uma coleção inspirada no Cariri que teve uma repercussão muito positiva, mas vendeu pouco porque os custos de produção elevaram os preços e tornaram os produtos inviáveis para o mercado.

Essa experiência me ensinou a olhar com mais atenção para os indicadores financeiros, os custos, o fluxo de caixa e a saúde da empresa. Hoje, procuro equilibrar uma coleção com pesquisa mais aprofundada e outras que trabalham releituras de produtos clássicos e que já funcionam para a marca. A criatividade precisa caminhar junto com o conhecimento do negócio.

Entrevista Nota 10 — Que conselho você daria aos estudantes que desejam construir uma trajetória no mercado da moda e empreender com uma marca autoral?

Marina Bitu — O primeiro conselho é entender que empreender exige consistência, paciência e resiliência. Nenhum negócio começa grandioso. A minha marca cresceu com recursos provenientes do meu próprio salário, e durante muito tempo precisei trabalhar em outras empresas para garantir minha estabilidade financeira.

Também é importante compreender que o trabalho não envolve apenas a parte criativa. Recomendo que os estudantes aproveitem a universidade para aprender sobre administração e finanças, mesmo que essas áreas não sejam as que mais despertam seu interesse. Não adianta ser uma grande designer se você não tiver conhecimento para administrar o negócio.

Por fim, acredito que cada profissional precisa defender suas ideias, construir uma identidade própria e aprender com as experiências, inclusive com os erros. O mercado passa por altos e baixos, e nem sempre os resultados aparecem no tempo que esperamos. É preciso ter consciência do que se deseja construir e compreender que a trajetória profissional é um processo contínuo de aprendizado.

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