Entre sonhos e oportunidades: Projeto Semear fortalece projetos de vida de adolescentes em acolhimento institucional na Unifor

sex, 26 junho 2026 14:07

Entre sonhos e oportunidades: Projeto Semear fortalece projetos de vida de adolescentes em acolhimento institucional na Unifor

Parceria entre Unifor, Defensoria Pública e Senac Ceará promove acolhimento psicológico, orientação profissional e autonomia para jovens em situação de abrigo


O Projeto Semear visa apoiar e fortalecer os projetos de vida de adolescentes (de 16 a 18 anos) que estão em situação de acolhimento institucional e se preparam para deixar os abrigos ao atingirem a maioridade. - Fotos: Marjorie Zaranza
O Projeto Semear visa apoiar e fortalecer os projetos de vida de adolescentes (de 16 a 18 anos) que estão em situação de acolhimento institucional e se preparam para deixar os abrigos ao atingirem a maioridade. - Fotos: Marjorie Zaranza

“Apesar dos perigos/ Da força mais bruta/ Da noite que assusta/ Estamos na luta/ Pra sobreviver”

Os versos são da música Novo Tempo, lançada pelo cantor e compositor Ivan Lins em 1980, como um sopro de esperança para um país que ainda vivia sob a Ditadura Militar e atravessava um período de incertezas. Cinco anos depois, a história mostrou que, “apesar dos castigos, de toda fadiga, de toda injustiça”, a democracia voltaria “pra nos socorrer”.

Em 2026, é também a esperança de um novo tempo que embala os sonhos das adolescentes K.A, T.G e A.C, aqui chamadas pelos nomes fictícios Adriana, Tainá e Lorena*. Elas fazem parte de um universo de 45 jovens, com idades entre 16 e 18 anos, em situação de acolhimento institucional que se preparam para deixar os abrigos ao atingirem a maioridade. Muitos chegam ainda crianças e ingressam na fila da adoção, mas a possibilidade de encontrar uma nova família diminui à medida que a idade avança. Na idade delas, as chances são quase nulas.

Para apoiar esses jovens no planejamento do futuro e na ausência de vínculos familiares consolidados, a Universidade de Fortaleza (Unifor) da Fundação Edson Queiroz — por meio da Vice-Reitoria de Extensão e Comunidade Universitária (VIREX) e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia — abriu as portas do seu campus para acolhê-los na fase inicial do Projeto Semear. A iniciativa, idealizada pela Defensoria Pública do Estado do Ceará (DPCE) em parceria com a Unifor e o SENAC Ceará, oferece acompanhamento psicológico, orientação profissional e oportunidades de qualificação. Adriana, Tainá e Lorena* fazem parte da primeira turma.

O acolhimento e a escuta no Campus

A primeira etapa do Projeto Semear ocorreu justamente no Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicanálise, Cultura e Subjetividade da Unifor, consolidando-se como parte das atividades de extensão e pesquisa vinculadas ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da instituição. Durante essa fase, concluída no dia 19 de junho, as três adolescentes participaram de encontros voltados ao autoconhecimento, à reflexão sobre projetos de vida e fortalecimento da autonomia.

Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicanálise, Cultura e Subjetividade da Unifor - Foto: Ares Soares 

De acordo com Leônia Teixeira, professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Unifor, além do acolhimento psicológico, o acompanhamento também inclui avaliações de interesses e habilidades, auxiliando na construção dos projetos de vida das assistidas. “Oferecemos um espaço de escuta psicológica qualificada, fundamentada na psicanálise, para que essas adolescentes possam refletir sobre suas histórias, seus desejos, suas perspectivas de futuro e suas potencialidades”, explica.

Ao longo dos atendimentos, Adriana*, de 17 anos, reconheceu suas qualidades e passou a se enxergar como uma pessoa capaz de alcançar seus objetivos. “Eu amei esse curso porque me conheci melhor. Percebi que, quando estou mais confiante, consigo ser mais aberta, confiar mais nas pessoas e me relacionar melhor. Antes eu era mais fechada e aqui eu me descobri de verdade. Também me senti reconhecida, porque me falaram que sou inteligente, gentil, boa no que faço e que quando eu quero alguma coisa, consigo correr atrás. Eu já sabia de algumas dessas qualidades, mas aqui entendi que sou muito mais do que imaginava. Eu pensei: nossa, eu sou muito legal”, celebra.

Universidade, um sonho possível

“Pra que nossa esperança/ Seja mais que vingança/ Seja sempre um caminho/ Que se deixa de herança”

Não foi por acaso que as primeiras atividades da iniciativa foram realizadas no Bloco F da Unifor. Ao aproximar Adriana, Tainá e Lorena* do ambiente universitário, uma realidade que muitas vezes parece distante para adolescentes em situação de acolhimento institucional, a iniciativa busca fortalecer o sentimento de pertencimento e mostrar que o acesso ao ensino superior é uma possibilidade concreta.

“O principal objetivo do projeto Semear é plantar sementes de esperança e mostrar que existem caminhos possíveis para a conquista da autonomia. Por isso, fizemos questão que essa primeira etapa acontecesse na universidade. Queríamos que elas percebessem que existe uma vida possível para além do acolhimento institucional”, destaca Andreya Arruda, psicóloga e coordenadora do serviço psicossocial da Defensoria Pública.

Segundo a psicóloga, a experiência de circular pelo Campus, conhecer a estrutura da universidade e participar das atividades em um espaço acadêmico contribui para que Adriana, Tainá e Lorena* se sintam capazes de ocupar esses lugares e projetar novos futuros. “Foi muito interessante ver o entusiasmo delas com o ambiente universitário e com as novas perspectivas que passaram a enxergar”, complementa Andreya Arruda.

