ter, 8 setembro 2026 11:56
Entrevista Nota 10: Iago Capistrano e as novas fronteiras do direito com as transformações digitais
Especialista em Direito Digital & Proteção de Dados analisa o panorama atual entre direito, inovações tecnológicas e governança da internet, destacando a importância do Youth LACIGF na formação de novos líderes para os desafios da regulação digital

A ideia do advogado que ficava por trás de uma pilha de papel e processos físicos ficou no passado. Hoje, a rápida evolução da inteligência artificial, a complexidade da proteção de dados e a necessidade de regulação das grandes plataformas digitais estão redesenhando não só o ecossistema jurídico, mas também o próprio conceito da profissão.
De acordo com o advogado Iago Capistrano, especialista em Direito Digital & Proteção de Dados e consultor de Inovação Jurídica do Tribunal de Justiça do Estado do Ceará (TJCE), a área jurídica é uma das mais impactadas pela tecnologia e pela inteligência artificial. Por isso, para ele, o direito precisa se reinventar.
“Tem uma frase que eu gosto de falar nas minhas aulas que é ‘O velho direito não cabe mais na nova economia. Os problemas que enfrentamos hoje não podem ser resolvidos amanhã usando as mesmas soluções de ontem’”, pontua o professor. Ele é responsável pelo módulo de IA no Direito em diferentes cursos de especialização da Universidade de Fortaleza, instituição da Fundação Edson Queiroz.
Iago começou sua jornada profissional na interseção entre direito e tecnologia ainda durante a graduação em Direito na Unifor, onde fundou o Grupo de Estudos em Tecnologia, Informação e Sociedade (GETIS), sob coordenação do professor João Monteiro Neto.
Foi nesse período acadêmico que também teve a oportunidade de ser bolsista do Fórum de Governança da Internet da América Latina e do Caribe para a Juventude (Youth LACIGF). Em 2026, agora já formado, atua como coordenador da comunidade local do 11º Youth LACIGF, que acontecerá nos dias 3 e 4 de novembro no Auditório da Biblioteca. O evento busca formar jovens lideranças para o futuro digital, promovendo suporte financeiro e uma rede de conexões e conhecimento.
Gestor de IA & Transformação Digital do APSV Advogados, Iago é vice-presidente da Comissão de Direito Digital, IA e Inovação da Ordem dos Advogados do Brasil - Secção Ceará (OAB-CE). Também é diplomado em Governança e Regulação da Internet pela Universidad de Mendoza, na Argentina.
Na Entrevista Nota 10 desta semana, ele analisa o debate entre direito, inovações tecnológicas e governança da internet, além de destacar a importância do Youth LACIGF para a formação de novas lideranças para o futuro digital.
Leia a entrevista na íntegra a seguir.
Entrevista Nota 10 — As transformações digitais e a inovação tecnológica têm trazido debates inéditos para o setor jurídico. Conceitualmente, como a inovação digital está mudando a própria definição do que significa “operar o direito” hoje?
Iago Capistrano — De fato, a sociedade tem mudado e todo o mercado tem mudado, todos os setores têm sido impactados pela inovação e pela tecnologia, e o direito não escapa disso. Na realidade, falando em tecnologia e inteligência artificial especificamente, a área jurídica é uma das mais impactadas pelas capacidades da IA já demonstradas. E tem estudos que comprovam isso, por exemplo, um estudo da Anthropic, que é a provedora do Cloud.
Então, o direito precisa se reinventar. Tem uma frase que eu gosto de falar nas minhas aulas, que é “O velho direito não cabe mais na nova economia. Os problemas que enfrentamos hoje não podem ser resolvidos amanhã usando as mesmas soluções de ontem”. Não gosto muito da palavra “operar”, prefiro dizer “fazer o direito”. O “fazer o direito” muda.
