Grecianny Carvalho Cordeiro
Caro Dr. Edson Queiroz,
Já em minha idade provecta, pediram-me que ocupasse o tempo ocioso com minhas melhores lembranças. São muitas e, curiosamente, a primeira delas que veio à minha mente envolve o senhor. Sei que há muito não está mais entre nós, mas, por algum motivo, resolvi contar um episódio que uniu nossos destinos e que ficou somente em minha memória. Creio que seus familiares não sabem disso, apenas os meus. Sei também que não consta nada disso em sua biografia publicada por escritor renomado, talvez por ter sido um fato irrelevante que o senhor assim tenha considerado. Não sei. Tudo o que sei é que, ao longo de nossa vida, há coisas que podem parecer irrelevantes para um, contudo, inesquecíveis para o outro.
Era a década de 1970. Eu era um jovem que sonhava em vencer na vida, após chegar a Fortaleza, para estudar e ganhar dinheiro. Eu sempre disse que um dia seria bastante conhecido e que o governador do Estado ainda me chamaria pelo nome. Enquanto esse tempo não chegava, trabalhei como revisor em um jornal durante a noite, avançando pela madrugada. Durante o dia, trabalhava como taxista em um carro que comprei financiado com a ajuda de um amigo. Recém casado e com filho pequeno, tinha que ganhar a vida.
Certo dia, quando passava pela Av. Antônio Sales, nas proximidades da Av. Barão de Studart, o carro da frente freou bruscamente. Desatento e ainda cansado após o trabalho noturno no jornal, não freei a tempo, e meu fusquinha praticamente entrou na traseira de um veículo. A dor foi grande, pois senti que meu pé havia fraturado. Mais que isso, quase perdi meu pé direito nesse acidente e, desde então, ando meio caxingando, o que piorou com o avançar dos anos.
Do veículo desceram dois homens. Com certeza, um deles era o motorista; o outro, era o senhor, Dr. Edson Queiroz! Claro que o reconheci, pois era um empresário bem-sucedido, quase uma lenda para o Ceará. Confesso que o senhor me pareceu muito mais novo do que nas fotos. Além disso, iniciante na vida de jornalista, sempre gostei de acompanhar o meio político, que tinha estreita ligação com o empresariado.
O senhor e seu motorista me ajudaram prontamente, chamaram uma ambulância e fui levado ao hospital, com muita dor. Meu calcanhar direito foi esmagado, houve grande perda óssea, algumas cirurgias foram feitas e consegui me recuperar. Hoje, na velhice, esse pé não me deixa esquecê-lo; talvez por isso também não consiga esquecer do senhor, Dr. Edson.
Apesar disso, tenho do senhor boas recordações. O senhor pagou todo o prejuízo do meu carro e todas as despesas médico- hospitalares. Aliás, tive o melhor atendimento médico e sei que foi graças à sua influência. Devido a esse acidente, sei que ganhei um amigo. Na época, Fortaleza era uma cidade ainda pequena, uma casa de muro baixo, eu diria. Por vezes, encontrei o senhor ao fazer coberturas políticas, pois passei a atuar como jornalista político, uma profissão que me proporcionou cumprir minha promessa, um dia feita a mim, de que seria conhecido pelo nome por parte do governador do Estado. Mais que isso, sentei à mesa com deputados, senadores, prefeitos e empresários, como o senhor.
Algumas vezes estive em seu escritório. Eu era assim mesmo. Fácil de fazer amizade e, modéstia à parte, era benquisto e tinha trânsito livre em vários meios. Com a idade, foi que me tornei ranzinza e intolerante, um chato, mas isso é outra história. Bem, voltando ao assunto, o senhor sempre me recebeu bem, chegou até a me dar alguns conselhos que me serviram para ampliar meu serviço de táxi, o que consegui graças à ajuda de um amigo que trabalhava em um banco e conseguiu alguns financiamentos para mim. Logo, eu tinha uma frota de táxis.
Outra vez em que o encontrei, por ocasião de um evento social, conversamos um pouco e perguntei se o senhor poderia me conceder uma bolsa para estudar na Unifor, pois queria cursar Direito. O senhor pediu que o procurasse na segunda-feira seguinte. E assim foi: eu esperava um desconto e ganhei uma bolsa integral.
Dr. Edson, o mundo sabe ser cruel e andamos em círculos, embora demoremos a perceber isso. Anos depois, quando houve o acidente, fiz a cobertura jornalística e ainda guardo comigo algumas fotos: destroços do avião, corpos sendo carregados, um sentimento de torpor que ainda hoje toma conta de mim e de muitos. Estou com pouco mais de 80 anos e percebo o quão jovem nos deixou, no auge de sua carreira empresarial, com esposa e filhos.
Seu legado para Fortaleza e o Ceará persiste, mesmo tendo partido tão cedo. Essa história que agora escrevo tem o intuito de registrar as marcas de sua passagem em minha vida e, de algum modo, demonstrar minha gratidão. O acidente e a amizade que surgiu a partir dele podem não interessar a ninguém além de mim. Mas a vida também é feita dos momentos que nos parecem de pouca importância e que mudam o outro sem que percebamos.
Pretendo viver até uns 120 anos, mas, se tiver a honra de encontrá-lo na eternidade, direi ao senhor o quanto sua passagem foi marcante e decisiva em minha vida.
Um grande abraço,
Grecianny Cordeiro
PS: Foi minha nora quem escreveu esta carta, eu apenas ditei e ela a enfeitou. Mas é tudo verdade. Posso assegurar.