Isli Keyla Barros de Oliveira

De uma voz do tempo

Querido Sr. Edson,

Escrevo-lhe de um tempo que o senhor não conheceu, mas que, de muitos modos, ainda caminha sobre os alicerces que ajudou a alcançar. Sua ausência física já atravessou décadas de mudanças vertiginosas. O mundo acelerou. As máquinas agora pensam, as telas nos vigiam, a distopia descrita por George Orwell parece cada vez menos ficcional, a informação corre mais rápido do que a reflexão. Contudo, o essencial, aquilo que pesa sobre a vida concreta, continua exigindo a mesma coragem invisível que sustenta a esperança teimosa de quem insiste em seguir. E é nesse cenário, que o senhor sonhou como lugar de pensamento e não apenas de passagem, que me ocorre escrever-lhe.

Quero lhe falar de um mundo que mudou demais e, ao mesmo tempo, mudou tão pouco. As pessoas carregam bibliotecas inteiras nos bolsos, mas raramente se permitem pensar. As telas substituíram as janelas, a caverna que Platão descreveu se multiplicou e agora tem o que chamamos de “wi-fi”, as correntes são aceitas com entusiasmo. O mundo aprendeu a se conectar, mas desaprendeu a se escutar.

Hoje, Chanceler, subimos outros degraus. Não apenas os do progresso industrial ou do crescimento empresarial, mas os da desigualdade persistente, do trabalho precarizado, da educação que ainda luta para não ser privilégio. O ônibus segue cheio: corpos apertados, silêncios gritantes. Mudaram os aparelhos nas mãos, mas não a lógica que define quem senta e quem permanece em pé. O desconforto ainda escolhe seus alvos. A indiferença continua sendo um hábito socialmente aceito.

O senhor acreditava no poder da construção. Não apenas de fábricas, marcas ou prédios, mas de ideias. Fundou empresas, mas também fundou possibilidades. A Universidade de Fortaleza segue de pé como um desses degraus que exigem força, não física, mas aquela força invisível que sustenta quem insiste em subir mesmo cansado. Ainda assim, Chanceler, há estudantes que atravessam esses corredores com fome no estômago e sonhos no bolso furado. Há quem estude de dia e venda o próprio tempo à noite para não abandonar o futuro. Eles têm a coragem.

As cidades cresceram, os prédios subiram, os discursos se modernizaram. E os livros, Chanceler? Muitos ainda querem escrevê- los. Livros para pensar, impactar, questionar. Mas o medo cresceu. Medo do julgamento, do cancelamento, do silêncio. Dizem que é melhor agradar, melhor repetir, melhor calar. Resistir tornou-se inconveniente e o espetáculo da desigualdade ganhou novas luzes, mas mantém o mesmo enredo. O sonho do oprimido, infelizmente, ainda é sentar-se no lugar do opressor.

Talvez o senhor reconhecesse esse dilema. Afinal, o senhor também desafiou o óbvio, lutou e enfrentou o riso cético, o “não vai dar certo”, o desconforto da repetição. Hoje, escrever um livro que incomode parece tão arriscado quanto fundar algo novo em um país que prefere o improviso ao planejamento, o espetáculo à reflexão.

Há quem desista antes de começar. Há quem enterre ideias junto com os próprios sonhos, dedicando-os ao esquecimento, como se jamais tivessem existido. E, no entanto, é isso que mais dói: não o fracasso, mas o silêncio autoimposto. A vida vivida no anonimato por medo de pensar alto demais.

Por isso, seu legado ainda ecoa, porque o senhor não se escondeu. Porque acreditou que educação, cultura e iniciativa podiam caminhar juntas. Por isso, em um mundo que tenta calar o que resiste, sua história lembra que construir também é um ato político, ético e humano.

Se hoje escrevo, é porque seus corredores ainda existem. Porque seus degraus ainda sustentam passos. Porque seus sonhos não aceitaram virar pó. Talvez o senhor se perguntasse se falhamos. Não creio. Prefiro pensar que estamos em travessia. Acredito na ideia de que desenvolvimento sem compromisso humano é crescimento vazio, acredito na noção de que educação é mais do que instrução: é possibilidade de escolha. Acredito em um mundo que se tornou mais rápido e, paradoxalmente, mais cego, para mim, essa lição permanece urgente.

Ao final do dia, Chanceler, seguimos descendo e subindo degraus. Alguns ainda acreditam que “não é problema meu”. Outros insistem em olhar ao redor, mesmo quando o cansaço pesa. É a esses que sua memória continua falando. Porque, apesar de tudo, ainda há quem creia que o progresso só faz sentido quando ninguém precisa viajar a vida inteira em pé.

Algumas ideias não explodem de imediato: vazam devagar, como gás invisível, até tomarem todo o ambiente. O problema nunca foi a falta de gás, mas quando ele se esgota antes da chama virar propósito. Continuamos vivendo cercados por discursos inflamáveis, em que basta um fósforo errado para que o gás social se transforme em incêndio, enquanto muitos seguem no piloto automático. Ainda assim, é preciso avançar, porque a esperança e a inquietação que impedem que a vida se apague antes de cumprir sua função maior: iluminar, provocar movimento e trazer mudança.

Com respeito e inquietação,

Isli Keyla de Oliveira