José Cavalcante Fonteles

Entre o céu, o mar e a montanha

“Seu” Edson,

Ao invés do protocolar Senhor Chanceler, permita-me trato análogo ao daquele senhor anônimo, negociante de laranjas, na calçada do edifício Butano (tô aqui por autoridade do finado, estes anos todos). Bem ao estilo interiorano do “seu”, sinhá, dona, finado(a), fulanos, meu patrão, minha patroa… equiparados a títulos nobiliárquicos ou patentes militares. Será esta uma carta de mínimas interjeições e mais de indagações, restrita a aspectos pontuais da chamada pauta de costumes e a discretos ensaios de futurologia, dentro dos limites, ora em disputa judiciária, do nosso estado com o do Piauí. Recordo com emoção nosso último encontro na manhã daquele sábado de junho de 82, no Parque da Paz, quando da despedida coletiva das vítimas do desastre de Aratanha.

Demorou-se o velório, à espera de uma identificação genética dos despojos que afinal revelou-se impraticável. O triste noticiário do dia, impresso em offset no jornal e transmitido em videotape na TV. Em 44 anos, a rede mundial de computadores, acarretou, sem rodeios, o universo para a polpa de nossos dedos. Basta um leve toque. Na área da saúde, produção de pinças robóticas destinadas a acessar e processar o íntimo dos organismos, ocupa no momento a cogitação dos nossos hospitais de ponta sobre a conveniência de se tornarem seus clientes. Tecnologia de DNA em áreas abrangentes da perícia criminal à manipulação paleontológica, passando pelas fertilizações in vitro e injeções invadindo o interior do citoplasma e de plasmas outros na reprodução assistida. Que dizer da impressão digital de dispositivos protéticos e de órteses, por impressoras em 3D? Admirável mundo novo. A realidade tornou-se em grande parte virtual. Um impacto calculado em 30 vezes o vigente no fim do passado milênio.

Ao término do 1o trimestre do novo ano, a Unifor deve formar sua 1a turma de bacharéis em Inteligência Artificial. Pioneira semente germinada no país, a respeitável distância de muros claustrais intransponíveis, a exemplo dos vivenciados por si na pré-adolescência no Seminário da Prainha. Sabe aquele espaço que nenhum jornal dispensa de manter, em comemoração às suas datas redondas de edição: vinte, trinta, cinquenta anos depois…?

Foi dele que me servi para recapitular boa parte dessas inovações, preferencialmente voltadas ao cotidiano cultural de nossa realidade. Cenários cada vez mais panópticos. Exemplifico com dispositivo pegado ao acaso tendo por foco desvendar telemática de dados armazenados em nuvem. A privacidade dessa carta e tudo que a cercou durante a elaboração epistolar poderia ter escapado para um espaço recôndito, denunciado apenas pelos flashes destes brilhos de nuvem que (nos ensina a malícia política mineira) mudam de forma conforme sopra o vento, porém, com presença rastreável a cada instante. O dispositivo para resgatá-los? Tecnologias mosssadianas com as quais não tenho a mínima intimidade, eis por que declino de detalhá-las. Sem contudo eximi-lo do pedido de resposta certa.

O campus da Unifor tornou-se uma dádiva histórica para a cultura cearense: o parque em si, as exposições e as apresentações, o acervo recapitulado, dos outeiros literários à computação gráfica, emulando com o das duas universidades públicas em Fortaleza (Pici e Itaperi). E os bairros no entorno concomitante de água fria e muito sal: Guararapes, Luciano Cavalcante, o Parque do Cocó e… o Edson Queiroz?

Lembro-me bem do contexto particular inspirador da aparição da Universidade de Fortaleza, bem a leste do éden corográfico da capital do Ceará, uns terrenos de salgados semi-ermos até pouco. Estagiava no setor de publicidade do Sistema Verdes Mares, recém- egresso de um curso de desenho gráfico.

Sim, interrogar pode ser mais relevante do que responder possa ser intrigante. O senhor lembra da Torquata, a migrante portuguesa a quem o senhor deu acolhida firme (non-chancellante)?Apareceu em nosso sítio no Catu, pilotando o seu fusca verde desde a vizinha Riviera, numa semana santa, fins da década de 90.

O calvário de cientista da Torquata, ai...ai...ai: Bolsa de pesquisa - glossário de espécimes botânicas comuns ao Ceará e à Guiana Francesa – projeto Villes jumelles; Especialização - Emprego da Armoracea sativa nas distrofias musculares tipo cintura; Mestrado: Componente emocional dos reflexos abdominais superficiais.

Ma belle soeur est morte, assim, questionada por tutor de Quebec, houvera de justificar-se a 2a Chancelleuse, pela abstinência de viagens de recreio ao exterior, pelo lapso de um ano de luto pela cunhada. Sem chance de Ohio para a então bolsista do PIC. Por aqui, já podemos modestamente acessar de metrô o aeroporto. Iniciativas para depurar de fósseis o meio ambiente, ao lado da micromobilidade e da tecnologia de baixo carbono. E não falei do crescente interesse despertado pelo turismo funerário em voga atualmente: é preciso reservar, com mês de antecedência, vaga para tours noturnos por entre os túmulos do São João Batista. Modalidade completamente ignorada nos anos 60, pulverizadores de tabus. Lá consta em pedra: Pascoela Torquato, mártir. Inovações no setor de informações e contra- informações aptas a inviabilizar sua dissertação. A candura do auditor interno, figura episcopabilíssima, angelicamente empenhado em captar e passar adiante informes sigilosos do desempenho magisterial. Dê ciência disto às chancelleuses, criaturas acolhedoras, o mesmo digo do seu sucessor no comando do Grupo.

A legítima inquietação científica da mestranda despertou adversidades, culminando com suspensão da docência, rescisão do contrato de trabalho e, como pena accessória, o ressarcimento dos valores percebidos, a título de bolsa de pesquisa, da entidade financiadora do projeto. Como não dispunha de recursos para tanto, foi parar no Serasa.Em torno de uma garrafa de Calvados, presente agraciado de Pascoa, destilou lato sensu suas mágoas pós-graduandas. Não me sobrou outro caminho senão assumir sua defensoria auto- dativa. A verdadeira montanha (Baturité) acaba de ser elevada à décima diocese desse nosso Ceará, 40% menos católico de quando nos seus dias de aluno no seminário da Prainha (postei sua foto de batina lá).

Aqui da janela, toda noite vejo crescer a Torre Geneve, rumo às neves eternas. Cogita-se de transformar o zoo municipal de Fortaleza numa escola de meio ambiente e o post é muito expressivo: o cenho carregado de preocupação de um macaco guariba, espécie ameaçada de extinção remanescente na Apa do Covão (Granja) e na reserva de Serra das Almas (bacia do Poti).

Olhe que não duvido, neste 2o evandrato, dos compêndios de química e de biologia do velho liceu:1) No universo, como na intimidade do átomo, impera o vazio e 2) no espaço submolecular, na água dos mares, reside a instância primeira da vida... E por aqui vou ficando; por falta de espaço, aos costumes pouco disse. Estamos juntos por aí no que ainda estiver por vir…

José Fonteles