seg, 20 julho 2026 11:57
Christiane Leitão: a primeira mulher na presidência da OAB-CE é advogada formada pela Unifor
Egressa da graduação e do mestrado em Direito da Universidade de Fortaleza, Christiane Leitão é a primeira mulher a liderar a Ordem dos Advogados no Ceará. Ela relembra os anos de formação, a importância de sua pesquisa de mestrado e mostra como a sólida base acadêmica continua a guiar suas decisões no topo da advocacia cearense.

Quando Christiane Leitão cruzou pela primeira vez, no final dos anos 1980, os portões da Universidade de Fortaleza (Unifor), instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz, o cenário jurídico cearense — assim como as salas de aula — ainda era um espaço predominantemente masculino. Três décadas depois, ela faz história ao assumir a presidência da Ordem dos Advogados do Brasil – Secção Ceará (OAB-CE), tornando-se a primeira mulher a liderar a instituição.
Mas para compreender a trajetória de liderança, rigor técnico e sensibilidade social que a trouxeram até aqui, é preciso voltar no tempo e resgatar as memórias afetivas de sua formação. Da graduação vibrante em Direito ao amadurecimento crítico no Mestrado em Direito Constitucional, a história de Christiane se entrelaça com a própria excelência da Unifor.
Continuando a série especial do Unifor Notícias Mobile dedicada a alunos e egressos com protagonismo no mercado profissional, esta reportagem revisita as principais memórias afetivas da egressa no campus, detalha a parceria de pesquisa com o professor Martônio Mont'Alverne e analisa o papel da academia na construção de lideranças femininas dentro do cenário jurídico.
O Bloco B, as memórias de família e o despertar de uma líder
Cruzar a passarela externa que dá acesso ao campus da Unifor é, para Christiane, um exercício constante de reencontro com a própria história. Muito antes de vestir a beca de grau ou de ocupar as salas de aula como estudante, os caminhos da instituição já faziam parte de sua rotina.
Filha de uma dedicada docente que lecionou na Unifor por décadas, Christiane cresceu testemunhando o cotidiano de uma das instituições de ensino mais prestigiadas do país. O ambiente universitário, com seu característico pulsar de ideias, debates e efervescência cultural, não era apenas um horizonte de possibilidades futuras, mas uma extensão de seu ambiente familiar.
Quando ingressou formalmente no curso de Direito, no ano de 1989, a escolha pela Unifor ocorreu de forma natural, sendo fundamentada na busca por uma formação de excelência.
(Foto: Danusio Júnior / OAB-CE)
“A Universidade [de Fortaleza] foi a base da minha trajetória profissional e acadêmica, proporcionando não apenas uma formação técnica sólida, mas também uma visão humanista do direito, que me acompanha em toda a minha atuação.” — Christiane Leitão, presidente da OAB-CE
Naquela transição para a década de 1990, o curso de Direito funcionava no bloco B, espaço que hoje habita a memória afetiva de Christiane como o epicentro de amizades duradouras e de profundas discussões acadêmicas.
“Tenho muitas lembranças afetivas da minha trajetória na Universidade, especialmente da convivência com a minha querida turma da graduação”, compartilha a egressa. “Guardo com muito carinho as conversas nos corredores [...], momentos que contribuíram para a construção de amizades e para o amadurecimento da nossa formação acadêmica.”
A relação com o corpo docente também deixou marcas: “Recordo, com enorme gratidão, de todos os professores que fizeram parte dessa caminhada. É uma alegria perceber que, ao longo dos anos, alguns deles se tornaram não apenas referências na minha formação, mas também grandes amigos e colegas de profissão”, conta Christiane.
Na Unifor, a futura presidente da OAB-CE teve a oportunidade de compartilhar salas de aula e debates com grandes expoentes do pensamento jurídico brasileiro. De acordo com ela, o corpo docente alinhava conhecimento técnico a um profundo compromisso ético e à responsabilidade social, diferencial determinante para consolidar os valores que orientam sua atuação na advocacia e na vida pública até os dias de hoje. Nomes emblemáticos, como os juristas Paulo Bonavides e Arnaldo Vasconcelos, foram fundamentais na estruturação de seu pensamento crítico.
