Chirles Oliveira Santos

Prezado Senhor Edson Queiroz,

O senhor acreditava em futuro, quando o futuro ainda parecia improvável.

Acreditava em construir, quando o Nordeste era visto apenas como limite, nunca como potência. E talvez seja por isso que, mesmo sem tê-lo conhecido, sua presença se manifesta em minha vida por meio dos caminhos que pude percorrer.

O senhor partiu no mesmo ano em que eu cheguei. Enquanto sua voz se calava, a minha ainda não sabia chorar. Mas o mundo em que abri os olhos já carregava marcas do que o senhor havia sonhado antes de mim.

Nasci pobre, em uma família sem posses além da coragem. Sem estudos formais, mas com valores que ensinavam dignidade antes mesmo de exprimir a palavra. Em outros tempos, isso teria sido sentença. O destino seria estreito, repetido, herdado. Trabalhar até o corpo ceder, obedecer até a alma se curvar. Mas o Brasil que começou a se erguer após sua partida já não aceitava tão facilmente que o berço fosse prisão.

O senhor acreditava que desenvolvimento não era luxo, era base. Que trabalho não era exploração, era dignidade. Que educação não era privilégio, era caminho. Essas ideias não ficaram nos discursos, elas foram refletidas em ruas, empresas, empregos, universidades, oportunidades. Tornaram-se estruturas invisíveis que sustentaram vidas que o senhor jamais conheceu, como a minha.

Quando a Constituição de 1988 foi promulgada, eu ainda aprendia a andar. Ela não me ensinou a ler, mas me ensinou algo mais profundo, ensinou que eu tinha o direito de existir com dignidade. Ao afirmar a igualdade como princípio, ela não apagou diferenças, mas impediu que elas fossem usadas como condenação. Pela primeira vez, a lei dizia que nascer pobre não era culpa, nem destino.

Foi essa Constituição que abriu fendas onde antes erguiam-se apenas muros. Que declarou que infância não é força de trabalho, é tempo de cuidado. Que afirmou que a vida humana vale antes de qualquer interesse.

Depois disso, o Estatuto da Criança e do Adolescente chegou como um gesto raro de humanidade institucional. Disse, com todas as letras, que eu importava. Que eu tinha direito a proteção, educação, afeto e sonho. Parece simples, mas não é. Para quem nasce à margem, ser reconhecido já é revolução.

Graças a isso, pude estudar. Pude sonhar sem pedir licença.

Pude ocupar espaços que antes tinham dono, cor e sobrenome.

Quando entrei no ensino superior, em um campo historicamente elitizado e branco, não foi apenas uma vitória individual. Foi a prova de que o Brasil havia se movido, ainda que lentamente, na direção do seu povo. Cada sala que atravessei era território antes interditado. Cada livro aberto era um gesto de ruptura com o silêncio histórico imposto aos meus.

E nesse ponto, senhor Edson, sua história volta a cruzar a minha. Porque enquanto eu avançava, havia instituições, empregos,

meios de comunicação e espaços educacionais que existiam porque alguém, décadas antes, acreditou que o Ceará podia mais. Que o Nordeste podia mais. Que pessoas comuns, quando têm oportunidade, constroem destinos extraordinários.

O senhor apostou na educação como quem aposta na continuidade da vida. Apostou no trabalho como ferramenta de emancipação. Apostou na comunicação como ponte entre mundos. E sem jamais ter me conhecido, ajudou a sustentar o chão por onde caminhei.

E todo esse empenho não foi em vão. Ao longo dessas quatro décadas, vi o país aprender, ainda que aos tropeços, que igualdade não é favor. Vi os direitos das mulheres avançarem, vozes antes caladas se tornarem audíveis, violências serem nomeadas. Ainda não é suficiente. Ainda não é justo. Mas é inegável que houve mudança. E mudança, em um país marcado por exclusões, já é um feito histórico.

Infelizmente, o senhor não viu nossa belíssima Carta Magna florescer. Não teve oportunidade de presenciar tantas crianças pobres sonhando futuros improváveis. Mas cada direito garantido, cada porta aberta, cada vida que pôde escolher, dialogam com a visão de quem acreditava que construir é um ato coletivo.

Hoje compreendo que certos homens não partem por inteiro. Permanecem nas estruturas que sustentam vidas, nos caminhos que outros conseguem trilhar, nas possibilidades que deixam de ser exceção. O senhor não está apenas na memória de Fortaleza ou nos muros que levam seu nome, mas no movimento promissor de um país que, apesar de suas falhas, aprendeu a abrir espaços.

Se minha história pôde escapar do roteiro da submissão e alcançar dignidade, escolha e horizonte, é porque existiram mãos firmes que acreditaram que construir o Brasil era também construir pessoas. É nesse ponto entre o que o senhor fez e o que eu me tornei que sua presença ainda permanece, não apenas como saudade, mas como continuidade.

Agradeço ao tempo que, mesmo ferido pela tragédia, permitiu que eu nascesse em um Brasil um pouco mais justo do que o anterior. Se hoje escrevo, se hoje sonho, se hoje existo com dignidade, é porque alguém, antes de mim, acreditou que o futuro merecia ser construído e não apenas esperado.
Com respeito, emoção e gratidão,

Chirles Santos