Angélica Pereira Lima
Carta a Edson Queiroz – “Anjo do Pantanal”
Prezado Sr. Edson Queiroz,
Sei que o senhor deve estar estranhando receber uma carta vinda diretamente do Mato Grosso, esse cantinho quente, plano, silencioso e, ao mesmo tempo, cheio de vida e confusão - tudo ao mesmo tempo agora. Pois é assim que vivemos no século XXI: com calor de 40°, internet oscilando e uma tristeza danada quando o gado derruba a cerca e decide passear no quintal como se fosse dono do pedaço.
Queria lhe contar que muita coisa mudou desde sua partida em 1982, mas, antes de tudo, devo confessar uma verdade comicamente dramática: hoje todo mundo acredita que tem um anjo particular. Anjo da guarda, anjo do Pix, anjo da senha do Wi-Fi e, claro, anjo do Pantanal, que jura que vai segurar as queimadas ao soprar nuvens com força no céu. Se existir mesmo esse anjo, espero que ele não durma em serviço.
Porque o Pantanal, Sr. Edson, está diferente. Continua lindo um tapete verde inundado de cantos e bichos — mas também está machucado. O fogo corre mais rápido que cavalo bom, a chuva às vezes falta, às vezes sobra, e os bichos tentam sobreviver às rotinas modernas: drone sobrevoando onça, turista invadindo ninho de tuiuiú para selfie, e jacaré aparecendo no TikTok. É sério: jacaré virou estrela digital.
O Mato Grosso é grande demais, Sr. Edson. Aqui a gente mede distância pelo tempo de conversa. “Logo ali” pode significar quarenta quilômetros de estrada esburacada, poeira vermelha entrando no olho e dois litros de água evaporando pelo nariz. O senhor ia rir de nós quando, antes de marcar um encontro, perguntamos: “É no Mato Grosso do Sul ou no de cima? ”. Porque até isso complicaram. Os anjos também mudaram. Antigamente eram silenciosos, misteriosos, etéreos. Hoje, se existirem, devem usar protetor solar fator 100, repelente pra mutuca, e ter um GPS embutido na asa, porque ninguém acha mais lugar nenhum sem satélite. Não dá para ser divindade no Pantanal sem tecnologia.
Sei que o senhor era visionário, empreendedor e cheio de coragem. Talvez gostasse de saber que o Brasil começou a se ver com mais carinho. Ainda tropeçamos na educação, ainda sofremos com injustiça, ainda faltam políticas sérias — mas também temos vozes novas crescendo. A juventude rural não quer mais ir embora: quer estudar, plantar melhor, preservar, conectar Wi-Fi no meio do curral e cuidar da terra com consciência.
Esse Pantanal moderno é um mosaico estranho: caminhonete 4x4 carregando ração ao lado do barco empurrado no braço; turista europeu perguntando “onde fica a onça? ” como se fosse loja; adolescente usando TikTok para explicar por que o tuiuiú é importante para o ciclo do rio; e avô pantaneiro dizendo que “só Deus e um bom anjo sabem se chove amanhã”.
O clima mudou, Sr. Edson. E como mudou. O senhor se lembraria do calor, mas não desse calor. Esse aqui derrete a alma, torra o pensamento e faz nego perguntar se, quando morrer, vai para o céu ou simplesmente continuar por aqui mesmo. Brinco dizendo que Mato Grosso já é o purgatório oficia l do Brasil: quente, intenso e cheio de imprevistos.
Mas, apesar de tudo, existe humor. E existe vida.
Outro dia, uma onça passou tranquila pela varanda do hotel onde trabalho. Um turista ficou apavorado; eu, não. Só pedi licença, ela olhou meu tereré com desdém e seguiu. Se isso não é convivência pacífica e moderna, não sei o que é.
É sobre isso que queria lhe contar: aqui a gente aprendeu a rir para sobreviver. Rimos porque o barulho do sapo à noite parece escola de samba; rimos porque o celular pega melhor na beira do rio do que na cidade; rimos quando o carro atolado vira atração turística; e rimos quando o anjo do guarda-chuva falha e volta tudo água até o joelho.
E, no meio desse humor meio trágico, continuamos lutando. Buscando preservar a terra, respeitar o rio, proteger o boi, cuidar do futuro. Esse Pantanal não é apenas uma paisagem: é identidade. É orgulho. É casa.
Enquanto o Brasil corre para a modernidade, nós, por aqui, seguimos com um pé no barro e outro na internet. Um olho no gado e outro no satélite. Uma reza para o céu e outra para o Pix cair.
Se eu pudesse lhe dar uma imagem final, seria assim:
O Pantanal é um anjo cansado, sentado à sombra de uma mangueira, asas sujas de poeira, sorriso largo no rosto, bebendo tereré, observando o mundo mudar com calma e dizendo. — Enquanto houver rio e riso, nada está perdido. E nós acreditamos. Com respeito, humor, verdade e calor pantaneiro,
Do coração do Mato Grosso, à beira do rio que nunca dorme.
Angélica Lima