seg, 3 agosto 2026 13:59
Entrevista Nota 10: Octávia Martin e a atenção aos sinais de risco no neurodesenvolvimento infantil
Psicanalista ressalta a importância da detecção precoce de distúrbios do desenvolvimento em bebês, além de comentar o papel de eventos como o I Colóquio Cearense de Pediatria e Psicanálise na formação profissional voltada ao cuidado na primeira infância

Identificar sinais de risco no neurodesenvolvimento de um bebê nos primeiros meses de vida pode mudar radicalmente a sua trajetória. Mais do que apressar diagnósticos, o olhar atento da clínica precoce busca intervir enquanto o cérebro e a mente da criança ainda estão em sua fase de maior plasticidade e formação.
Em casos como esses, contar com uma equipe de saúde multiprofissional e especializada, que foca em formação contínua e humanizada, faz a diferença no acompanhamento e acolhimento desse paciente infantil e de sua família. Por isso, eventos como o I Colóquio Cearense de Pediatria e Psicanálise são tão importantes para expandir o que se sabe e o que pode ser feito na área.
A iniciativa vai proporcionar um encontro com os profissionais que lidam com a primeiríssima infância para discutirem amplamente o que tem sido produzido pelas atuais pesquisas de alto impacto. É o que explica a psicanalista Octávia Martin, integrante da Comissão Interinstitucional de Organização do Colóquio.
O evento terá como tema “Sinais precocíssimos de risco em bebês”. Segundo Octávia, que é membra da Litoral – Escola de Psicanálise, a escolha do assunto surgiu do grande impacto que os inúmeros diagnósticos de autismo têm produzido na saúde pública, assim como seus efeitos na saúde mental das crianças e de suas famílias.
“Considera-se de grande relevância chamar atenção de todos aqueles que se ocupam dos bebês para a importância de considerar os sinais de risco [no neurodesenvolvimento] como instrumentos de detecção precoce para que, tão cedo quanto possível, seja proporcionada uma equipe transdisciplinar para intervir junto ao bebê e a sua família”, explica.
Graduada e licenciada em Psicologia e em Ciências Sociais pela Universidade de Fortaleza (Unifor) — instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz —, Octávia é mestre em Educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Ela já atuou por 22 anos como docente da Unifor, que está apoiando o I Colóquio Cearense de Pediatria e Psicanálise.
Nesta Entrevista Nota 10, a psicanalista ressalta a importância da detecção precoce de distúrbios do desenvolvimento em bebês, além de comentar o papel de eventos como o Colóquio na formação profissional voltada ao cuidado na primeira infância.
Leia a entrevista na íntegra a seguir.
Entrevista Nota 10 — O que caracterizam os chamados “sinais precoces de risco” no neurodesenvolvimento infantil?
Octávia Martin — Os “sinais precoces de risco” são manifestações que foram observadas em bebês. Em torno delas, foram realizadas pesquisas de coorte, estudos observacionais e longitudinais, cujas evidências demonstraram que há correlação entre esses sinais e alterações que se apresentaram no âmbito do neurodesenvolvimento infantil.
No caso do Transtorno do Espectro Autista (TEA), a literatura científica tem postulado que alterações nos movimentos gerais detectadas desde a vida intrauterina e até os primeiros dias de vida têm sido correlacionadas posteriormente à instalação de quadros de autismo. Assim como as dores experimentadas pelos bebês, muitas vezes associadas a vários problemas, especialmente digestivos.
Entrevista Nota 10 — O acompanhamento do neurodesenvolvimento infantil exige múltiplos olhares. Como o diálogo entre áreas médicas, como a pediatria, e campos dedicados à escuta do sujeito, como a psicologia e a psicanálise, enriquece e transforma o cuidado na primeiríssima infância?
Octávia Martin — A consideração dos sinais de risco como referência para a detecção precoce implica em uma prática interdisciplinar, já que no campo da saúde, em situação regular, são pediatras e neonatologistas os profissionais que primeiro entram em contato com o bebê. Ao detectarem tais sinais, podem, e devem, encaminhar os bebês para as equipes transdisciplinares habilitadas para realizarem as intervenções terapêuticas apropriadas junto aos bebês.
No que tange à intervenção do profissional da área psi, é importante trabalhar: a condição do bebê para que melhor possa apreender os estímulos do ambiente — o que inclui também se debruçar na relação pais-bebê; as expectativas dos pais em torno das possíveis dificuldades e dos tratamentos necessários; e outros pontos sensíveis que compõem a condição psicossocial do bebê.
