Gardel Dias da Assunção
Prezado Chanceler Edson Queiroz,
Minhas palavras partem hoje como mensageiras do tempo, buscando o senhor além do alcance do olhar. Desde que 1982, no silêncio da sua ausência, o mundo transmutou-se em velocidades impensáveis. Mas, curiosamente, quanto mais avançamos, mais nos deparamos com as pegadas da sua visão, provando que o tempo passa, mas as grandes almas permanecem em diálogo com o agora. O Brasil que o senhor conheceu, inquieto e cheio de promessas, atravessou mares revoltos. A democracia renasceu, a Constituição de 1988 redesenhou direitos, e a economia, tantas vezes frágil, encontrou estabilidade após tempestades de hiperinflação. Mas não foi só o país que mudou: o planeta inteiro reinventou-se. A queda do Muro de Berlim, em 1989, abriu fronteiras invisíveis; a globalização aproximou culturas e, ao mesmo tempo, acentuou desigualdades. Hoje, vivemos conectados por fios invisíveis — a internet — que transformaram a comunicação em algo instantâneo. Cartas como esta tornaram-se raras, substituídas por mensagens que cruzam continentes em segundos, também é o tempo que duram.
A tecnologia, Chanceler, tornou-se o coração da vida moderna; carregamos no bolso aparelhos que são bibliotecas, mapas, jornais, cinemas e, por vezes, confessionários. A inteligência artificial, que parecia ficção científica, hoje auxilia médicos, educadores e empresários; ajuda tudo. O trabalho migrou para telas; a educação, sua grande paixão, transpôs muros e chegou a qualquer lugar do mundo, mas perece de certos cuidados. E aqui, no Ceará, a Universidade de Fortaleza — fruto da sua crença no saber — floresceu como um jardim de ideias. Tornou-se referência nacional, formando gerações que carregam consigo a marca da excelência e da liberdade de pensar. O Grupo Edson Queiroz, que nasceu do seu espírito empreendedor, não apenas resistiu: expandiu-se, consolidando-se como símbolo de inovação e solidez. Sua visão, Chanceler, era mais que empresarial; era humana. E isso permanece. A Fundação que leva seu nome segue promovendo cultura, arte e conhecimento, como se cada projeto fosse um diálogo silencioso com o senhor.
Mas nem tudo foi luz. O mundo enfrentou sombras: guerras, crises econômicas, mudanças climáticas e, recentemente, uma pandemia que paralisou o planeta. A COVID- 19 nos ensinou que somos frágeis, mas também capazes de feitos grandiosos. Em meses, a ciência desenvolveu vacinas, mostrando que a inteligência coletiva é nossa maior força; mesma assim, passando -se mais de dois anos da calamidade, parece-me que a humanidade ainda se distancia, para alguns.
Hoje, falamos de sustentabilidade, diversidade, inclusão. Palavras que talvez não fossem tão comuns em seu tempo, mas que traduzem um desejo antigo: construir um futuro melhor. E, apesar de tantas transformações, alguns valores permanecem intactos — coragem, ética, esperança. Esses mesmos valores que guiaram sua trajetória e que continuam sendo faróis para quem ousa sonhar.
Chanceler, sua ausência física não apagou sua presença simbólica. Ela vive nos corredores da UNIFOR, nas páginas da história empresarial, nos projetos que mudam vidas. Se pudesse ver tudo isso, acredito que sorriria, certo de que seu legado não foi apenas preservado, mas multiplicado.
Receba, onde quer que esteja, nossa eterna gratidão. O senhor não é apenas memória: é inspiração.
Com admiração e saudade.
Gardel Assunção