José Airton Nascimento Diógenes Baquit
Dos homens e dos dias
Prezado Chanceler Edson Queiroz,
Escrevo-lhe para mandar notícias aqui dos trópicos, essa terra nada convencional, de espírito alegre, hospitalidade aberta, onde a vida é uma festa para poucos. Por aqui já se aproxima o Natal, e a cidade fica bastante iluminada à espera dos acontecimentos vindouros, nos quais habitam o sonho e a incerteza! É sempre esse duelo, essa coisa entre a sensatez e o absurdo, entre a ordem e o desconcerto, sinal de que algumas coisas permanecem no eixo das polarizações. No entanto, para não cair no pessimismo previsível, seguirei a rota daqueles que acreditam nos prenúncios da alvorada, período em que os homens se levantam e os gritos se reelaboram.
O senfor nos deixou quando o Brasil ensaiava a volta do regime democrático, que foi consolidado em 1989, com a eleição de Fernando Collor de Melo, o ‘Caçador de Marajás’. De lá para cá, uma certeza apodrecia a cada minuto, mas não impediu que as raízes de nossa democracia fossem revigoradas. Apesar dos inúmeros desafios, o Brasil entrou novamente na rota do desenvolvimento, com a inflação relativamente controlada; a saída do país do Mapa da Fome; a inserção em blocos econômicos estratégicos; o incentivo à educação; e a reafirmação da nossa soberania frente aos ataques internacionais.
São muitas novidades no Brasil e no mundo, doutor Edson, mas preciso destacar um assunto que pode lhe despertar interesse: o avanço das novas tecnologias de comunicação. Somos agora um povo conectado, com tecnologia de rede sem fio, drones, inteligência artificial, telemedicina, bancos digitais, armazenamento em nuvem, educação a distância, notícias online, smartphones. O mundo em apenas um clique. É assim que caminhamos neste mundo globalizado, com impactos imediatos em qualquer parte do planeta, inclusive em nossa Terra da Luz, que sabe o valor e o legado de antecipar as vozes e os movimentos de um porvir distante.
Foi assim, com esse porvir no peito, que nos tornamos o maior cinturão digital público do Brasil, posicionando o estado como um hub de internet crucial para a América Latina e para o mundo; foi assim que alçamos Sobral ao topo da educação nacional, sendo modelo para o restante do país; foi assim que transformamos vento em energia e caminhamos, mais recentemente, para sermos protagonistas na produção de hidrogênio verde; foi assim, com esse espírito revolucionário, que também vimos a primeira mulher se tornar governadora do Ceará; foi assim, com essa sede veloz no coração, que conquistamos uma unidade do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) para o nosso território, sendo o primeiro do Nordeste e o segundo do Brasil.
Também somos um povo, doutor Edson, que se refaz e segue adiante sem, no entanto, esquecer o legado das inúmeras vozes que teceram a carne da nossa memória. José de Alencar, Patativa do Assaré,
Cego Aderaldo, Preta Simoa, Dragão do Mar, Belchior, Rachel de Queiroz, Jáder de Carvalho, Leonardo Mota, Antônio Sales, Frei Tito, Rosa da Fonseca. Gente ousada, que abriu caminhos, inverteu certezas e fincou um arado de esperança em nossa constituição, evocando nomes que amplificam a força de nossa insurgência: Lira Neto, Fausto Nilo, Maria da Penha, Amelinha, Ednardo, Socorro Acioli, Mailson Furtado, Silvero Pereira, Rodger Rogério. São nomes e nomes que construíram e constroem uma fortaleza no coração dos homens e das épocas.
E, por falar em força e solidez, outra Fortaleza segue a brilhar, erguida por entre sonhos, sangue e águas infinitas. É a Fortaleza da Praia de Iracema; do Estoril; da Ponte dos Ingleses; da Praça do Ferreira; da Barra do Ceará; e do velho Farol do Mucuripe, que reluz as boas novas: já somos a quarta maior capital do Brasil, com mais de dois milhões de habitantes; estamos literalmente interligados com o mundo através de investimentos em inteligência artificial e segurança de dados – conquistamos o primeiro Data Center da América Latina, um investimento na cifra de bilhões; e incentivamos práticas inovadoras de mobilidade urbana, com ciclofaixas e ciclovias, bicicletas compartilhadas, passe livre estudantil, bilhete único, integração do transporte público, revitalização de túneis e construção de linhas de metrô.
É assim que seguimos por aqui, doutor Edson, cheios de ousadia e esperança, apesar de todos os desafios, que são imensos: a misoginia, o racismo, a corrupção, o desemprego, a homofobia, a pobreza. No entanto, apesar dos obstáculos, somos muito pretensiosos, sabemos refazer estradas, seguir adiante... não desistimos a qualquer pedra no caminho, pois, como disse o poeta, temos a força que liberta e o amor que vence o orgulho! E, se eventualmente formos surpreendidos pela injustiça ou pela ingratidão, não deixaremos de crer na vida e engrandecê-la pelo trabalho, como você enfatizou.
É, pois, com esse espírito otimista que encerro esta carta, na esperança de que os corações inquietos nunca parem de ecoar nesta terra onde lembrar é quase promessa; e que as boas novas possam germinar, hoje e sempre, no manancial dos homens e dos dias.
Com afeto e admiração,
José Airton Baquit