Carlos Eduardo Ferreira da Silva

Caro Edson Queiroz,

Te escrevo sabendo que cartas não atravessam a morte, mas o tempo, e talvez essa seja a única travessia que nos resta: falar com quem se foi para compreender o que o mundo se tornou. O senhor partiu em 1982, quando o Brasil ainda falava baixo, quando o futuro parecia um corredor estreito, quando o céu ainda não era cortado por satélites invisíveis e as notícias demoravam dias para chegar. Hoje o mundo fala alto demais, corre sem saber para onde, registra tudo e compreende pouco. Um mundo em que o silêncio, curiosamente, se tornou luxo. Se o senhor pudesse caminhar novamente por Fortaleza, talvez estranhasse o calor, que continua o mesmo, mas o das urgências. As pessoas caminham olhando para baixo, para pequenas telas onde o mundo inteiro cabe, mas quase nada permanece. O tempo encolheu, Edson. As decisões são instantâneas, as opiniões são rápidas, os afetos são frágeis. Tudo parece provisório, inclusive a esperança.

Ainda assim, há algo que resiste, e talvez o senhor reconhecesse: a insistência humana em construir, mesmo quando tudo parece ruir.

O senhor construiu quando empreender era risco real: apostar no escuro e arcar com a queda. Fundar empresas, investir em educação, acreditar em um Ceará ainda invisível exigia visão e fé. Hoje falamos muito de inovação, mas esquecemos que inovar é apostar no invisível. Vivemos formalmente livres, porém emocionalmente exaustos: ganhamos voz e velocidade, mas perdemos escuta e profundidade.

Desde sua ausência física, o mundo mudou de pele muitas vezes: redemocratizou- se, ampliou o acesso à educação e aproximou continentes, mas também atravessou crises, colapsos e uma pandemia que revelou o quanto controlamos pouco. Aprendemos a transformar perdas em números e o medo em boletins. O senhor, que acreditava no trabalho e no coletivo, talvez se perguntasse quando o individualismo virou regra e o cuidado, exceção.

Mas nem tudo é sombra. Há luz, ainda que difusa. A Universidade de Fortaleza, que carrega em si a marca de sua visão, se tornou um espaço onde o pensamento insiste em permanecer. Ali, jovens que não eram sequer projeto em 1982 agora tentam entender o mundo. A educação, que antes exigia presença física e livros pesados, hoje atravessa telas, rompe fronteiras, alcança quem antes ficava à margem. É imperfeita, desigual, cheia de falhas, mas continua sendo nossa maior aposta contra a barbárie.

Talvez o senhor se surpreendesse ao perceber que o conhecimento hoje disputa atenção com distrações infinitas, e que aprender se tornou, paradoxalmente, um ato de resistência. Ainda assim, há professores que insistem, alunos que persistem e instituições que sustentam o valor do pensamento crítico em um mundo cada vez mais inclinado às respostas simples.

O senhor partiu antes da internet, antes das redes sociais, antes de sabermos que a solidão poderia ser compartilhada em tempo real. Hoje, as pessoas exibem suas vidas como vitrines, mas se sentem vazias por dentro. Nunca se falou tanto de saúde mental, e raramente se esteve tão cansado de existir. A produtividade virou medida de valor, o fracasso virou vergonha pública. Talvez o senhor, com seu espírito empreendedor, compreendesse a importância do trabalho, mas também perceberia o quanto desaprendemos a descansar, a contemplar, a simplesmente estar.

O Brasil, país em que o senhor acreditou, continua contraditório. Avançamos e retrocedemos com a mesma intensidade. Elegemos, derrubamos, repetimos erros com impressionante fidelidade. A desigualdade ainda grita, a fome voltou a rondar mesas vazias, e a democracia, embora viva, anda frágil, como quem precisa ser lembrada todos os dias de que merece existir. Ainda assim, há algo profundamente brasileiro que resiste: a capacidade de se reinventar, de rir em meio ao caos e de criar beleza mesmo quando falta quase tudo.

Se o senhor estivesse aqui, talvez perguntasse, com a honestidade de quem construiu, se valeu a pena. Se as bases que ajudou a construir sustentam o presente. Eu arrisco dizer que sim, mas não sem luta. O mundo de hoje exige mais do que nunca líderes que pensem além do lucro, além do imediato, além de si mesmos. Exige visão aliada à ética, progresso temperado pelo cuidado e crescimento comprometido com a responsabilidade. Exige exatamente aquilo que, em essência, o senhor representou.

Sua ausência física deixou um vazio, mas seu legado deixou um caminho. E caminhos não garantem chegada, apenas possibilidade. Cabe a nós decidir se caminhamos ou se desistimos no meio. Te escrevo, portanto, não apenas para relatar mudanças, mas para confessar nossas próprias ambivalências. Somos mais informados e menos sábios. Somos mais conectados e menos próximos. Somos mais livres e mais perdidos.

Ainda assim, Edson Queiroz, seguimos. Construindo, errando, tentando. Talvez seja isso que o senhor reconheceria com um leve sorriso: apesar de tudo, não paramos. E enquanto houver quem acredite que educação transforma, que cultura sustenta, que o futuro pode ser imaginado antes de ser vivido, sua ausência nunca será completa. Receba esta carta não como resposta, mas como tentativa: escrever ao senhor é seguir perguntando ao futuro se ainda sabemos construir. Uma tentativa de dar sentido ao tempo, de nomear o que mudou e agradecer o que permanece. A esperança, embora frágil, ainda insiste.

Com respeito, inquietação e memória,

Carlos Eduardo Ferreira da Silva