Jean Javarini

Prezado Edson Queiroz,

Escrevo-lhe de um tempo que o senhor não chegou a conhecer com os olhos, mas que continua profundamente marcado por suas ideias, suas decisões e seu espírito inquieto. Desde 1982, ano em que sua presença física nos foi abruptamente retirada, o mundo acelerou de uma forma que talvez nem os mais ousados visionários imaginas sem. Ainda assim, ao observar o caminho percorrido, é impossível não reconhecer em muitos dos rumos atuais a semente de princípios que o senhor já cultivava: trabalho, coragem, inovação e compromisso com as pessoas. Vivemos hoje em um planeta conectado por fios invisíveis.

As cartas, como esta que escrevo, tornaram-se raras, quase um gesto de resistência. As mensagens viajam em segundos, atravessam oceanos sem papel, sem tinta, sem espera. A tecnologia transformou profundamente a maneira como nos comunica mos, trabalhamos, aprendemos e nos relacionamos. Temos acesso instantâneo à informação, mas, paradoxalmente, lutamos para encontrar sentido, silêncio e profundidade.

Nesse cenário, escrever-lhe uma carta é também um convite à pausa, à reflexão e à memória. O Brasil que o senhor conheceu ainda buscava consolidar sua democracia, enfrentava desafios econômicos severos e carregava desigualdades históricas profundas. Hoje, continuamos enfrentando muitos desses dilemas, embora sob novas formas. Houve avanços importantes na ciência,

na educação e na ampliação de direitos, mas também surgiram novas crises: ambientais, sociais, emocionais. O mundo ficou menor, mas os conflitos parecem maiores. Nunca fomos tão próximos e, ao mesmo tempo, tão distantes uns dos outros.

A educação, campo ao qual o senhor dedicou parte essencial de seu legado, ganhou novos contornos. As salas de aula ultrapassaram paredes físicas. Universidades dialogam com o mundo inteiro em tempo real. O conhecimento deixou de estar restrito a bibliotecas silenciosas e passou a circular em telas luminosas, acessíveis a qualquer hora. No entanto, continua sendo um desafio transformar informação em sabedoria e tecnologia em humanidade. Nesse ponto, a Universidade de Fortaleza permanece como um símbolo vivo de sua visão: formar não apenas profissionais, mas cidadãos conscientes, críticos e comprometidos com a transformação social.

O mundo do trabalho também mudou profundamente. Profissões surgiram e desapareceram em poucas décadas. Máquinas aprenderam a executar tarefas antes consideradas exclusivamente humanas. A inteligência artificial, tema recorrente de debates atuais, redefine limites éticos e práticos. Ainda assim, valores como responsabilidade, liderança e compromisso continuam insubstituíveis. Empresas que prosperam são aquelas que compreendem que o lucro não pode estar dissociado do impacto social. Essa compreensão, que hoje é pauta global, já estava presente em sua atuação empresarial muito antes de se tornar tendência. No cotidiano das pessoas, as mudanças são sentidas de forma intensa. As famílias se reorganizaram, os papéis sociais se transformaram, e as relações afetivas enfrentam novos desafios. Vivemos mais tempo, mas muitas vezes com menos presença. A pressa tornou-se companheira constante. Em meio a tudo isso, cresce a necessidade de projetos que devolvam sentido à vida coletiva, que promovam cultura, arte e educação como caminhos de equilíbrio. Seu legado permanece atual justamente por compreender o ser humano em sua totalidade, não apenas como força produtiva, mas como sujeito de sonhos e fragilidades.

Também enfrentamos, hoje, uma crise ambiental sem precedentes. O desenvolvimento, por muito tempo associado apenas ao crescimento econômico, revelou seu custo elevado para o planeta. Mudanças climáticas, eventos extremos e escassez de recursos nos obrigam a repensar modelos de progresso. A visão empreendedora do futuro, que o senhor representava, hoje precisa caminhar lado a lado com a sustentabilidade e o cuidado com as próximas gerações. O futuro deixou de ser uma promessa distante e passou a exigir responsabilidade imediata.

Apesar de tantas transformações, algo permanece essencialmente igual: a capacidade humana de sonhar e construir. Ainda acreditamos que ideias podem mudar realidades, que educação abre caminhos e que o trabalho digno transforma vidas. Seu nome continua associado a essas crenças, não como uma memória distante, mas como uma presença que inspira. Cada estudante que atravessa os corredores da Unifor, cada projeto cultural que nasce sob o guarda-chuva da Fundação, carrega um pouco desse espírito visionário que o senhor ajudou a semear. Escrevo-lhe, portanto, não apenas para relatar mudanças, mas para agradecer. Agradecer por um legado que resiste ao tempo, que se adapta às transformações e que continua gerando frutos. Em um mundo marcado por incertezas, sua trajetória nos lembra que é possível construir com ousadia e, ao mesmo tempo, com responsabilidade social. Que é possível empreender sem perder de vista o humano. Que é possível sonhar grande e agir com ética.

Se pudesse receber esta carta, imagino que o senhor a leria com curiosidade e senso crítico, atento aos desafios, mas confiante na capacidade de superação. Talvez reafirmasse que o futuro se constrói no presente, com escolhas diárias, muitas vezes silenciosas, mas profundamente transformadoras. É essa lição que permanece viva. Despeço-me com respeito e gratidão, certo de que sua ausência física foi incapaz de interromper a força de suas ideias. Elas seguem vivas, atravessando décadas, formando pessoas, inspirando caminhos e lembrando-nos de que o verdadeiro legado não está apenas no que se constrói, mas no impacto que se deixa nas vidas que se tocam.

Com estima e memória,

Um cidadão de um tempo que o senhor ajudou a tornar possível.

Jean Javarini