Entrevista Nota 10: Clara Braga e os desafios da integridade científica no combate ao plágio acadêmico

seg, 29 junho 2026 11:30

Entrevista Nota 10: Clara Braga e os desafios da integridade científica no combate ao plágio acadêmico

Coordenadora do Escritório de Projetos da Vice-Reitoria de Pesquisa da Unifor analisa o caso da cientista brasileira que denunciou o suposto plágio de seu método botânico inspirado em Taylor Swift


Doutora em Administração e Controladoria, Clara é embaixadora estudantil do Programa de Integridade Acadêmica da Rede Europeia para a Integridade Acadêmica - ENAI (Foto: Marjorie Zaranza)
Doutora em Administração e Controladoria, Clara é embaixadora estudantil do Programa de Integridade Acadêmica da Rede Europeia para a Integridade Acadêmica - ENAI (Foto: Marjorie Zaranza)

Nos últimos meses, a comunidade científica brasileira vem acompanhando a repercussão de um suposto plágio denunciado pela bióloga e professora Gláucia Silva. A pesquisadora descobriu que seu método botânico inédito, inspirado nas músicas da cantora Taylor Swift, teria sido apropriado indevidamente por um docente de uma universidade na Espanha.

O caso ganhou visibilidade internacional e reavivou uma discussão vital para o ambiente de produção acadêmica: como é possível fortalecer a integridade científica e garantir uma ciência mais ética e justa?

Para Clara Braga, coordenadora do Escritório de Projetos da Vice-Reitoria de Pesquisa da Universidade de Fortaleza — instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz —, esse debate não se trata apenas de plágio, mas também de diversas outras questões relacionadas à má conduta em pesquisas que devem ser analisadas.

“As instituições de pesquisa e inovação (IES/ICTs) precisam instituir políticas internas de integridade e monitorar a atividade acadêmica e de pesquisa de seus membros: docentes, discentes e pesquisadores. Em casos de denúncias de má conduta, como no episódio do ‘Método Taylor Swift’, a instituição deve abrir um processo interno de investigação e adotar as sanções cabíveis, quando necessário”, comenta a pesquisadora.

Doutora em Administração e Controladoria pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Clara atua em linhas de pesquisa que se conectam a sua atuação no Escritório de Projetos da Unifor, como metascience, competências em pesquisa,  formação de pesquisadores e integridade e ética em pesquisa. Também é embaixadora estudantil do Programa de Integridade Acadêmica da Rede Europeia para a Integridade Acadêmica (ENAI).

Na Entrevista Nota 10 desta semana, ela comenta o caso da pesquisadora brasileira que denunciou um suposto plágio do seu método botânico inspirado nas músicas da Taylor Swift, além de trazer dicas sobre integridade científica e ressaltar a atuação do Escritório de Projetos da Unifor.

Leia a entrevista na íntegra a seguir.

Entrevista Nota 10 — Recentemente acompanhamos o caso da pesquisadora brasileira que teve seu método botânico inédito supostamente plagiado por uma universidade espanhola. Como você avalia episódios como esse, onde a criatividade, a inovação e o esforço individual acabam sendo “sequestrados” por outros pesquisadores? 

Clara Braga — O caso da pesquisadora acende o alerta sobre diversas questões relacionadas à integridade acadêmica e à pesquisa. A conduta do pesquisador espanhol é realmente questionável, assim como a falta de posicionamento da instituição de ensino superior a qual ele está vinculado. Mas não se trata apenas de plágio, que é uma das má-condutas em pesquisa mais conhecidas. Diversas outras questões devem ser analisadas.

Primeiro, o pesquisador precisa resguardar-se ao participar de eventos científicos. É importante, ao divulgar uma pesquisa inédita, que escolha eventos que garantam que toda ação de divulgação científica realizada no evento será publicada em seus anais, seja para apresentação de artigos completos, abstracts ou poster/banners. Desta forma, pesquisadores que utilizam esses documentos como referência para o desenvolvimento de seus trabalhos podem efetivamente referenciar a publicação.

Neste caso é mais grave, pois a pesquisadora brasileira tem artigo publicado nos anais dos eventos que participou divulgando seu método inovador, mesmo assim a publicação não foi citada no livro do pesquisador espanhol.

Segundo, e talvez mais importante, há questões relacionadas à equidade na pesquisa científica. Aqui não estou falando apenas de inclusão de minorias e ampliação de oportunidades de fomento, mas de equidade de mérito e avaliação em relação ao que é produzido cientificamente. Vivenciamos vieses contra o Sul Global [perpetrados pelo] Norte Mundial, que concentra os grandes publishers científicos e revistas internacionais que ditam a pauta sobre o que deve ou não ser publicado. 

