Daniela Garcia Mesquita
Carta de Iracema a Edson Queiroz
Edson,
Escrevo-lhe de um tempo antigo, daqueles que não passam.
Do tempo em que a terra ainda falava baixo. Sou Iracema.
A que ficou, quando tudo ainda era começo. Vi muitos chegarem depois de mim.
Poucos entenderam a terra antes de tentar mudá-la.
Você veio mais tarde. E ainda assim, soube escutar.
Desde a sua partida, o mundo correu depressa.
As palavras ficaram mais rápidas, as máquinas aprenderam a pensar, e os homens, às vezes, esqueceram de olhar ao redor.
Mas aqui, nesta terra quente, algumas coisas permanecem reconhecíveis. Ainda é preciso coragem para ficar. Você entendeu isso cedo.
Quando muitos partiam, você decidiu construir. Quando o chão parecia pouco, você viu futuro.
Criou caminhos invisíveis: o gás que chega às cozinhas, a água que mata a sede, a palavra que informa, a escola que ensina a pensar.
Hoje, o que você começou já não carrega apenas o seu nome. Carrega vozes. Carrega filhos. Carrega gerações.
A Universidade que você sonhou segue cheia de perguntas. E isso é bom. Lugar sem perguntas não é casa.
O mundo mudou, Edson. Mas continua precisando do mesmo que você cultivou: visão, trabalho e compromisso.
Ainda é raro quem constrói sem esquecer de cuidar. Eu continuo aqui. Terra, vento e memória.
Você seguiu. Mas deixou raízes. E raízes, você sabe, não aparecem, sustentam. Iracema
Daniela Mesquita