Pesquisa da Unifor obtém carta patente para espessante natural aplicado a sobremesas lácteas

qua, 11 fevereiro 2026 17:30

Pesquisa da Unifor obtém carta patente para espessante natural aplicado a sobremesas lácteas

Tecnologia usa polissacarídeo extraído de sementes de Caesalpinia pulcherrima, planta amplamente cultivada no Nordeste, como alternativa a insumos importados.


O estudo é desenvolvido no Núcleo de Biologia Experimental (Nubex), pertencente ao Parque Tecnológico da Universidade de Fortaleza (TEC Unifor) (Foto: Getty Images)
O estudo é desenvolvido no Núcleo de Biologia Experimental (Nubex), pertencente ao Parque Tecnológico da Universidade de Fortaleza (TEC Unifor) (Foto: Getty Images)

Quem é pesquisador sabe que pode levar anos para obter a carta patente de uma pesquisa, além do tempo dedicado ao próprio projeto, que inclui investigações, testes e muito estudo. Por isso, a concessão é motivo de comemoração, pois além de validar o caráter inovador da ideia, permite a transferência da tecnologia para o setor produtivo e industrial.

A pesquisadora Stella Arcanjo Medeiros conhece bem esse sentimento. Ela foi uma das primeiras alunas do doutorado em Biotecnologia da Rede Nordeste de Biotecnologia (Renorbio), do qual faz parte a Universidade de Fortaleza (Unifor) - instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz

Stella teve a satisfação de receber a carta patente referente à sua tese de doutorado, na qual desenvolveu um espessante e estabilizante para sobremesas lácteas, no caso, um flan, a partir de um polissacarídeo encontrado nas sementes da planta caesalpinia pulcherrima, popularmente conhecida como Flamboyanzinho. O estudo é desenvolvido no Núcleo de Biologia Experimental (Nubex), pertencente ao Parque Tecnológico da Universidade de Fortaleza (TEC Unifor).

Além de agregar fibras ao alimento lácteo, o estabilizante pode baratear os custos da produção industrial, que geralmente utiliza galactomananas de plantas importadas. A descoberta da matéria prima em território nacional e sua eficiência é uma das principais vantagens da pesquisa.

Stella explica que a caesalpinia pulcherrima é uma espécie abundante no Nordeste brasileiro e apresenta sementes ricas em galactomananas. “Esses polissacarídeos são amplamente utilizados pela indústria devido à sua capacidade de modificar a viscosidade em meios aquosos. Esses compostos naturais são essenciais no controle de textura, cremosidade e estabilidade de alimentos industrializados, prevenindo problemas como sinérese, sedimentação e cristalização”, diz a pesquisadora.

Stella tem planos futuros de utilizar a pesquisa para a geração de renda em comunidades carentes. Segundo ela, uma vez que a semente esteja sendo usada pela indústria láctea, será demandado o cultivo da planta em maior escala, o que pode beneficiar trabalhadores rurais.


“Tinha uma senhora que coletava as sementes de Flamboyanzinho para mim lá em Pindoretama. Ela ficou impressionada quando soube que eu usava as sementes dessa planta para estabilizar e integrar fibra a uma sobremesa. Aí ela me perguntou: 'Como você faz isso?'. 'Aí é que está o segredo do meu trabalho', respondi para ela rindo” Stella Arcanjo Medeiros, pesquisadora do Núcleo de Biologia Experimental da Unifor

O produto final passou por vários tipos de análise: as reológicas, que estudam sua capacidade de espessamento; as de textura, que conferem suas características de firmeza e elasticidade; e as sensoriais, que verificam o uso de galactomanana propriamente nas receitas de flan. Segundo a pesquisadora, o sabor também foi aprovado pelos voluntários que participaram da pesquisa.

Sobre a concessão da carta patente, Stella afirma: “Representa um marco relevante e motivo de grande satisfação, destacando a importância da pesquisa realizada no Parque Tecnológico da Unifor e o compromisso da instituição com a inovação científica e tecnológica”

“A tecnologia tem potencial para atender à crescente demanda do setor alimentício por aditivos naturais, sustentáveis e de alto desempenho, ampliando oportunidades de aplicação biotecnológica de recursos vegetais regionais e fortalecendo a conexão entre pesquisa acadêmica e cadeia produtiva”, conclui Stella.

Para a diretora do Nubex, professora Cristina Moreira, a carta patente também evidencia o papel estratégico das pesquisas conduzidas no espaço de pesquisa, orientadas a transformar conhecimento científico em soluções concretas para a sociedade. 


“Ao atender à demanda do setor alimentício por aditivos naturais, sustentáveis e de alto desempenho, a tecnologia contribui para ampliar a competitividade industrial e reduzir a dependência de insumos importados. Mais do que um reconhecimento técnico, a concessão estabelece bases sólidas para parcerias com a indústria e para a transferência tecnológica, ampliando o impacto socioeconômico — inclusive com perspectiva de geração de renda e oportunidades para comunidades inseridas no cultivo e na cadeia de suprimento dessa matéria-prima no Nordeste” — Cristina Moreira, diretora do Núcleo de Biologia Experimental da Unifor

Mais sobre carta patente

Carta patente é um documento oficial emitido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), órgão federal responsável pela análise dos pedidos de patente, verificação dos requisitos legais e emissão da carta-patente, em caso de aprovação. 

Considerada uma validação do potencial transformador da pesquisa, é um passo importante para transformar uma ideia ou invenção em soluções concretas que beneficiam a sociedade.

A carta patente permite ao pesquisador explorar sua invenção por um período determinado (20 anos para patentes de invenção e 15 anos para modelos de utilidade). Além disso, garante o direito de impedir a utilização da pesquisa por terceiros, sem a devida autorização.


Esta notícia está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), contribuindo para o alcance dos ODSs 3 – Saúde e Bem-Estar4 – Educação de Qualidade e 9 – Indústria, Inovação e Infraestrutura.

A Universidade de Fortaleza, assim, fortalece a produção científica voltada à melhoria da saúde, assegura formação acadêmica de excelência e estimula a inovação tecnológica, ampliando o impacto social das pesquisas desenvolvidas.