seg, 13 julho 2026 18:24
Pesquisa Unifor: estudo em parceria com a UFC concorre ao Prêmio Capes de Tese 2026
O estudo investiga como a luz vermelha influencia o funcionamento das células da pele, contribuindo para o avanço dos estudos em fotobiomodulação

Um estudo desenvolvido em parceria entre o Núcleo de Biologia Experimental (Nubex) da Universidade de Fortaleza (Unifor) e a Universidade Federal do Ceará (UFC) foi selecionado para concorrer ao Prêmio Capes de Tese 2026, um dos principais do ensino superior brasileiro.
A pesquisa teve como coorientador Felipe Domingos de Sousa, pesquisador do Nubex, e investigou como diferentes tipos de células respondem à absorção de luz vermelha, com o objetivo de ampliar a compreensão sobre uma técnica terapêutica cada vez mais utilizada na medicina.
A fotobiomodulação é uma técnica médica e terapêutica não invasiva, com custo relativamente baixo diante do aumento constante das despesas médico-hospitalares. Cada vez mais utilizada, ela aplica luz de baixa intensidade — como a luz vermelha — na cicatrização de feridas, no tratamento da dor crônica e em processos de reabilitação, sem provocar danos térmicos ou efeitos colaterais importantes.
O problema é que os mecanismos celulares responsáveis por esses efeitos ainda eram pouco compreendidos, e a própria eficácia clínica continua alvo de debates. A literatura científica reúne relatos conflitantes, deixando em aberto se, e em quais situações, o tratamento realmente funciona, assim como os mecanismos responsáveis por seus efeitos sobre o comportamento mecânico das células.
Entender com mais precisão como cada tipo de célula responde à luz vermelha permite ajustar a dose e o tempo do tratamento de forma mais segura e eficiente, beneficiando diretamente pacientes em diferentes contextos clínicos.
A partir dessa lacuna, o professor Jeanlex Soares de Sousa, do Departamento de Física da UFC, propôs o tema ao pesquisador Antônio Vinnie dos Santos, hoje doutor em Física pela instituição. O trabalho resultou na tese “Análise biomecânica e perfil proteômico de células em resposta à absorção de luz vermelha”.
O trabalho foi escolhido como a melhor tese produzida no Programa de Pós-Graduação em Física da UFC em 2025 e, assim, concorre à chamada nacional do Prêmio Capes de Tese 2026, que terá resultado divulgado ao longo do segundo semestre.
O estudo já obteve outros reconhecimentos, como a participação no periódico Small, uma prestigiada revista científica multidisciplinar focada em nanociência e na nanotecnologia, publicada pela editora Wiley-VCH, referência global na intersecção entre ciência dos materiais, física, química, biologia e medicina.
“A indicação ao Prêmio Capes valida a importância das parcerias entre as instituições e evidencia que a ciência é, essencialmente, colaborativa, tendo como objetivo e benefício comum a toda a sociedade.” — Felipe Domingos de Sousa, coorientador do estudo e pesquisador Núcleo de Biologia Experimental (Nubex) da Unifor
O que a pesquisa revela?
O estudo avança a compreensão dos mecanismos celulares da fotobiomodulação, uma brecha reconhecida na literatura internacional, e impacta diretamente o potencial de tornar tratamentos de reparação tecidual mais eficazes e mais bem direcionados, promovendo regeneração, alívio da dor ou controle inflamatório de forma localizada.
O trabalho utiliza conhecimentos da física, da mecânica e da biomecânica para compreender como os estímulos luminosos influenciam o comportamento celular. Dessa forma, demonstra como conceitos da física podem ser aplicados ao estudo de fenômenos biológicos complexos e relevantes para a saúde. Para compreender os efeitos da luz vermelha nas células, os pesquisadores combinaram duas técnicas avançadas:
- microscopia de força atômica, que permite analisar as propriedades mecânicas das células;
- espectrometria de massas, utilizada para identificar e quantificar proteínas produzidas pelas células.
A partir dessa combinação, o estudo analisou a mecanotransdução, processo pelo qual as células transformam estímulos físicos em sinais químicos internos. Os resultados mostraram que a absorção da luz provoca alterações significativas na biomecânica celular, área responsável por estudar as propriedades físicas e mecânicas das células. A pesquisa também constatou que esse estímulo luminoso afeta cada tipo de célula de maneira distinta, conforme a função desempenhada por cada uma no organismo:
- fibroblastos (pele profunda): ficaram mais fluidos e móveis, o que ajuda a acelerar a cicatrização;
- queratinócitos (pele superficial): responderam dependendo da dose de luz recebida;
- osteoblastos (ossos): quase não mudaram sua forma, pois a luz estimula a sua multiplicação e não a movimentação.
Os resultados das demais linhagens celulares analisadas na tese estão em fase de publicação. Além de contribuir para o avanço da biofísica celular e da fotobiomodulação, o estudo oferece uma explicação científica para efeitos da terapia de luz que, até então, eram observados principalmente em resultados clínicos. A pesquisa também aponta a possibilidade de utilizar características mecânicas das células como indicadores da resposta ao tratamento.
Vinnie dos Santos, enfatiza que as respostas do estudo irão orientar a otimização de protocolos clínicos de tratamentos com fotobiomodulação, podendo também ser aplicadas em pacientes oncológicos.
