Bruno Paulino
Carta a Edson Queiroz
Ao longo de minhas investigações sobre a trajetória do advogado, pesquisador, jornalista e militante político Pedro Wilson Maciel Mendes, deparei-me com um conjunto de papéis amarelados, guardados em uma antiga pasta de couro pertencente à sua família. Entre ofícios, recortes de jornais e anotações pessoais, encontrei uma carta datada de 12 de setembro de 1949, endereçada ao industrial e seu ex-sócio na fundação da Loteria Estadual do Ceará, Edson Queiroz, então jovem empreendedor, que começava a consolidar seu nome na economia cearense.
Por reconhecer o valor humano e simbólico dessas palavras, decidi transcrever fielmente a carta de Pedro Wilson e enviá-la à família do Dr. Edson Queiroz, como um testemunho raro de afeto, respeito e convergência entre dois espíritos que, à sua maneira, buscaram transformar o destino desta terra.
A seguir, a íntegra da correspondência.
Meu caro Edson Queiroz,
Escrevo-lhe numa tarde em que a brisa do mar sopra um pouco mais morna, trazendo o cheiro de cajueiro e de terra molhada. Voltei há poucos dias de Canudos e ainda carrego comigo o pó das estradas, o rosto queimado de sol e o coração cheio de imagens. Em cada pedra daquele chão há uma história soterrada; em cada olhar que encontrei, uma lembrança de Antônio Conselheiro, uma voz do sertão que fala das lutas e das esperanças que teimam em não morrer. Pensei muito em você durante a viagem. Lembrei-me das nossas conversas na velha sala da Loteria Estadual do Ceará, quando tivemos a ousadia de lançar juntos esse empreendimento, e dos planos traçados sobre a mesa, do entusiasmo quase juvenil com que você falava do futuro industrial do nosso Estado. Enquanto você sonhava com fábricas, eu sonhava com lutas sociais. Nossos caminhos pareciam opostos, mas eram apenas duas formas distintas de amar esta terra: você, edificando; eu, buscando reescrever passados e solicitar justiça
para os miseráveis à margem da história.
Há algo que sempre me fascinou na figura de Antônio Conselheiro — talvez por isso me detenha tanto em sua memória. Ele não foi apenas um pregador místico, como insistem os livros oficiais, mas um construtor de igrejas, um reformador de cemitérios, o arquiteto de uma cidade sonhada no meio do sertão. Tinha o dom de erguer com as mãos o que o Estado não ousava imaginar. Canudos foi sua obra e seu testamento: uma cidade nascida da fé e da teimosia, feita de barro, oração e trabalho coletivo. Vejo nele, em sua ousadia e paciência, o mesmo impulso criador que há em você
com sentidos e realizações opostos. Procure ler sobre ele, meu sempre caro e estimado amigo, Edson. Ele não é “o gnóstico bronco” da pena de Euclides da Cunha. Mando-lhe, junto desta missiva, algumas fotografias de minha expedição até a cidade fundada pelo beato e um exemplar de Os Sertões.
Não é segredo que sempre admirei seu espírito empreendedor, Edson — essa obstinação em transformar ideias em concreto, em aço, em progresso. “Fazer do sertão, mar”. Sei que muitos não o compreendem e que o chamam de visionário; mas é dos visionários que nascem as obras duradouras. Admiro, sobretudo, a sua temperança diante dos reveses. Já o vi, mais de uma vez, cercado de dificuldades e, ainda assim, sereno, sem perder a confiança nem a fé no que faz. Sua maneira de não desistir das empreitadas, de levantar-se com o mesmo ânimo após cada tropeço, revela uma alma forjada na paciência e na esperança. Há em você uma disciplina moral que falta a muitos de nós — e talvez seja isso que o torna capaz de transformar projetos em realidade.
Eu, por minha vez, continuo a conversar com os fantasmas de Canudos, com as pedras e com os sertanejos que ainda falam de Antônio Conselheiro como se ele fosse um vizinho que partiu ontem. Na verdade, suspeito que ele era meu parente, um Mendes Maciel. Talvez nossas divergências ideológicas, Edson — as suas convicções de modernidade e a minha insistência na justiça social nunca tenham passado de maneiras diferentes de olhar o mesmo horizonte: o do progresso. “Ou progredimos ou desaparecemos?”, já se perguntava o próprio Euclides da Cunha. O que importa é que sempre nós reconhecemos no respeito mútuo, e que a amizade resistiu ao tempo e às ideias. Aprendi com você que antes de iniciar qualquer empreendimento é preciso ler, conhecer e estudar tudo a respeito dele. Por isso tenho dedicado meus dias ao silêncio das leituras, ao cansativo trabalho forense e ao cuidado com os animais e as plantas.
E você, meu amigo, como vão seus projetos? Ouvi dizer que há planos para expandir as indústrias, para levar energia a mais vilas e povoados. Essa vontade de iluminar o mundo é o que mais admiro em você. O Ceará precisa de homens que sonhem com as usinas e com os livros, com o lucro e com a arte. Você é um entusiasta — tem ideias arrojadas. Um dia, não duvido, erguerá sobre Fortaleza uma universidade para disseminar saberes e instruir pessoas.
Escreva-me quando puder. Sinto saudades de nossas conversas serenas, do seu intuito de realizar. Quero saber de seus novos sonhos, dos empreendimentos, das viagens, dos filhos, da vida que segue. Talvez um dia ainda voltemos a sentar juntos, como nos primeiros tempos, com o mapa do Ceará sobre a mesa — você traçando linhas de energia e progresso, e eu, as rotas esquecidas de um sertão que ainda vive.
Com estima e saudade,
Pedro Wilson Maciel Mendes
Advogado, jornalista e sócio fundador da Loteria Estadual do Ceará.
Bruno Paulino