Tem um professor da Universidade de Oxford que é considerado uma das grandes referências da inovação jurídica e, desde a década de 1980, se dedica ao tema de tecnologia e inovação no direito, que é o Richard Susskind. Ele fala que nós precisamos de uma geração de advogados que sejam capazes de desenhar, desenvolver, entregar e manter os sistemas que vão substituir as velhas formas de trabalhar, então é muito nisso que eu acredito.
O advogado do amanhã, que é o nome do livro dele “Tomorrow's Lawyers”, eu prefiro dizer que é o advogado do hoje, porque o futuro já chegou. Esse profissional entende de empreendedorismo, está alinhado à inovação, à criatividade, à flexibilidade. É um possibilitador de negócio e não um complicador, trabalha de forma multidisciplinar e colaborativa, domina ferramentas de tecnologia e, trabalhando com propósito, descomplica o direito, contra a juridiquês. O direito é meio para a realização de diferentes objetivos, inclusive no aspecto tecnológico digital.
Entrevista Nota 10 — A inteligência artificial é uma ameaça à atuação do advogado ou uma ferramenta que transforma a natureza desse trabalho?
Iago Capistrano — Novamente, vou fazer uma citação aqui ao professor Richard Susskind, que fala que a tecnologia nunca substituirá o advogado, o jurista como um todo. Mas o advogado que não souber usá-la, esse sim será substituído. E é nisso que eu acredito. Os profissionais que dominam a tecnologia, no direito e fora dele, é que vão substituir as pessoas que não estão antenadas, que não estão utilizando essas ferramentas de tecnologia como aliadas para a realização dos seus trabalhos.
Efetivamente, é nisso que eu acredito, é isso que eu ensino e é isso que — fazendo o jabá aqui também — a Pós-Unifor ensina. Hoje, nas especializações em direito da Unifor, nós temos módulos específicos em cursos diferentes, do Processo Civil ao Direito Empresarial, voltados ao uso de inteligência artificial nas práticas no dia a dia jurídico. No caso, eu estou tendo a oportunidade de ser o professor à frente deste módulo.
E na graduação em Direito, nós temos também disciplinas como Inovação Jurídica, Direito da Tecnologia e da Informação e Proteção de Dados Pessoais. São temas que deixaram de ser acessórios e passaram a ser essenciais — cada vez mais essenciais na era em que nós estamos inseridos.
Entrevista Nota 10 — Quais habilidades, sejam técnicas ou comportamentais, se tornaram inegociáveis para o profissional que quer se destacar nessa área?
Iago Capistrano — Sobre as habilidades, eu acabei comentando na primeira resposta. São habilidades técnicas ou comportamentais que se tornaram inegociáveis para o profissional que quer se destacar nessa área. É aquilo que eu falei: trabalhar com propósito, ser um descomplicador do direito, entender de inovação, criatividade, agilidade e flexibilidade, possibilitar negócios, prevenir conflitos e não ficar na dependência da justiça, trabalhar de forma multidisciplinar e colaborativa — conversando com pessoas que não sejam só do direito mas de diferentes áreas, incluindo da tecnologia, de projetos, de administração — e dominar as ferramentas tecnológicas, especialmente as de inteligência artificial.
Eu acho que eu acrescentaria a isso ser crítico, ser cada vez mais crítico, não incorrer no erro da dependência cognitiva da inteligência artificial, que é um paradoxo que nós temos aí. Ao passo que a IA nos propicia diversas possibilidades exponenciais de realização do nosso trabalho, temos que tomar muito cuidado para usar ela como asas e não como muletas. É o profissional que vai fazer melhor com a IA e não a IA que vai fazer por ele. Existe uma diferença semântica crucial aí nessas duas frases.
Entrevista Nota 10 — Qual é o seu diagnóstico sobre o atual mercado de trabalho para quem deseja atuar na intersecção entre direito e tecnologia?