Para o trabalho junto ao bebê, aos pais e ao entorno discursivo do bebê, o psicanalista é fundamental. Desde meados do século passado, são inúmeras as publicações científicas de psicanalistas ingleses e franceses, sobretudo, que têm se dedicado ao estudo, à clínica e à pesquisa com crianças que apresentam alterações em seu desenvolvimento e situações de sofrimento psíquico.
Retomando, as terapias com a primeiríssima infância devem prosseguir de modo articulado entre todos os profissionais, entendendo que o pediatra, uma vez que acompanha o bebê, se constitui como parte integrante da equipe.
Compartilhar os elementos específicos de cada clínica, assim como o modo como são compreendidos à luz de cada saber, contribui para uma compreensão clínica que não fragmenta o bebê em múltiplas e distintas abordagens. Pelo contrário: a equipe, ao se articular por via das trocas e discussões de caso, acaba por compreender cada bebê com uma história que não é apenas neurodesenvolvimental, mas é também psicossocial — o que permite a equipe traçar uma direção de tratamento em comum considerando suas singularidades.
Nesse formato de atuação, os profissionais acabam por sustentar uma posição ético-clínica de escuta desse “pequeno” sujeito e sua família, o que atravessa e costura de modo transdisciplinar a equipe, cuja aposta é de que a confluência de um trabalho assim situado, articulado, possibilite que outro destino possa se produzir a essa criança que não o autismo.
Em função dessa articulação necessária e indispensável, traremos Marie-Christine Laznik, psicanalista radicada na França desde 1972 e reconhecida internacionalmente pelo seu trabalho clínico com crianças autistas e que, nos últimos 15 anos, tem se dedicado às pesquisas no campo das neurociências. Isso tem possibilitado um maior aprimoramento tanto da detecção de risco de autismo, bem como da intervenção clínica junto aos bebês, crianças e suas famílias.
Sua obra mais recente, o livro “Psicanálise e Genética, clínica de bebês com risco de autismo” — já publicado em 2025 e que será lançado no Colóquio — representa sua tentativa de colocar a psicanálise em diálogo com conhecimentos avançados sobre neurodesenvolvimento e potenciais bases genéticas das situações de risco para o autismo, sem reduzir um campo ao outro, tratando de como fatores genéticos e processos de desenvolvimento interagem com a dinâmica psíquica nos primeiros meses de vida.
Entrevista Nota 10 — Você integra a organização do I Colóquio Cearense de Pediatria e Psicanálise, que traz luz justamente esse tema urgente dos sinais precocíssimos. Como surgiu a ideia do evento e por que eleger essa temática para inaugurar a iniciativa?
Octávia Martin — O Colóquio surgiu com a ideia de proporcionar um encontro com os profissionais que lidam com a primeiríssima infância para discutirem amplamente o que tem sido produzido pelas atuais pesquisas de alto impacto, de modo que possamos costurar uma discussão que não se restrinja à uma mera atualização a respeito dos sinais precocíssimos de risco em bebês, mas que cada profissional, cada equipe, advertidos quanto a importância em detectar tais sinais de risco, possam acionar, a tempo, uma equipe transdisciplinar para promover a intervenção junto ao bebê e sua família na aposta de que se obtenha o efeito de evitar a instalação do autismo na criança.
Essa temática, com a qual se inaugura o Colóquio Cearense de Pediatria e Psicanálise, foi escolhida tendo em vista o grande impacto que os inúmeros diagnósticos de autismo tem produzido em termos de saúde pública e seus efeitos na saúde mental das crianças e suas famílias. Ademais, as evidências trazidas por pesquisas de grande relevância têm apontado, dentre outros, para uma correlação em torno de 90% entre os sinais de risco e o estabelecimento posterior de quadros de autismo na infância. Considera-se de grande relevância chamar atenção de todos aqueles que se ocupam dos bebês para a importância de considerar os sinais de risco como instrumentos de detecção precoce para que, tão cedo quanto possível, seja proporcionada uma equipe transdisciplinar para intervir junto ao bebê e a sua família.
O Colóquio visa, portanto, instrumentalizar todos aqueles que exercem um ofício junto aos bebês e suas famílias a partir de uma formação que os situe na questão da detecção dos sinais de riscos em bebês. O tema tem se destacado nas discussões e pesquisas no campo das neurociências, que se articulam com variados campos teóricos e práticas clínicas não apenas na saúde, como também na educação e proteção social.
Não obstante, a convidada especial para o Colóquio é a psicanalista franco-brasileira Marie-Christine Laznik que atualmente é referência internacional pelo seu destacado trabalho clínico e de pesquisa com bebês, crianças e suas famílias, especialmente no que tange à detecção precoce do risco de autismo.
Entrevista Nota 10 — Quais são as principais expectativas de vocês para o I Colóquio Cearense de Pediatria e Psicanálise?
