Kelly Garcia

Caro Chanceler Edson Queiroz,

Relutei muito em escrever essa carta. Não sabia muito bem o que dizer, tendo em vista que você partiu antes mesmo que eu nascesse e que o mundo que você conheceu durante toda a sua vida era muito diverso do que temos hoje.

Então, fui em busca das coincidências entre as nossas histórias, para que eu pudesse compreender melhor os nossos pontos de ligação. Temos alguns! Quatro dias antes de você falecer, meus pais ficaram noivos, em São Paulo. Eles se casariam dali a seis meses e eu nasceria em outubro do ano seguinte. Minha mãe morava bem pertinho do aeroporto de Congonhas e o meu pai trabalhou no restaurante de lá. Minha avó também foi cozinheira da Vasp, a empresa na qual o senhor fez sua última viagem.

Depois de alguns anos, vim morar no Ceará e fui impactada pelo legado das empresas que o senhor fundou, que passaram a fazer parte da minha vida. Claro, usávamos o Gás Butano na nossa cozinha. Diferente do carro do gás de São Paulo, que tinha uma música anunciando sua chegada, aqui era um sino. Fecho os olhos, imagino o som estridente e relembro quando eu e meu meu irmão fazíamos bagunça em casa, gritando, por conta do carro do gás.

Em nosso primeiro apartamento em terras cearenses, nosso primeiro fogão também foi um Esmaltec. Pelo que me lembro, era de cor marrom, para combinar com a nossa geladeira Prosdócimo.

Mas, voltando ao que de fato importa, as grandes transformações pelas quais o mundo passou nos últimos 43 anos. Do ano 1982 até hoje, aconteceram tantas mudanças! Uma delas foi a popularização do telefone. Antes, apenas as pessoas mais ricas tinham um aparelho em casa; até o fim dos anos 1990, em quase toda residência havia um telefone fixo. Digo fixo porque. no início dos anos 1990, também surgiram os telefones celulares. São aparelhos que cabem na mão e podem permitir que as pessoas conversem de qualquer lugar. Hoje, os telefones deram lugar aos smartphones e, além de falar, fazemos vídeos e ainda podemos conversar por vários aplicativos, fazer projetos, trabalhar. Nunca foi tão fácil localizar uma pessoa ou fazer qualquer tipo de serviço a distância.

Os meios de comunicação, que sei que eram uma das suas grandes paixões, também passaram por muitas mudanças. Atualmente, podemos escolher entre milhares de filmes e séries, de todos os lugares do mundo e sem os comerciais. O grande entretenimento hoje, nas casas, são os serviços de streaming, uma espécie de locadora de filmes gigante e virtual. As televisões continuam com seu espaço na programação das pessoas, mas de forma diferente, com programas mais regionais e com a cara das pessoas.

Com essa intenção de trazer mais pessoalidade e a pegada cearense para a televisão, existe, no seu conglomerado de comunicação, a TV Diário, que chegou a ter um sucesso tão grande que fez concorrência para as grandes emissoras do centro-sul do país. Acredito que o senhor

ia ficar orgulhoso com esse trabalho. Era capaz de assistir de pertinho a gravação das Garras da Patrulha e rir das presepadas do Coxinha, entre outros personagens icônicos.

O seu jornal Diário do Nordeste, veja só, hoje não é mais veiculado em papel; adaptou-se aos novos tempos e passou a ser totalmente online.
Aproveito para agradecer porque foi nesse veículo, que o senhor considerava a sua menina dos olhos, que eu aprendi a maior parte do que sei de jornalismo. Todos os dias, via o seu enorme retrato assinando o primeiro exemplar do Diário, registro do grande Tuno Vieira, o Antônio Carlos, que também já foi para o céu.

Escrevendo essa carta, fico imaginando qual seria a sua reação ao ver essas mudanças na forma de fazer jornalismo e televisão. Hoje, está tudo integrado em uma redação só. TV, rádio, jornal, portal de notícias. Os novos tempos pedem velocidade. As notícias envelhecem rápido. Foi preciso se adaptar.

No entanto, desconfio que de todas essas mudanças, certamente a que causaria o maior impacto seria a grande doença que se abateu no mundo inteiro - a pandemia de Covid-19. Passamos quase dois anos reclusos, e essa pandemia nos obrigou a convivermos novamente em família, porque fomos obrigados a ficar o dia inteiro juntos. Com isso, para alguns, a união foi maior. Também aumentaram bastante os índices de divórcio. Nunca mais fomos os mesmos.

Depois desse aperreio, ainda estamos reaprendendo a viver. A ansiedade que, talvez, no seu tempo, fosse coisa restrita a pequenos grupos de pessoas, hoje é um dos grandes males do século. É raro encontrar alguém que não tome remédio para se acalmar ou que não conheça alguém que sofra desse mal.

Depois de tantas notícias, umas boas e outras nem tanto, encerro essa missiva dizendo que gostaria de ter encontrado com o senhor nos corredores do Sistema Verdes Mares. Quem sabe olhando a impressão do jornal! Eu também tinha um fascínio por esse processo barulhento, mas fazia questão de pegar meu exemplar quentinho com matéria assinada para guardar de lembrança na minha pasta de recordações.

Me despeço grata pelo legado que o senhor construiu e que me atingiu de forma irreversível.

Cordialmente,

Kelly Garcia