Ludmila Raquel Karino Tavares

Prezado Edson Queiroz,

Escrevo-lhe atravessando o tempo, como quem escreve não apenas a um homem, mas a uma ideia de futuro. Desde sua partida, em 1982, o mundo mudou de forma vertiginosa. Mudaram as tecnologias, os modos de produção, as formas de comunicação e de ensinar. Mas escrevo, sobretudo, para lhe contar sobre mudanças mais lentas, mais difíceis e, talvez por isso mesmo, mais profundas: aquelas que dizem respeito à vida das meninas e das mulheres e às leis que passaram a reconhecer, ainda que tardiamente, suas dores, seus direitos e sua humanidade.

Quando o senhor nos deixou, a violência contra mulheres e meninas era, em grande medida, tratada como assunto privado. A lei pouco nomeava aquilo que acontecia dentro das casas, nos corredores das escolas, nos trajetos cotidianos. O estupro conjugal sequer era reconhecido como crime. A palavra “violência doméstica” quase não existia no vocabulário jurídico. O silêncio era a regra, e a culpa, quase sempre, recaía sobre quem sofria a violência.

Ao longo dos anos de sua ausência física, mulheres começaram a romper esse silêncio. Primeiro timidamente, depois com mais força, apoiadas por movimentos sociais, pesquisadoras, educadoras, juristas, estudantes, muitas delas formadas em universidades que, como a que o senhor idealizou, apostaram no pensamento crítico e na formação cidadã. A legislação brasileira, pressionada por essas vozes, começou a mudar.

Em 2006, foi sancionada a Lei Maria da Penha, um marco histórico no enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher. Pela primeira vez, o Estado brasileiro reconheceu que a violência sofrida dentro de casa não era um problema individual, mas estrutural; não era fraqueza, mas violação de direitos humanos. A lei passou a prever medidas protetivas, responsabilização do agressor e políticas públicas de prevenção. Ainda insuficiente, ainda desafiada por práticas machistas, mas fundamental por nomear aquilo que antes era invisível, que ninguém “metia a colher”.

Anos depois, em 2015, o feminicídio foi tipificado como crime. Dar nome à morte de mulheres pelo fato de serem mulheres foi um passo doloroso, mas necessário. O Estado passou a reconhecer que muitas mortes não eram acidentais, nem passionais, mas resultado de uma cultura que naturaliza o controle, a posse e a violência sobre os corpos femininos. Cada artigo dessa lei carrega o peso de vidas interrompidas, muitas delas ainda meninas.

Outras legislações surgiram para enfrentar violências que, por muito tempo, foram tratadas como menores, inevitáveis ou invisíveis. A importunação sexual passou a ser reconhecida como crime, nomeando experiências cotidianas de mulheres e meninas que aprendem cedo a sentir medo no caminho de casa, no transporte público, nas ruas. A violência psicológica deixou de ser vista como algo subjetivo ou exagero, e passou a ser compreendida como uma forma profunda de agressão, capaz de destruir a autonomia, a autoestima e o sentido de si. A divulgação não consentida de imagens íntimas, prática que expõe, humilha e silencia, sobretudo meninas e jovens mulheres, passou a ser enfrentada como violação de direitos, especialmente em um mundo cada vez mais mediado por telas, algo ainda muito distante de quando o senhor estava entre nós.

A violência política de gênero também foi nomeada, reconhecendo que mulheres não podem ser afastadas da vida pública por meio do medo, da desqualificação ou do ataque à sua dignidade. No campo da proteção de meninas, a legislação avançou ao reconhecer o abuso e a exploração sexual como violências graves, exigindo do Estado não apenas punição, mas cuidado, escuta e responsabilidade. Cada uma dessas conquistas nasceu de vozes que se recusaram a permanecer caladas. Nenhuma dessas leis surgiu por acaso; todas carregam histórias de dor transformadas em direito. Essas leis mudaram a vida das mulheres? Sim. Mas mudaram de forma desigual.

Para muitas meninas, sobretudo as mais pobres, negras, periféricas, a violência ainda acontece cedo demais. O acesso à justiça continua atravessado por desigualdades. A denúncia ainda cobra um preço alto. A revitimização persiste. A distância entre a letra da lei e a vida concreta ainda é grande.

Ainda assim, algo essencial se transformou: hoje, meninas crescem em um país onde a violência tem nome jurídico, onde existem leis que afirmam, ao menos no papel, que seus corpos não são território livre para a violação. Crescem em um tempo em que podem aprender, na escola e na universidade, que aquilo que sofreram não foi culpa delas. Que existe linguagem para a dor. Que existe direito à proteção.

É aqui que a educação, mais uma vez, se revela central. As leis não se sustentam sozinhas. Precisam de interpretação, de formação, de consciência crítica. Precisam de profissionais sensíveis, de pesquisadores comprometidos, de professoras e professores atentos às desigualdades de gênero. Precisam de universidades que formem não apenas técnicos, mas cidadãos.

Não sei se, quando o senhor idealizou a Universidade de Fortaleza, imaginou todas essas transformações. Talvez pensasse no desenvolvimento, na formação de profissionais, no futuro econômico da região. Mas, ao longo dos anos, foram sobretudo mulheres que atravessaram esses espaços de ensino carregando expectativas, medos e desejos. Muitas foram as primeiras de suas famílias a chegar à universidade; outras encontraram ali palavras para nomear violências antes silenciosas, ou ferramentas para romper ciclos de dependência e submissão. A educação superior não resolveu todas as desigualdades, eu sei, mas ampliou horizontes, fortaleceu a autonomia e permitiu que meninas e mulheres passassem a se enxergar como sujeitas de direitos. É nesse efeito menos visível, que acontece nas trajetórias individuais, nas escolhas cotidianas e na possibilidade de imaginar outros futuros, que percebo a força mais profunda do seu legado.

Talvez o senhor reconhecesse, neste tempo, que o progresso verdadeiro não se mede apenas por índices econômicos, mas pela capacidade de uma sociedade proteger suas infâncias, ouvir suas mulheres e transformar dor em política pública, silêncio em direito, exclusão em acesso ao conhecimento.

Seguimos vivendo contradições. As leis avançam, mas a violência resiste. Ainda assim, cada menina que aprende que tem direitos, cada mulher que encontra respaldo jurídico para romper um ciclo de violência, cada estudante que transforma sua experiência em pesquisa, é também fruto de um legado que apostou na educação como força transformadora.

Escrevo-lhe, portanto, não apenas para relatar mudanças, mas para afirmar continuidades: a crença de que o futuro se constrói com investimento em gente, em pensamento, em justiça social. E para que meninas e mulheres, antes invisíveis para a lei, possam ainda que com luta, estar no centro das discussões sobre cidadania, dignidade e democracia.

Com respeito à sua memória e compromisso com o tempo presente,

Esperança Equilibrista

P.S.: Talvez o senhor se pergunte como cheguei até aqui, escrevendo-lhe desde o centro do país. Sou neta de nordestinos que atravessaram estradas para erguer a nova capital, levando nos corpos o cansaço e a esperança de um futuro possível. Seu nome chegou até mim como aposta na educação. Hoje escrevo como professora, pesquisadora e mulher em retomada étnica. É assim que reconheço seu legado: espalhado pelo país, inscrito em trajetórias que seguem acreditando que o conhecimento também constrói chão.

Ludmila Raquel Tavares