Felipe Pyhus Julius
Antes de tudo, houve nós
Edson,
Tu não vais lembrar de mim. Nasci de manhã e morri antes do escuro, como toda flor de bogari. Mas naquelas poucas horas, te vi. Todo dia, às onze, tu freavas o carro diante da casa de Yolanda, arrancavas um punhado de nós do canteiro vizinho e atiravas sobre a calçada. Não perguntavas se queríamos. Não olhavas para ver se doía. Tuas mãos nos torciam do galho e nos jogavam no cimento fervendo. As pétalas batiam no chão e começavam a queimar. Depois buzinavas. Ela descia, recolhia o que sobrava de nós, e vocês trocavam acenos. Quando subia, eu já estava murchando na palma da mão dela. Fizeste isso durante meses. Não fui sempre a mesma flor – nenhuma de nós dura mais que um dia. Mas todas sentiram a mesma coisa: o estalo do galho, o voo curto, o cimento que nos crestava as costas. Todas viram o mesmo rapaz magro de riso largo demais para o rosto. Chegavas pontual como quem cumpre sentença, mas aquilo não era dever. Era voracidade. O sol nos tostava rápido, e Yolanda precisava descer depressa para nos apanhar ainda inteiras. Às vezes não conseguia. Às vezes encontrava só pétalas pardas grudadas no asfalto, e ainda assim recolhia, guardava, sorria para ti. Nós já estávamos mortas. Ela sorria mesmo assim.
Eu não sei o que veio depois. Flor não sabe. Flor nasce, abre, perfuma, murcha, acaba. O que sei é o que senti: a mão que nos arrancava sem pena, o ar quente no voo até o chão, o cimento que nos assava por baixo e o sol por cima. E entre uma morte e outra, espremida, eu via: o vestido de Yolanda balançando na escada, os dedos dela nos catando do chão, o teu rosto atrás do para-brisa com os olhos pregados nela.
Uma vez Yolanda não desceu. Tu esperaste. Buzinaste de novo. Nada. As flores foram escurecendo, enrolando as bordas, apodrecendo. Eu achei que tu irias embora. Qualquer outro iria. Mas tu desceste do carro, ajoelhaste no chão, juntaste as pétalas queimadas com as próprias mãos. Algumas já estavam grudadas no asfalto. Tu as raspaste com as unhas. Guardaste tudo no bolso da camisa, contra o peito. Depois ficaste olhando a janela dela, imóvel. Quando Yolanda finalmente apareceu, tu tiraste do bolso aquele punhado podre e entregaste assim mesmo. Não pediste desculpa. Só estendeste a mão com o que sobrou de nós e esperaste que ela aceitasse.
Foi ali que entendi. Tu não nos arrancavas por maldade. Nos arrancavas porque não tinhas outra coisa. Eras um rapaz de vinte anos sem nada para oferecer além de flores roubadas de um canteiro alheio. Não tinhas palavras. Não tinhas presentes. Só tinhas a teimosia de aparecer todo dia às onze, arrancar, jogar, buzinar, esperar. Nós éramos a única moeda que tu tinhas. E tu nos gastavas sem pena.
Desde que morreste, o amor mudou. Não sei bem como – flor não dura o bastante para ver. Mas as que nascem agora contam coisas estranhas. Dizem que hoje ninguém mais joga flores na calçada. Que o cortejo virou coração apertado com o dedo numa tela fria, gesto que não suja a mão. Dizem que as pessoas se encontram sem se ver, se desejam sem se tocar, se largam sem se despedir. Eu durava um dia. Mas tu ficaste meses. Hoje, contam as flores novas, um mês já é demais. A moça não desce mais a escada. O rapaz não espera mais.
Eu durei um dia. Tu duraste cinquenta e sete anos. As flores que nasceram depois contam que morreste num avião, voltando para ela. Que caíste numa serra perto daqui, perto do canteiro onde nasci. Para mim, cinquenta e sete anos parece eternidade. Mas pelos teus olhos naquela manhã – olhos de quem se ajoelha no asfalto para juntar o que sobrou – sei que para ti não foi tempo nenhum. Tu querias mais. Sempre mais. Era isso que nos matava e era isso que te movia.
O que fizeste depois, não vi. Flor não dura. Mas quem se ajoelha no asfalto quente para juntar o que sobrou não é gente que desiste. Isso eu vi. E se o que veio depois foi grande – dizem que foi – veio dali. Daquele joelho no chão. Daquela mão suja de pétala.
Antes de tudo isso, houve o canteiro. Antes do gás, houve o perfume. Antes de tudo, houve um punhado de flores brancas numa calçada quente, uma moça que descia para apanhá-las, um homem que buzinava e ia embora certo de que voltaria.
Tu me arrancaste do galho sem perguntar. Me jogaste no cimento fervendo. Me deixaste morrer para que ela me achasse. Durante horas eu te odiei. Depois vi Yolanda descer correndo, me recolher do chão como se eu fosse preciosa, te olhar com um sorriso que nunca vou esquecer. E entendi: eu não morri por nada. Morri para ser parte daquilo.
É o máximo que uma flor pode querer. De quem durou um dia e viu o bastante.
Felipe Pyhus Julius