Iago Capistrano — O mercado de trabalho para quem deseja atualizar a interseção entre direito e tecnologia é absolutamente promissor, cada vez mais, até porque a tecnologia está presente no dia a dia de todas as pessoas, independentemente de você utilizá-la ou não. E aí, de novo, voltamos para aquele ponto de que quem utiliza se destaca. E quem domina a utilização para trabalhar nessa área, aí tem um oceano azul — outro conceito aí do empreendedorismo — a ser explorado.
Foi essa a aposta que eu fiz lá atrás, em 2019, quando ainda na graduação de Direito eu tive a oportunidade de começar a estudar sobre isso, na época, em iniciativas de pesquisa. Tivemos a oportunidade de fundar o Grupo de Estudos em Tecnologia, Informação e Sociedade, o GETIS, sob coordenação do professor João Monteiro Neto. E era um grupo voltado para discutir esses temas, pioneiro aqui no Ceará, não tinha nenhum grupo de direito voltado para os temas de tecnologia. Falávamos sobre cibersegurança, privacidade, governança de inteligência artificial e inovação no direito. O âmbito acadêmico acabou me propiciando possibilidades profissionais.
Depois eu vim a ser estagiário da própria Universidade de Fortaleza, convidado pelo professor João Neto, que era meu orientador na pesquisa e passou a ser meu chefe também na Unifor, para o Escritório de Proteção de Dados Pessoais, cuidando ali da pasta de LGPD, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais. Passei um ano e meio na Unifor, tive uma incrível experiência de aprendizado prático. Quando me graduei, já entrei no mercado dentro desse segmento e dessa interseção entre direito, tecnologia e inovação.
E aí, hoje já fui agente de inovação jurídica do Governo do Estado do Ceará, já estou há cinco anos como advogado de Direito Digital e Inovação Jurídica do APSV Advogados, setor do qual fui coordenador até o fim do ano passado. Saí da coordenação para, no começo desse ano, assumir a Gestão de Inteligência Artificial e Transformação Digital.
Para você ver: foi criado um cargo dentro de um escritório de advocacia para cuidar dessa agenda, desta pasta de transformação digital e inteligência artificial, que tem sido a minha principal dedicação, sobretudo, nos últimos três anos. Tenho estado imerso nesses estudos como professor, como advogado e agora como gestor dessa parte do meu escritório.
E, para finalizar aqui falando da minha experiência, eu também sou consultor de inovação jurídica do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE). Atualmente, eu acumulo esses dois trabalhos fixos (Gestão de IA no escritório e consultoria de Inovação Jurídica no Tribunal), sou professor e, devo dizer também, sou vice-presidente da Comissão de Direito Digital, Inovação e Inteligência Artificial da OAB-CE.
Acho que deu para entender que existe, sim, um mercado muito vasto para explorar no direito, na inovação e na tecnologia.
Entrevista Nota 10 — Você atua como coordenador da comunidade local do Fórum da Juventude da América Latina e Caribe sobre Governança da Internet, o Youth LACIGF. Como funciona essa iniciativa e quais são seus objetivos? Qual é o impacto prático de trazer a juventude para o centro das discussões sobre governança e regulação digital?
Iago Capistrano — Vou fugir um pouco do script para te responder essa questão. Foi graças ao GETIS, o Grupo de Estudos em Tecnologia, Informação e Sociedade, que eu conheci a governança da internet.
A governança da internet, na realidade, é esse grande guarda-chuva embaixo do qual estão desdobramentos diversos, desde acessibilidade digital, inclusão digital e cibersegurança a proteção de dados e inteligência artificial. Tudo isso está dentro do escopo da governança da internet. E existe um ecossistema internacional e multilateral de diferentes agentes do público, do privado, da academia e do terceiro setor, todos olhando para essas temáticas tão importantes de governança da internet.
Eu descobri essa comunidade por meio das conexões e dos eventos que eu pude participar, graças ao GETIS, que é um grupo de estudos da Universidade de Fortaleza. Para a juventude, em especial, existem diversos programas de bolsa. Para pessoas como eu, por exemplo, que não tinham condições de fazer viagens, de custear por conta própria congressos e ter experiências internacionais, eu pude acessar tais oportunidades graças a essas bolsas, como a do Youth LACIGF.