Octávia Martin — Nossa expectativa é de que o Colóquio possibilite estreitar os laços profissionais e institucionais, promovendo uma interlocução entre o campo da psicanálise (representada pela Litoral – Escola de Psicanálise* e as demais instituições que possam se fazer presentes), o campo médico pediátrico (representado pela Sociedade Cearense de Pediatria) e os demais espaços que lidam com a primeira infância no âmbito dos serviços públicos, privados e do terceiro setor. Nesse último caso, o Instituto Primeira Infância (Iprede), que é uma das grandes referências no acompanhamento do desenvolvimento e comportamento da primeira infância em nossa pólis.
Desta feita, esperamos contribuir para consolidar um espaço de debate interdisciplinar indispensável para todos que se dedicam à primeiríssima infância, destacando nossa expectativa de que a realização conjunta desse Colóquio seja profícua não apenas na realização do mesmo, mas também nos desdobramentos que possam ocorrer, seja para a formação, para a pesquisa e/ou para a clínica no âmbito da primeiríssima infância.
*[A Litoral - Escola de Psicanálise é uma instituição dedicada ao ensino e à transmissão da psicanálise, com o objetivo de difundir seu campo e ampliar seus litorais, articulando-se com outras áreas do saber e da clínica.]
Entrevista Nota 10 — Diante da suspeita de sinais de risco, não podemos esquecer da família, que muitas vezes adoece ou vivencia muita angústia e incerteza. Qual é a importância de espaços especializados, a exemplo do Centro de Neurodesenvolvimento em Doenças Raras (CEND) da Unifor, no acolhimento a esses pais e no suporte continuado aos pacientes?
Octávia Martin — Conforme mencionado acima, a intervenção junto ao bebê inclui, necessariamente, a família, em especial os cuidadores significativos do bebê que, na maioria das vezes, são encarnados pela mãe e o pai.
Os bebês que possuem “falhas” em seu equipamento neurodesenvolvimental introduzem uma realidade que se distingue amplamente do que uma família pode ter imaginarizado, ao mesmo tempo em que sua condição requer uma dedicação extenuante em um momento em que os pais, por sua vez, se vêem atropelados pelas contingências das manifestações que o bebê venha a apresentar de risco precocíssimo em seu desenvolvimento com ou sem diagnósticos já estabelecidos. Tal situação torna difícil poder ressignificarem e se reposicionarem face a seu bebê, o que gera uma vivência de muita angústia também repercutindo na condição de saúde mental dos pais.
Esse contexto requer o acompanhamento de uma equipe especializada que, em meio às contingências do bebê, precisa inserir também a família no acompanhamento que realiza com a criança. Não apenas o psicanalista que acompanha o bebê deve absorver tal função, ainda que possa incidir de modo mais aprofundado e/ou prolongado. Todos os profissionais devem estar sensibilizados para a importância de acolher a família e de que a escuta dirigida aos pais produz efeitos terapêuticos de maneira que vão podendo ir exercendo a parentalidade, de modo a fazer função no processo de desenvolvimento e reanimação psíquica do seu bebê.
Uma equipe alinhavada do ponto de vista ético-clínico, por conceber que a estruturação psíquica também vetoriza o desenvolvimento da criança tanto quanto seu aparato neurológico, posiciona-se necessariamente de modo a contemplar a família ao lidar com o bebê. Por outro lado, o fato dessa equipe contar com um profissional da saúde mental permite que tal profissional possa contribuir para o acompanhamento da família realizado pelos demais profissionais.
O Centro de Neurodesenvolvimento em Doenças Raras (CEND) da Unifor, sendo um lugar especializado e interdisciplinar à primeira infância, certamente contempla a família no acompanhamento que realiza junto às crianças. Nesse sentido, tendo em vista que o Centro pretende atuar na formação de profissionais da saúde e no desenvolvimento de pesquisas voltadas à detecção precoce de risco do neurodesenvolvimento dos bebês, seria muito oportuna a participação desses profissionais no Colóquio.
É preciso ressalvar, entretanto, que, no que tange aos sinais precocíssimos de risco em bebês que será discutido no Colóquio, o evento não pretende tratar sobre o autismo propriamente, mas sim sobre a possibilidade de detecção desses sinais de risco e a necessária intervenção precocíssima que precisa ser conduzida por uma equipe transdisciplinar.
Dito isso, por fim, ressalva-se também que não se considera o autismo como uma doença genética, mas um quadro que se instaura em grande parte nas crianças que apresentaram alterações no neurodesenvolvimento de base genética — segundo as pesquisas mais recentes, que serão discutidas no I Colóquio Cearense de Pediatria e Psicanálise.