Temos ainda questões relacionadas à interseccionalidade e ao apagamento das mulheres e pessoas negras na pesquisa, o que chamamos de “efeito Matilda”. O “efeito Matilda” descreve um fenômeno pelo qual as contribuições científicas de mulheres são sistematicamente invisibilizadas, subestimadas ou atribuídas a homens. O conceito foi formalizado em 1993 pela historiadora da ciência Margaret W. Rossiter, no artigo: Rossiter, M. W. (1993). The Matthew Matilda Effect in Science. Social Studies of Science.

Entrevista Nota 10 — Esse caso pode nos ensinar algo relevante sobre a ética na produção científica mundial?

Clara Braga — Os princípios da integridade científica fundamentam-se na honestidade, transparência, responsabilidade e rigor na condução e comunicação da pesquisa. E tem suas referências em padrões internacionais como a Declaração de Singapura (2010) e a Declaração de  Montreal (2013).

A integridade está inserida em um conceito maior, já a Conduta Responsável em Pesquisa refere-se à integridade e à ética em pesquisa. Enquanto a ética em pesquisa pode ser entendida como um subcampo da integridade na pesquisa, que diz respeito especificamente às relações com os participantes da pesquisa (seres humanos e/ou animais), a integridade em pesquisa se refere às relações com a instituição de pesquisa, patrocinadores e outras partes interessadas. [A integridade em pesquisa é] associada a qualidades como honestidade intelectual, transparência, reprodutividade, precisão, imparcialidade, colegialidade, rigor, independência e reconhecimento justo.

Entrevista Nota 10 — A definição de plágio no meio acadêmico tem se tornado mais complexa com a diversificação das formas de se fazer ciência e divulgar o conhecimento?

Clara Braga — Os pesquisadores da temática de conduta responsável em pesquisa têm uma produção vasta sobre o plágio. Um trabalho interessante é dos pesquisadores Amirzhanov, Turan e  Makhmutova (2025), que propõem um conjunto de tipologias de plágio, desde os mais tradicionais aos que chamam de “mais sutis e avançados”, destacando que compreender esses tipos é crucial para o desenvolvimento de estratégias eficazes de detecção e para a manutenção da integridade acadêmica.

Os tipos de plágio mapeado pelos autores [podem ser]: 

  • Plágio literal: cópia direta do texto sem alterações ou atribuição.
  • Plágio por paráfrase: reescrever o texto original, mantendo o significado essencial.
  • Plágio baseado em ideias: apropriar-se das ideias ou argumentos de outra pessoa sem reconhecimento.
  • Plágio por tradução: traduzir conteúdo de um idioma para outro sem citação.
  • Plágio de código: reutilizar o código-fonte ou a lógica de um programa com alterações mínimas.
  • Conteúdo gerado por IA: usar ferramentas de IA como GPT ou BARD para gerar conteúdo sem a devida divulgação.
  • Plágio disfarçado: modificar a estrutura do texto ou substituir termos-chave, mantendo o significado original.
  • Plágio translinguístico: traduzir conteúdo entre idiomas sem dar crédito, o que torna a detecção mais complexa.
  • Plágio multilíngue e independente de idioma: estender a detecção de plágio a diferentes idiomas e estruturas linguísticas.
  • Publicações duplicadas e redundantes: republicar trabalhos existentes com pequenas modificações para aumentar o número de publicações.

E esta listagem não contempla o autoplágio, também considerada uma má conduta em pesquisa, pouco discutida, que trata-se do uso pelo(s) autor(es) do próprio trabalho ou dados utilizados em outras pesquisas já publicadas.

Realmente o tema parece simples, mas é complexo.

Entrevista Nota 10 — Você acredita que as novas tecnologias fazem parte do problema ou elas podem servir como ferramentas para monitorar e resolver problemas de autoria?

Clara Braga — Quanto às questões de plágio, existem há algum tempo diversas ferramentas que podem indicar a similaridade entre textos, mas a similaridade não significa plágio. Há a necessidade de análise qualitativa dos resultados/outputs destas ferramentas.

Entendo que o mais importante é a atuação do ecossistema da produção científica — financiadores, pesquisadores, instituições de ciência e inovação, governos, sociedade civil, publishers — para uma adequada regulamentação, monitoramento e treinamento sobre Conduta Responsável em Pesquisa, contemplando temáticas de integridade e ética.

As instituições de ensino, pesquisa e inovação (IES/ICTs), num ambiente organizacional, precisam instituir políticas internas de integridade e monitorar a atividade acadêmica e de pesquisa de seus membros: docentes, discentes e pesquisadores. Em casos de denúncias de má conduta, como no episódio do Método Taylor Swift, a instituição deve abrir um processo interno de investigação e adotar as sanções cabíveis, quando necessário.

Entrevista Nota 10 — Quais são as precauções imediatas e os registros formais que os pesquisadores devem providenciar antes de divulgar suas ideias e metodologias em congressos, artigos preliminares ou até mesmo nas redes sociais? Na sua visão, qual a importância de proteger esse tipo de propriedade intelectual?