Além deles, a convivência com professoras pioneiras, como Socorro França, Ninon Tachman e Eliane Matos, forneceu a Christiane referências sólidas de atuação feminina em um mercado de trabalho que ainda dava passos tímidos rumo à igualdade de gênero nos postos de comando.
A influência docente estendeu-se para além do plano das ideias. O professor Moacir Albuquerque, destacado por sua dedicação ao ensino jurídico, foi outra figura central em sua caminhada. Anos mais tarde, a história revelaria uma bela simetria institucional: hoje, Christiane lidera a seccional cearense da Ordem ao lado de Márcio Victor Albuquerque, filho de seu antigo mestre. Esses elos geracionais reforçam como as redes construídas no campus transcendem os semestres letivos e moldam o futuro das instituições do estado.
O vínculo familiar com a Unifor expandiu-se e consolidou-se nas décadas seguintes. Além de sua própria caminhada, o marido de Christiane, Hélio Leitão Neto, e seu filho, Hélio, também escolheram a instituição para seus estudos de pós-graduação em Direito. Trata-se de uma trajetória familiar entrelaçada com a própria evolução física e acadêmica do campus, transformando a dedicação ao Direito em um legado partilhado de geração em geração.
O encontro com o Direito Constitucional
Após se consolidar no mercado de trabalho por meio de uma advocacia dinâmica, Christiane Leitão percebeu a necessidade de retornar à academia. A busca não era apenas por titulação, mas pelo aprofundamento das ferramentas analíticas necessárias para compreender os novos desafios do sistema de Justiça.
Assim, duas décadas após sua colação de grau, ela regressou à Universidade de Fortaleza para cursar o prestigiado Mestrado em Direito Constitucional, programa que se destaca historicamente com conceito 6 na avaliação da CAPES e figura entre os melhores do país.
“Reencontrar a Unifor em um momento de maior maturidade profissional foi especialmente significativo”, observa a egressa. Esse período trouxe novas percepções sobre a importância da pesquisa: o mestrado ofereceu a Christiane um espaço de acolhimento intelectual e rigor metodológico, ideal para quem desejava investigar os limites e as garantias do processo judicial sob a ótica da Constituição Federal.
Nesta nova etapa acadêmica, a orientação de sua dissertação ficou a cargo do professor Martônio Mont’Alverne, procurador do Município de Fortaleza e docente de longa data da casa. A parceria entre orientador e orientanda destacou-se pela seriedade metodológica e pela incessante busca por conectar a teoria constitucional à prática forense.
Juntos, eles analisaram as garantias constitucionais do processo nas decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e as repercussões de dispositivos do Código de Processo Civil de 1973, antecipando debates fundamentais que viriam a se consolidar com o Novo Código de Processo Civil de 2015.
”A Dra. Christiane Leitão sempre demonstrou um perfil de pesquisadora muito disciplinado, intelectualmente curiosa e comprometida com a qualidade da investigação científica”, conta Martônio. Ele ressalta que, desde o início do mestrado, “[ela] chamou atenção pela capacidade de compreender que o processo civil não pode ser estudado apenas como um conjunto de regras procedimentais, mas como um instrumento de concretização da Constituição e de efetivação dos direitos fundamentais”.
O docente também compartilha que, como orientanda, Christiane sempre se destacou pela seriedade metodológica. “[Ela] lia com profundidade a bibliografia, aceitava o debate acadêmico com maturidade e estava permanentemente disposta a revisar e aperfeiçoar seus argumentos”, elogia o mestre. Para ele, o grande mérito de Christiane foi manter os olhos voltados para a realidade dos jurisdicionados.
“Embora desenvolvesse uma pesquisa fortemente ancorada na teoria constitucional, [Christiane] jamais perdeu de vista a dimensão concreta do processo judicial e a importância de que as garantias processuais produzam efeitos reais na vida dos cidadãos. Essa preocupação conferiu ao trabalho uma relevância que ultrapassava o ambiente acadêmico, dialogando diretamente com os desafios cotidianos da prestação jurisdicional.” — Martônio Mont’Alverne, procurador do Município de Fortaleza, docente do curso de Direito e do Programa de Pós-Graduação em Direito da Unifor
A vivência nos seminários de pós-graduação consolidou em Christiane a certeza de que a atividade do Poder Judiciário deve ser permanentemente submetida aos vereditos democráticos. Essa visão, amplamente debatida em sala de aula, tornou-se o norte de sua prática na advocacia e, posteriormente, de sua atuação na representação institucional da classe.