As jovens foram estimuladas a planejar seus projetos de vida a partir de oportunidades reais de formação acadêmica e inserção no mercado de trabalho. “Elas demonstraram interesse pela vida universitária e manifestaram o desejo de seguir carreira na área do Direito. Nosso papel foi ajudá-las a traçar esse caminho, mostrando, por exemplo, as oportunidades de acesso ao ensino superior por meio do Enem e dos programas de bolsas de estudo, tanto em universidades públicas quanto privadas”, explica a professora Leônia Teixeira.

Para celebrar o fim da primeira fase, as adolescentes ganharam uma sessão de fotos para incluírem no currículo profissional. Foi nesse momento que Adriana*, mais segura, revelou o sonho de se tornar juíza. “E eu vou alcançar porque agora sei cada passo que preciso para chegar lá. E, com esse curso, eu vou saber bem direitinho”, profetiza.

Independência financeira e inclusão no mercado de trabalho

“Apesar dos castigos/ Estamos em cena/ Estamos na rua/ Quebrando as algemas/ Pra nos socorrer”

Tainá*, a mais nova do trio, com 16 anos, também sonha em seguir carreira na magistratura. Um futuro que o projeto Semear tem mostrado ser possível, embora exija planejamento, dedicação e perseverança.

Com o apoio da equipe, ela tem dado os primeiros passos na construção de sua trajetória profissional. “Elas me ajudaram a fazer meu currículo, ensinaram como envio para as vagas nos aplicativos e eu já estou participando de um processo seletivo. Tenho até uma entrevista agendada”, comemora a jovem, que concorre à vaga de auxiliar administrativa.

Ao longo dos encontros realizados na Unifor, Tainá* tem descoberto suas potencialidades e compreendido melhor suas emoções. “Aprendi a me conhecer melhor e a acreditar mais na minha capacidade. Entendi que sou uma pessoa que pode sonhar e realizar meus sonhos”, afirma.

Lorena*, com 18 anos recém-completos, encerra a primeira fase celebrando uma importante conquista: o primeiro emprego. Atualmente, trabalha como atendente em um restaurante e, embora a vaga não esteja diretamente relacionada à carreira que deseja seguir, ela vê nessa oportunidade um passo fundamental para a construção de sua independência e de seu projeto de vida. “Consegui esse emprego depois que comecei a participar do projeto e estou adorando. Agora tenho meu próprio dinheiro e posso comprar minhas coisas”, conta.

A jovem também recorda a emoção de receber o primeiro salário. “Foi muito bom poder pagar minhas contas. Também comprei algumas coisas para a minha filha, que tem quatro anos”, relata. Para ela, a experiência representa a conquista de autonomia e o começo de um futuro que deseja para si e para a filha.

Assim como as amigas, Lorena* sonha em cursar Direito e sabe que, para alcançar esse objetivo, precisará investir nos estudos e manter o foco em suas metas. Com o Projeto Semear, ela aprendeu a planejar melhor o futuro, definir prioridades e refletir sobre as escolhas que podem influenciar sua trajetória pessoal e profissional. “O curso me fez enxergar melhor o que eu quero para a minha vida e parar de fazer coisas erradas. Hoje, eu sei o que é certo e o que é errado, o que pode me levar pra frente e o que pode me atrasar”, afirma.

Mais do que incentivar sonhos, o projeto Semear procura transformá-los em possibilidades concretas. Nas próximas semanas, Adriana, Tainá e Lorena* vão escolher cursos técnicos do Senac Ceará para desenvolver novas habilidades, incrementar currículo e fortalecer o protagonismo de suas vidas.

Defensoria na proteção de adolescentes

“Apesar dos perigos/ A gente se encontra/ Cantando na praça/ Fazendo pirraça/ Pra sobreviver”

O projeto Semear complementa uma iniciativa anterior da Defensoria voltada para a proteção de adolescentes em processo de desligamento do acolhimento institucional. Em 2016, por meio do Núcleo de Defesa dos Direitos da Infância e da Juventude (Nadij), a instituição ingressou com uma Ação Civil Pública (ACP) para que a Prefeitura de Fortaleza criasse repúblicas para atender aos jovens que saíam das unidades de acolhimento institucional, os chamados abrigos, após completarem 18 anos.

Graças à ação judicial, foi criada a República para Jovens em Fortaleza, que garante moradia temporária aos jovens que não possuem vínculos familiares consolidados ou condições de independência financeira.

Apesar do avanço, a realidade revelou um novo desafio. Atualmente, a república tem vagas ociosas, indicando que muitos jovens sequer chegam a acessar esse atendimento e acabam deixando os abrigos diretamente para situações de extrema vulnerabilidade social.

De acordo com a defensora pública e supervisora do Nadij, Noêmia Landim, o projeto Semear representa mais uma etapa da atuação da Defensoria na garantia dos direitos de crianças e adolescentes em situação de acolhimento institucional. “Nós temos trabalhado para assegurar que esses adolescentes não sejam invisibilizados quando se aproximam da maioridade. Atuamos na criação da República para Jovens, mas garantir um teto, por si só, não é suficiente. Queremos que eles estejam preparados para exercer sua cidadania, ingressar no mercado de trabalho, acessar a universidade e construir seus próprios caminhos”, conclui.

**Com informações da Assessoria de Comunicação da Defensoria Pública do Estado do Ceará
 

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