O Youth LACIGF, que é o Fórum de Governança da Internet da América Latina e do Caribe para a Juventude, tem o intuito de formar jovens lideranças para o futuro digital, fazer com que pessoas como eu e, sobretudo, aquelas que tinham dificuldade de acesso, inclusive financeiro, pudessem entrar nesses espaços, com o apoio financeiro e o apoio de conexão, de rede, de conhecimento como um todo.
Então, o Youth LACIGF, assim como outras iniciativas da governança da internet, a Escola do Sul da Governança da Internet, o Youth Brasil, foram pilares na minha formação e nesse pequeno destaque que tenho galgado para contribuir com esse ecossistema da governança da internet.
Graças a essas oportunidades de bolsa, eu já pude ir aos Estados Unidos, à Argentina duas vezes, ao Uruguai, ao Equador, já falei virtualmente com o México, com a Bolívia, com diferentes colegas, sobretudo da América Latina e do Caribe. Então, uma coisa que eu tenho muito enraizada em mim é o give back, a cultura de trazer de volta.
Isso é uma missão pessoal. Se eu consegui ter esses acessos, se a vida foi tão generosa comigo e as portas me foram abertas desse jeito, eu quero abrir portas para outras pessoas. Quero trazer para cá, de volta para minha casa, essas oportunidades que eu pude acessar fora. Não tenho dúvida de que aqui podemos fazer desabrochar excelentes novas lideranças na juventude no meio da governança da internet.
Para mim, é particularmente especial. É uma realização poder facilitar essa realização, esse evento de acontecer aqui na Universidade de Fortaleza, na minha alma mater, minha universidade de paixão, como egresso e hoje professor, e com um curso que é tão importante para essa formação de novas lideranças na área da governança da internet. Então, realmente é um match que tem me deixado muito realizado e feliz.
Entrevista Nota 10 — A 11ª edição do Youth LACIGF vai acontecer nos dias 3 e 4 de novembro, no campus da Universidade de Fortaleza. Por que trazer o evento para a instituição? De que maneira iniciativas extracurriculares e comunitárias como o Youth LACIGF ajudam a moldar profissionais mais preparados e críticos para liderar o setor tecnológico?
Iago Capistrano — Especificamente graças ao Youth LACIFG, eu fui bolsista em duas edições e isso me deu a oportunidade de ir para o Chile e para a Argentina, nas edições de 2025 e 2024, respectivamente. Como eu fui bolsista e fiz parte dessa rede, foi anunciado que o Fórum de Governança da Internet da América Latina e do Caribe, não o específico da juventude, seria realizado em Fortaleza.
No momento que houve esse anúncio, a atual coordenação do Youth LACIFG, que eram colegas e foram bolsistas comigo em edições passadas, vieram falar “Precisamos de um apoio seu enquanto comunidade local. Queríamos ir para um lugar que fosse referência, preferencialmente uma universidade e que tivesse estrutura”.
Enfim, não tem lugar melhor do que a Universidade de Fortaleza para fazer isso. Não apenas por ter sido aluno e hoje ser professor da Pós-Unifor, mas sabemos da referência que é a Unifor no Norte e no Nordeste. Não vejo outro ambiente que pudesse tão bem receber a realização desse evento que não a Unifor, por toda a sua consolidação não só curricular, mas também de iniciativas extracurriculares e comunitárias, como você colocou aí.
O próprio Youth LACIFG, por ser uma atividade voluntária, os membros da coordenação não recebem nada e, pelo contrário, os participantes são contemplados com bolsas. Temos a expectativa de receber aí pessoas de diferentes países da América Latina e do Caribe vindo para cá com fomento financeiro, com passagem e hospedagem, além de alimentação aqui nos dias do evento. Então, é um projeto de impacto social, que tem tudo a ver com a Universidade de Fortaleza.