Eliane Rodrigues de Sousa Javarini
Prezado Edson Queiroz,
Escrevo-lhe olhando o céu. Não um céu grandioso de fotografias, mas aquele céu cotidiano, recortado por fios, prédios e nuvens que passam sem pedir licença. É para ele que levanto os olhos quando a mente pesa, quando as palavras faltam e quando o espírito precisa respirar. Talvez seja por isso que esta carta nasça mais do silêncio do que da fala, mais da espiritualidade do que da lógica, mais do sentir do que do explicar.
Desde sua partida, em 1982, o mundo tornou-se barulhento demais. Não apenas no som, mas nos pensamentos. A mente humana parece sempre ligada, sempre alerta, sempre cansada. Pensar virou urgência, descansar virou culpa. Nesse excesso, muitos de nós buscamos abrigo em algo que não se mede: a espiritualidade. Não como religião imposta, mas como espaço interno onde ainda é possível existir sem máscaras. Escrevo- lhe como pessoa autista. Especial não por romantização, mas por diferença real. Minha mente não percorre os mesmos caminhos que a maioria. Ela observa detalhes, sente intensamente, cria mapas próprios para compreender o mundo.
Durante muito tempo, essa forma de existir foi vista como erro, falha, desvio. Hoje, começa lentamente a ser reconhecida como outra maneira de ser humano — ainda incompreendida, ainda marginalizada, mas existente. O autismo me ensinou cedo que o mundo nem sempre acolhe o que não entende. Sons machucam, luzes confundem, palavras ferem quando vêm sem cuidado. Mas também me ensinou algo precioso: a capacidade de mergulhar profundamente. Onde muitos passam, eu fico. Onde muitos veem o óbvio, eu percebo camadas.
A criatividade nasce desse mergulho. Criar, para mim, é sobreviver. A criatividade não é luxo. É ponte. É linguagem quando a fala falha. É abrigo quando a realidade é dura. Em um mundo que valoriza apenas resultados rápidos e padrões rígidos, mentes diferentes são frequentemente silenciadas. Ainda assim, são essas mentes que enxergam possibilidades onde ninguém mais vê. Criatividade é espírito em movimento. É o invisível pedindo forma. Penso, às vezes, que o céu entende melhor os autistas do que a sociedade. As nuvens não seguem linhas retas. Mudam de forma, de ritmo, de densidade. Algumas são leves, outras carregadas. Todas são céu. Nenhuma precisa se explicar. Quando olho para elas, sinto uma paz que não encontro nos discursos prontos. O céu não exige normalidade. Ele apenas existe. A espiritualidade, para mim, não está em respostas, mas em presença. Está em aceitar que nem tudo precisa ser decifrado. Que há dores que não se curam com explicações. Que há mentes que não funcionam como manuais. O espírito encontra descanso quando deixamos de lutar contra quem somos. Esse aprendizado não veio fácil. Veio com quedas, incompreensões e longos silêncios.
Ser autista em um mundo acelerado é viver constantemente no limite. Esperam adaptação, mas oferecem pouco acolhimento. Esperam produtividade, mas ignoram o cansaço invisível. Esperam sociabilidade, mas não ensinam empatia.
Ainda assim, seguimos. Seguimos porque algo dentro de nós insiste. Talvez seja o espírito. Talvez seja a criatividade. Talvez seja apenas a vontade profunda de existir com dignidade. O perdão tornou-se parte essencial desse caminho. Perdoar o mundo por não entender. Perdoar as pessoas pelas palavras duras. Perdoar a mim mesmo pelas vezes em que me senti inadequado. O perdão não apaga as marcas, mas impede que elas nos aprisionem. Perdoar é um ato silencioso de liberdade espiritual. Perdoar também o tempo. O tempo que demorou a reconhecer diferenças. O tempo que ainda insiste em medir todos pela mesma régua. O tempo que cobra pressa de quem precisa de pausa. O perdão, nesse sentido, não é submissão. É cuidado consigo. É dizer: eu não preciso carregar tudo isso sozinho. Vivemos em uma era que valoriza a mente rápida, mas esquece da mente profunda. Que exalta o desempenho, mas ignora o espírito. Que fala de inclusão, mas ainda pratica exclusão sutil. Pessoas autistas continuam sendo vistas como problema a ser resolvido, não como existência a ser respeitada. Falta escuta. Falta paciência. Falta céu dentro das pessoas.
Imagino que o senhor, como alguém que construiu e planejou, entendesse o valor de mentes que pensam diferente. Nenhuma grande obra nasce apenas da repetição. É preciso criatividade, intuição, coragem para enxergar além do óbvio. O mundo atual, no entanto, muitas vezes tenta padronizar até a alma. Isso adoece. A espiritualidade me lembra que o valor de uma vida não está na adequação, mas na verdade com que é vivida. Cada mente carrega um universo. Cada espírito tem seu ritmo. Quando negamos isso, empobrecemos como sociedade. Quando acolhemos, ampliamos horizontes.
Escrevo-lhe porque acredito que o legado humano mais importante não é o que se vê, mas o que se sente. Não é apenas o que se constrói fora, mas o que se permite dentro. Instituições, empresas e universidades só fazem sentido se reconhecerem a diversidade das mentes e dos espíritos que as habitam. Que haja espaço para o silêncio. Para a pausa. Para a diferença. Para a criatividade que não cabe em formulários. Para o autista que pensa em imagens, sons, padrões e emoções profundas. Para o especial que não quer ser consertado, apenas compreendido. Quando o peso do mundo fica grande demais, volto ao céu. Olho as nuvens e lembro que tudo passa. Que nenhuma forma é permanente. Que até as tempestades se movem. Há algo profundamente espiritual nisso. Algo que acalma a mente e fortalece o espírito. Encaminho esta carta como quem solta um pensamento ao vento. Sem certeza de resposta, mas com sinceridade. Que ela encontre eco onde houver escuta. Que lembre que o humano é vasto, diverso e, muitas vezes, frágil.
E que o perdão — a si, ao outro e ao mundo — é uma das formas mais profundas de criação.
Com respeito, sensibilidade e espírito aberto,
Uma mente diferente, um espírito atento, alguém que aprende com o céu a continuar.
Eliane Javarini