Francisca Luciana Albuquerque Benevides

Caro Doutor Edson,

Espero que esta missiva lhe encontre bem, nas paragens elevadas da montanha dos imortais. Dirijo-me desta forma ao senhor evocando a memória de meu pai — homem honrado que, em minha infância, vi referir-se tantas vezes à sua figura com um misto de intimidade e reverência. Parecia partilhar das mesmas retinas visionárias, o que lhe conferia, no íntimo, confortável afinidade, sem, no entanto, negar-lhe a deferência expressa no preâmbulo titular. Esta é também uma carta quase escrita por ele, que, por anos, nutriu o desejo de lhe endereçar algumas palavras. Em cúmplices desabafos sonhadores, eu o vi ensaiar os vocábulos que pretendia lhe dirigir, expressando admiração e ousando lhe pedir alguns conselhos.

Eu era só uma menina, mas já entendia que aquele “Doutor Edson” era gente grande e especial. Meu pai era um motorista precariamente alfabetizado, lutando para alimentar cinco crianças e poupando até palitos de fósforo para manter em dia as prestações da COHAB. O assombro da desnutrição infantil e da falta de teto era chicote severo para a sobrevivência diária.

Contudo, assim como o senhor, ele tinha olhos de ver. E sonhava com um futuro melhor. Preso ao papel de provedor, dava vazão ao gênio contido, enxergando soluções para o cotidiano. Era um homem do povo, que queria que a engenhosidade fosse destinada ao povo. Lembro-me bem de sua felicidade quando, em nosso conjunto

habitacional, aportou a distribuição regular de gás de cozinha. O caminhão que dobrava a esquina, trazendo o som inconfundível da sineta, varreu de vez as sacas de carvão e o fogareiro velho e sujo que mantínhamos em casa. Doutor Edson, o senhor e meu pai hoje ficariam deslumbrados com a praticidade de recebermos o botijão por meio de um motoqueiro, apenas dez minutos depois de enviar uma simples mensagem por um telefone móvel. Somos todos muito gratos ao seu caminhão da Gás Butano, mas acredite: ficou tudo muito mais prático! Ainda mais para mim, que moro sozinha e encontro no entregador o amigo indispensável que faz a troca do botijão.

Mesmo quando o fogareiro se foi, restaram-nos ainda o pote e o filtro de barro. Sofríamos com paralisações no abastecimento de água, sobretudo na estiagem. Até um tanque no quintal meus pais construíram, para armazenar provisão líquida. O que resolvia a demanda por banhos e higiene do lar, mas não afastava o temor de infecções, como as causadas pelo temido vibrião colérico. Eu enxergava nos olhos de minha mãe o pavor quando alguma criança da vizinhança morria precocemente, vítima de severas infecções intestinais. Era sobre o filtro de barro, semanalmente bem lavado e batizado com apelos à Nossa Senhora, que ela depositava suas esperanças de que o agente invisível não chegasse a ceifar um de seus meninos.

Não era só a água contaminada que ela temia. Era também a ausência de médicos e hospitais. Sem dinheiro para consultas particulares, firmava-se na rezadeira e na oração. Mas, sobre isso, também tenho boas notícias, Doutor Edson! Tanto na casa de minha mãe quanto na minha, temos água de beber envasada e de boa qualidade. Garrafões que compramos em qualquer mercadinho e

que, mesmo com tantas marcas ofertadas, seguimos preferindo a Indaiá. Pois os olhos de minha mãe seguem brilhando e confiando desde que viu o primeiro slogan: “Sua fonte de saúde”. Era isso que ela sempre sonhara para nosso lar!

Ah! E sobre a rede de saúde, os netos dos meus pais todos já nasceram com assistência, pertinho de casa. O SUS foi regulamentado, tornando-se realidade em todo o Brasil. E, não obstante as deficiências que ainda caracterizam o serviço público, para quem cresceu em uma cidade sem assistência médica, é uma dádiva ter um posto de saúde no final da rua.

Enquanto a rede de saúde expandiu, algo que lhe é muito precioso encolheu: o aparelho de TV. Lembra daqueles televisores com tubo de imagem, pesados e volumosos? Deram lugar a delgados equipamentos que transmitem programação de diversas emissoras, com tamanha qualidade que deixaria até mesmo um perfeccionista como o senhor sem palavras. Ou não… Quem sabe sua mente futurista já antevisse essa tecnologia desde quando nos presenteou com a primeira transmissão a cores para o Nordeste, lá na década de 70. A propósito, não posso deixar de lhe parabenizar, pois sua TV Verdes Mares, em 2025, foi homenageada, celebrando 55 anos de contribuição cultural. O senhor ficaria orgulhoso!

E, por falar em cultura, Doutor Edson, como deixar de lhe agradecer pela formação da minha afilhada, que está concluindo uma graduação de qualidade na UNIFOR. E tudo isso graças a uma bolsa de desconto e financiamento estudantil. Sim, uma menina periférica graduando-se em uma das melhores universidades particulares do país!

O governo hoje concede bolsas de estudo que facilitam o ingresso de estudantes de diferentes realidades no ensino superior. O que, diga-se de passagem, era um dos pedidos que meu pai intencionou lhe fazer nas cartas jamais escritas: uma bolsa de estudos para mim. A filha que ele sempre exaltava como a mais curiosa e amante dos livros. E hoje aqui estou. Estudando Letras aos 45 anos de idade: quase uma metáfora para os 45 minutos do segundo tempo. Mas, por dentro, a mesma menina curiosa e amante dos livros. Amante, sobretudo, de boas histórias. De contá-las, de ouvi-las.

É a história que nos mantém vivos, Doutor Edson. E talvez, por isso, o senhor siga sempre tão presente em nossos corações cearenses. Não foi um adeus. Foi apenas uma viagem, para voos mais altos.

E, do alto dessa montanha, o senhor, quem sabe, possa finalmente trocar um dedo de prosa com meu pai. Se assim for, mande-lhe meu abraço filial e diga-lhe que sinto saudades. Saudades de homens inspiradores, honrados e leais, como vocês. Pois o mundo, embora avançando em tantos aspectos tecnológicos e estruturais, tem padecido muito com a violência, sobretudo contra as mulheres. Temos carecido da nobreza que tanto lhe caracterizou.
Inspire-os, Doutor Edson, a serem também justos e honestos como o senhor. E para que a humanidade e o respeito sejam as maiores revoluções deste século XXI.

Com carinho,

Francisca Luciana Benevides