“Há também potencial de aplicação em contextos oncológicos, já que a pesquisa identificou diferenças mecânicas relevantes entre células tumorais e saudáveis em resposta à luz. Já está em andamento a transição para modelos tridimensionais de cultura celular, os esferóides, que devem aproximar ainda mais os resultados de bancada das condições reais dos tecidos vivos e da aplicação clínica.” — Vinnie dos Santos, autor do estudo e doutor em Física pela UFC
Entenda a metodologia do estudo
Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores combinaram técnicas avançadas de física, engenharia e biologia celular. O foco foi analisar a mecanotransdução. Seis linhagens celulares foram cultivadas em laboratório e expostas a uma luz vermelha com comprimento de onda de 633nm (nanômetros) e foram testadas diferentes combinações de intensidade da luz e tempo de exposição, permitindo avaliar o efeito exato da “dose” de energia entregue às células.
Para medir as propriedades físicas das células, os pesquisadores utilizaram um microscópio de força atômica, equipamento cujo funcionamento pode ser comparado ao de uma agulha ultrafina de toca-discos. Ela "toca" a superfície da célula viva com extrema delicadeza. Ao exercer uma leve pressão sobre a célula, o aparelho mede a resistência oferecida, revelando sua rigidez (módulo elástico), e acompanha sua deformação ao longo do tempo, permitindo identificar o grau de fluidez (viscoelasticidade).
Para entender a causa da mudança física, os pesquisadores analisaram o "esqueleto" e a química interna das células do primeiro grupo por meio da avaliação proteômica, utilizada para identificar e quantificar proteínas produzidas pelas células. Após a irradiação, as proteínas das células foram extraídas e analisadas em um espectrômetro de massas, um equipamento capaz de identificar e quantificar milhares de proteínas simultaneamente.
A análise confirmou a ativação, pela luz, de vias relacionadas à produção de energia (ATP), à resposta ao estresse e, principalmente, de proteínas responsáveis pelo controle do citoesqueleto, rede interna formada por filamentos de actina, microtúbulos e filamentos intermediários, responsável por dar forma e sustentação à célula.
O resultado da pesquisa demonstra que a absorção da luz vermelha altera diretamente essa "carcaça" ou rede de sustentação interna da célula e a expressão de proteínas, abrindo portas para tratamentos médicos e estéticos mais eficazes e personalizados. Essas descobertas ajudam a desvendar o mecanismo exato de como as terapias com luz funcionam no corpo humano.
Compreender de forma mais precisa como diferentes células respondem à luz poderá contribuir para o desenvolvimento de protocolos terapêuticos mais seguros e eficientes, beneficiando diretamente pacientes em tratamentos.
Parceria para uma pesquisa de excelência
O estudo conecta a física experimental e a biologia celular de forma interdisciplinar. Entusiasta da biofísica, o professor Jeanlex Soares pontua como a pesquisa aproxima ainda mais a física das grandes questões da biologia moderna e contribui com grande peso para a sociedade e para a ciência.
“Eu gosto de dizer que esta tese foi inteiramente desenvolvida na linha do ônibus Campus do Pici- Unifor. Vinnie executou metade do trabalho na UFC e a outra metade no Nubex-Unifor.” — Jeanlex Soares, orientador do estudo e professor de Física da UFC
Enquanto na UFC foram analisadas as propriedades mecânicas das células, como rigidez e viscosidade, na Unifor os pesquisadores investigaram o perfil proteômico, ou seja, as proteínas produzidas pelas células após a absorção da luz vermelha. A integração desses dados permitiu compreender de forma mais ampla como a luz interfere no funcionamento celular.
A colaboração entre o Nubex e a UFC acontece desde 2019, entre o professor Felipe Domingos de Sousa e o professor Jeanlex Sousa. A amizade fomentou uma parceria que perdura até hoje. “Além de ampliar significativamente o alcance científico do trabalho, essa parceria permitiu a transferência de conhecimentos e técnicas que hoje fazem parte da rotina do nosso laboratório”, relata Felipe.
Vinnie reforça o papel crucial que a Unifor teve na pesquisa, já que concentrou no Nubex a infraestrutura experimental do cultivo das seis linhagens celulares analisadas pelo estudo, ensaios de irradiação e as medidas de espectrometria de massa.
“Além da estrutura física, a Unifor contribuiu por meio da coorientação do pesquisador Felipe Domingos e também pela colaboração do pesquisador Antônio Edson Oliveira. Isso me permitiu unir a expertise em física da UFC à infraestrutura de biologia experimental da Unifor”, salienta o autor da pesquisa.
Segundo o professor Jeanlex Soares, um dos diferenciais do estudo foi a abordagem multidisciplinar. Embora a tese tenha sido desenvolvida no Departamento de Física da UFC, a pesquisa também incorporou técnicas da farmacologia, biotecnologia e biologia celular.
O grande mérito do estudo está em demonstrar, de forma imediata, que a luz tem a capacidade de interferir diretamente no maquinário celular responsável pela produção de proteínas. Essa descoberta quebra paradigmas e abre as portas para que os pesquisadores dêem o próximo passo: testar esses efeitos em estruturas biológicas mais complexas e realistas, como tecidos e organóides (mini-órgãos criados em laboratório).
O trabalho pavimenta o caminho para uma compreensão muito mais profunda da fotobiomodulação revolucionando o desenvolvimento de novas terapias e tratamentos médicos.
Esta matéria está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, contribuindo para o alcance do ODSs 3 – Saúde e Bem-Estar, ODS 4 – Educação de Qualidade, ODS – 9 Indústria, Inovação e Infraestrutura e ODS – 17 Parcerias e Meios de Implementação.
A Universidade Federal do Ceará (UFC) e a Universidade de Fortaleza (Unifor) reafirmam, assim, o compromisso conjunto com a promoção da saúde, com a educação de excelência e com a inovação científica, transformando o conhecimento acadêmico em soluções tecnológicas com impacto direto no bem-estar da sociedade.