O impacto da pós-graduação de excelência na formação de lideranças estaduais
A trajetória de Christiane Leitão ilustra de forma clara a contribuição que a pós-graduação de alta performance exerce no desenvolvimento institucional de um estado. O Programa de Pós-Graduação em Direito (PPGD) da Unifor desempenhou um papel precursor ao implantar o Doutorado em Direito Constitucional, o primeiro curso a nível de doutoramento da Unifor e o primeiro em Direito no Ceará, alterando significativamente o patamar da produção científica regional.
Para o professor Martônio Mont’Alverne, a existência de um programa consolidado com nota excelente da CAPES reflete diretamente na atuação das carreiras de Estado e da advocacia privada. Ao capacitar magistrados, promotores, defensores, docentes e advogados com ferramentas de alta reflexão crítica, a Universidade eleva o nível técnico dos debates jurídicos que ocorrem cotidianamente nos tribunais.
“O impacto prático de um programa dessa excelência é profundo. Em primeiro lugar, ele qualifica os profissionais que atuam nas mais diversas carreiras jurídicas [...] levando para essas instituições uma formação baseada na pesquisa rigorosa, na reflexão crítica e no compromisso com a Constituição”, atesta o orientador de Christiane.
Como Procurador do Município de Fortaleza, ele afirma que essa produção acadêmica repercute diretamente na qualidade da atuação institucional. “Questões complexas relacionadas aos direitos fundamentais, às políticas públicas, à saúde, à educação, ao urbanismo e à administração pública exigem soluções cada vez mais sofisticadas, fundamentadas em pesquisa científica séria”, pondera.
A experiência da pós-graduação funciona como um catalisador de lideranças. O ambiente que incentiva o contraditório, o debate de ideias divergentes e a construção fundamentada de argumentos prepara os profissionais para assumir funções de alta complexidade em cargos públicos. Quando egressos do mestrado e doutorado assumem posições de decisão nas instituições jurídicas de relevo, os valores constitucionais assimilados nas salas de aula passam a orientar a condução de políticas públicas e a defesa institucional.
A formação de excelência da Unifor, portanto, vai além da moderna infraestrutura. Ela se reflete em decisões judiciais mais fundamentadas, defesas públicas mais consistentes e, sobretudo, em uma liderança de classe equilibrada e alinhada aos valores democráticos da sociedade.
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Paridade de gênero, gestão inclusiva e os novos desafios da advocacia
Em mais de 90 anos de existência da Ordem dos Advogados do Estado do Ceará, os cargos de presidência foram ocupados exclusivamente por homens. A eleição de Christiane Leitão para presidir a seccional durante o triênio 2025-2027 representa um marco histórico de transição e amadurecimento para toda a comunidade jurídica do Estado. É a quebra de um teto de vidro invisível, mas persistente, que durante décadas restringiu o acesso de mulheres qualificadas aos espaços de alta governança.
Em mais de 90 anos de história, a OAB-CE elegeu pela primeira vez uma mulher para sua presidência, a advogada Christiane Leitão (Foto: Danusio Júnior / OAB-CE)
Ao analisar a evolução do mercado de trabalho sob a perspectiva do gênero, Christiane recorda que, embora a presença de estudantes mulheres nas salas de aula do curso de Direito já fosse relevante na virada para os anos 1990, as instâncias de poder real no sistema de Justiça permaneciam masculinas. A transição da maioria numérica nas universidades para a representação efetiva nos cargos de direção exigiu décadas de mobilização e o esforço de sucessivas gerações de advogadas.
