Arthur Petrola

Fortaleza, dia primeiro de um mês primeiro de todos os anos que já passaram ao Chanceler Edson Queiroz

Prezado Chanceler,

Escrevo-lhe de um tempo em que as mãos desaprenderam um pouco a dança da caligrafia, e as palavras existem agora em contraste com o fundo branco de uma tela. São os avanços da tecnologia, dizem. De toda forma, mesmo diante de caracteres digitais, escrevo-lhe como quem tenta recuperar o traço de um lápis, tal como quando descobri, ainda pequeno, que poderia escrever sobre o vento.

Talvez fosse esperado que esta carta lhe desse conta das mudanças mundiais, das fronteiras que se moveram nos mapas ou das máquinas que agora pensam através das transformações tecnológicas (muitas das quais a universidade ajudou a criar). Mas o meu olhar, Chanceler, viciou-se nas desimportâncias; ele perde-se com as grandezas e busca o chão da memória. Olho para trás e não vejo estatísticas, vejo gente. Lembro-me dos meus colegas jovens, recém-ingressos, acreditando serem capazes de realizar o projeto que haviam sonhado para si mesmos, carregando manhãs inteiras nos olhos. Lembro-me de outros, já mais maduros, que com a vida dividida entre o trabalho e a graduação, efervesciam com a possibilidade de ainda aprender, como quem descobre uma nascente no meio da tarde. E lembro-me com ternura dos colegas muito mais maduros, aqueles que voltavam aos bancos da universidade para desaposentar o desejo de não só aprender, mas também ensinar. A curiosidade é uma infância que insiste em não passar para nenhum de nós, Chanceler.

Cada um deles, inclusive eu mesmo, teve a chance de criar mundos próprios. Algumas vezes precisamos demolir certezas para recomeçar do zero; outras vezes, abrimos caminhos no meio do mato fechado do impossível. O senhor talvez quisesse saber como o mundo mudou lá fora, mas a verdade é que a grande mudança aconteceu dentro dos milhares de estudantes que foram formados. A junção de todos esses pequenos mundos individuais criou, de fato, o novo universo que habitamos hoje.

Muitas coisas, no entanto, mudaram de forma vertiginosa na sua ausência. A maior mudança não está na paisagem, mas no tempo. Hoje, carregamos bibliotecas inteiras em pequenos retângulos de luz que cabem no bolso. Falamos com o outro lado do mundo num piscar de olhos. A velocidade que o senhor usava para empreender tornou-se a regra de sobrevivência de todos nós. Ganhamos o mundo instantâneo, Chanceler, mas sinto que, às vezes, perdemos aquela capacidade de ver as coisas simples que a poesia pede. E por essa razão, acho que não sou capaz de falar de todas as mudanças globais, mas peço a licença de ainda ser um pequeno observador das miudezas da vida.

E sobre elas, digo que há um milagre discreto que acontece ao cruzarmos o pórtico da universidade. Se a Avenida Washington Soares no seu tempo era estrada de poeira e praia, hoje é uma artéria que carrega o sangue de trabalhadores e estudantes, fazendo tudo em seu entorno pulsar. A cidade não apenas chegou; ela abraçou a universidade com uma força geológica. Se o senhor visse a paisagem hoje, notaria que as dunas deram lugar a uma cordilheira de prédios. Contudo, no campus é como se o tempo, respeitoso, tirasse o relógio do pulso. Lá dentro, no abraço desse bosque que o senhor preservou, o mundo desacelera. O barulho dos motores morre antes de tocar as salas de aula, barrado pelas árvores que filtram o ar e o som. Enquanto a cidade corre ansiosa para o futuro, lá caminha-se devagar, porque a sabedoria não se conquista com velocidade, mas com contemplação. O seu legado tornou-se o coração verde de um bairro que carrega o seu nome, bombeando vida no centro de um organismo complexo de concreto e vidro.

Lembro-me de que, no seu tempo, o campus era uma invenção de cimento pousada sobre a infância da terra. Havia um silêncio alaranjado nas tardes, onde o tempo não passava; ele apenas “estava”. Imagino que o senhor, visionário que era, enxergasse o horizonte, mas não duvido que visse também a poesia oculta no ato de transformar a vida de quem por aqui passasse. Eu sou parte desse universo novo que o senhor ajudou a criar, não apenas com concreto, mas com afeto e conhecimento. E talvez isso seja a única coisa que o tempo, a pressa e o progresso não conseguem alterar: a eternidade de quem aprende.

Com respeito e saudade do futuro que o senhor sonhou,

Arthur Petrola