Clara Braga — Quanto à publicação de resultados de pesquisas, através de artigos completos, resumos, abstracts ou pôster em eventos científicos, o ideal é priorizar eventos que publiquem anais. Assim, a autoria dos trabalhos é formalmente reconhecida.

Evitar revistas e eventos predatórios é imprescindível!

Quanto ao desenvolvimento de propriedade intelectual, as orientações são bem mais específicas. Se sua inovação está em processo de registro, o ideal é que artigos científicos que descrevem seus desenvolvimentos não sejam publicados previamente ao registro da patente, software ou outra tipologia de proteção.

Entrevista Nota 10 — Pensando nesse cenário, a Unifor estruturou o Escritório de Projetos da Vice-Reitoria de Pesquisa, que conta com uma atuação estratégica. Como funciona o setor? Quais são os principais mecanismos e serviços que a Unifor oferece hoje para proteger o conhecimento gerado e a propriedade intelectual de seus pesquisadores?

Clara Braga — O Escritório de Projetos foi estruturado em 2022, tratando-se de um escritório de controle. Nossos processos foram estruturados para monitorar a execução dos projetos de pesquisa e inovação da Unifor que são financiados. Acompanhamos, junto ao coordenador, a execução, em especial, quanto ao cronograma, aos riscos, ao escopo, à qualidade e aos stakeholders. Neste processo, [em relação aos] projetos que têm potencial de registro de propriedade intelectual, monitoramos o desenvolvimento da inovação e fazemos a conexão do pesquisador líder/coordenador com o coordenador de Inovação, professor Naiderson Lucena, e o coordenador de Captação de Propriedade Intelectual, professor Ricardo Fialho Colares.

Entrevista Nota 10 — A proteção vai muito além do registro formal; ela exige educação contínua. De que forma a VRP atua de forma preventiva para treinar os pesquisadores e consolidar uma cultura inegociável de integridade científica e ética dentro do campus?

Clara Braga — A Unifor, preocupada com a qualidade de suas pesquisas e com as questões ética e de desenvolvimento humano relacionadas àquelas, constituiu três importantes comissões que orientam, analisam e intervém, quando necessário, em projetos científicos para proteger, principalmente, os envolvidos e/ou participantes em pesquisas que não estejam de acordo com os preceitos de integridade e dignidade da vida animal e humana.

O Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos (Coética) da Universidade de Fortaleza é uma entidade colegiada independente, interdisciplinar e normativa, de caráter consultivo, deliberativo e educativo, com o objetivo de defender os interesses dos participantes da pesquisa em sua integridade e dignidade. Cabe também ao Coética contribuir para o desenvolvimento da pesquisa dentro dos padrões éticos no âmbito de sua competência.

A Comissão de Ética no Uso de Animais (CEUA) da Unifor, constituído pela Portaria 01/2009 de 13 de janeiro de 2009, tem a atribuição de receber e analisar os aspectos éticos dos protocolos de aula e pesquisa da Unifor e de outras instituições, tendo como base os princípios éticos na experimentação animal do Colégio Brasileiro de Experimentação Animal (Cobea). Os membros atuam de modo independente e não-remunerado, com caráter consultivo, deliberativo e educativo.

O Comitê de Política de Integridade Científica tem como objetivo promover e garantir a integridade e ética na pesquisa realizada na Universidade de Fortaleza, garantindo a confiança e a credibilidade da comunidade científica e do público em geral.

Quanto à integridade em pesquisa, o Comitê de Política de Integridade Científica tem como objetivo promover e garantir a integridade e ética na pesquisa realizada na Universidade de Fortaleza, garantindo a confiança e a credibilidade da comunidade científica e do público em geral.

Estas quatro estruturas resguardam a Conduta Responsável em Pesquisa na Unifor, através de formações que desenvolvem uma cultura de ética e integridade em pesquisa dentre os pesquisadores, docentes e discentes. 

Entrevista Nota 10 — Caso um pesquisador da Unifor suspeite que seu trabalho foi utilizado por terceiros sem os devidos créditos, quais providências esse cientista pode tomar?

Clara Braga — O Committee on Publication Ethics (COPE) possui orientações bastante claras para situações em que um pesquisador, leitor ou terceiro identifica possíveis problemas em um artigo publicado em uma recista científica. A recomendação depende do tipo de preocupação (plágio, autoria, fabricação de dados, manipulação de imagens, conflito de interesse não declarado, erro metodológico etc.), mas o fluxo geral é o seguinte:

Contatar primeiro a revista. A COPE recomenda que a pessoa apresente suas preocupações diretamente ao editor da revista. A comunicação deve conter:

  • identificação do artigo;
  • descrição objetiva da preocupação;
  • evidências disponíveis;
  • documentação que sustente a alegação.

A COPE desencoraja acusações públicas antes que a revista tenha oportunidade de analisar o caso.

Caso o pesquisador da Unifor precise de orientação e apoio complementar quanto ao processo, pode entrar em contato com a Vice-reitoria de Pesquisa pelo e-mail pesquisa@unifor.br.


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