“Quando iniciei minha graduação, a presença feminina nos cursos de Direito já era significativa, mas ainda não se refletia na ocupação dos espaços de liderança e de maior visibilidade na advocacia e no sistema de Justiça”, explica Christiane. “Havia uma percepção muito clara de que determinados ambientes ainda eram predominantemente masculinos, e isso impunha desafios adicionais às mulheres que buscavam construir suas carreiras.”
“Hoje, é muito positivo observar que as mulheres são maioria em diversos espaços acadêmicos e estão cada vez mais presentes na advocacia. Esse avanço representa uma conquista importante, fruto da dedicação de muitas profissionais que abriram caminhos para as novas gerações. No entanto, a igualdade numérica ainda não significa igualdade de oportunidades”, reflete a advogada.
À frente da gestão, Christiane tem focado no fortalecimento de políticas voltadas às advogadas. Sob sua presidência, foi implantado o Plano Estadual de Valorização da Mulher Advogada, voltado às garantias específicas para o exercício profissional pleno, incluindo mentorias de empreendedorismo para advogadas que auxiliem na conciliação entre a vida profissional e pessoal.
Também foram criadas estruturas voltadas à defesa social, como a Comissão Especial de Enfrentamento ao Feminicídio e à Violência de Gênero, estendendo a atuação protetiva da OAB para além dos quadros da advocacia e alcançando a sociedade civil.
Os desafios cotidianos de uma instituição que representa milhares de advogados exigem o equilíbrio e o rigor técnico desenvolvidos na Unifor. Uma gestão qualificada depende da capacidade de ouvir diferentes perspectivas, construir consensos e atuar com firmeza na defesa da ordem constitucional e dos valores democráticos. Nesse contexto, a presidência de Christiane torna-se um farol para as futuras gerações de juristas.
Conselhos para o futuro e a missão de inspirar as próximas gerações
Ao contemplar sua história de dedicação ao direito, Christiane reforça que a base de qualquer transformação duradoura reside no valor do conhecimento. Para ela, a passagem pela Universidade não deve ser encarada de maneira meramente burocrática, mas sim como uma imersão intelectual e de conexões humanas.
Quando questionada sobre quais recomendações deixaria para os estudantes que hoje ocupam as salas de aula e os laboratórios da Unifor, ela enfatiza a importância de vivenciar a riqueza acadêmica, social e cultural oferecida pelo campus.
(Foto: Danusio Júnior / OAB-CE)
“A graduação vai muito além da sala de aula: é um período de descobertas, de construção de amizades, de troca de experiências e de oportunidades que podem marcar toda a trajetória profissional e pessoal. A Unifor oferece um ambiente extremamente rico, com atividades acadêmicas, projetos de extensão, pesquisa, eventos e espaços de convivência que ampliam a formação dos estudantes. Façam uso de tudo o que o campus proporciona, conversem com os professores, participem dos debates, construam conexões e estejam abertos a aprender também fora da sala de aula.” — Christiane Leitão, presidente da OAB-CE
A visão de Christiane é complementada pelo professor Martônio Mont’Alverne, que enxerga no sucesso de sua antiga orientanda a realização máxima do propósito do ensino superior de excelência. Para o docente, o sucesso acadêmico e profissional de egressos como Christiane confirma que o programa cumpre sua função social mais nobre: formar juristas de alta capacidade crítica comprometidos com o fortalecimento das instituições democráticas e com a efetivação dos direitos fundamentais da população.
A caminhada iniciada por Christiane Leitão nos bancos da Unifor abre caminho para que futuras juristas cearenses vejam na liderança institucional uma possibilidade real e concreta. Seu maior desejo é que o pioneirismo feminino de hoje deixe de ser exceção e se torne a naturalidade de amanhã. “Espero inspirar outras mulheres a acreditarem no seu potencial e a ocuparem os espaços de liderança com coragem, preparo e responsabilidade”, pontua.
O conhecimento sério, aliado à ética profissional e à responsabilidade com a transformação social, permanece sendo o roteiro ideal para quem busca deixar uma marca na história jurídica de nosso estado. Para Christiane, contribuir para um futuro mais inclusivo e com oportunidades vai muito além de uma gestão: “Espero deixar como legado a certeza de que competência, dedicação e compromisso com a advocacia são capazes de abrir caminhos e transformar realidades”.