Luiz Carlos Brasiliense Canuto
Prezado Chanceler Edson Queiroz,
Hoje, resolvi dar uma parada do corre-corre e deixar os pensamentos correrem, em especial os da recordação. Eles nos fazem viajar sem que a gente tenha que arredar o pé.
Então recortei o ano de 1978 e seguintes, para não descortinar um universo que não caberia nesta carta, talvez num livro... mas não é esse o propósito.
Fui office-boy, assim está escrito na minha CTPS, mas a gente era chamado de ‘contínuo’ mesmo. Trabalhava numa empresa de Auditoria Independente, denominada Price Waterhouse Auditores Independentes, uma multinacional com matriz em São Paulo e filiais em 13 estados brasileiros. Cansei de decifrar feliz esse verso, quando perguntado onde trabalhava. Ela prestava serviços para as suas empresas e me fazia sentir como se eu também trabalhasse para o senhor.
O senhor lembra, seu Edson? Ela funcionava ocupando todo o nono andar do edifício Butano, de sua propriedade, onde, aliás, também funcionava a administração central de suas empresas, sendo a Norte Gás Butano, a mais famosa.
Por vezes, tive o privilégio de “viajar” junto ao senhor, notadamente um passeio curto e obrigatório, mas necessário, já que nos encontrávamos, vez em quando, no elevador do prédio.
Eu, durante o trajeto, não havia muito como ser gentil, não havia uma porta para eu abrir, uma cadeira para eu ceder. Mas quando era com a família, buscava espremer-me no cantinho, para sobrar mais espaço no elevador.
O senhor lembra, seu Edson: a Rua Major Facundo, sede do ed. Butano, do Centro da cidade, era a mais glamorosa de Fortaleza. Depois, a Praça do Ferreira, o Cine São Luiz, o Cine Fortaleza, a Farmácia Oswaldo Cruz, a loja de roupas masculinas Milano, os cartórios de registro de pessoas naturais, destacando aqui o João de Deus, onde tenho assento de nascimento, o Hotel Savanah, a loja de tecidos Casa Blanca... ah, quanto glamour!
Mas, hoje, seu Edson, está tudo muito mudado, alguns desses empreendimentos no Centro ainda existem, nem vou enumerá-los, porque são poucos, mas é que o Centro perdeu o seu encanto. O senhor ainda alcançou o primeiro shopping center de Fortaleza, que foi o Center Um, em novembro de 1974, recém-inaugurado pelo seu genro, Tasso Jereissati. E depois o senhor também conheceu o Iguatemi de Fortaleza, inaugurado em abril de 1982. Pois aquilo com que o senhor conviveu é a nossa realidade hoje, nas terras alencarinas, vieram tantos outros shoppings para Fortaleza!
Eu costumo dizer, seu Edson, que o senhor foi a alavanca de desenvolvimento em nosso Estado. Nós deixamos de ter só a enxada, o gibão de couro, o balaio de pesca, apetrechos de identidade cultural que muito nos orgulham, para avançarmos e despontarmos com o segmento da indústria nacional. Isso já é público e notório.
O que eu quero ressaltar, seu Edson, é um outro aspecto da sua trajetória. O Senhor viveu e era um jovem de 20 anos,
quando testemunhou um fato histórico mundial, que com certeza o inspirou. Ei-lo: A Organização das Nações Unidas (ONU) foi criada oficialmente em 1945, um mês logo após o término da segunda guerra mundial, quando a importante Carta de sua criação foi ratificada pela China, França, União Soviética, Reino Unido, Estados Unidos e por maioria de diversos outros signatários, incluindo o Brasil, e atualmente é composta por 193 Estados-Membros.
Um dos marcos da ONU foi a Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (resolução 217 A III), em 10 de dezembro de 1948. Sobre a Declaração, destacamos um de seus trechos, para situarmos os seus objetivos: “A Assembleia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, esforce-se, por meio do ensino e da educação, para promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universais e efetivos, tanto entre os povos dos próprios Países-Membros quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição”.
Seu Edson, em março de 1973, 28 anos após a proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o senhor presenteia o povo cearense com a inauguração da Universidade de Fortaleza – Unifor, ratificando a Magna Carta por meio do ensino e da educação, proporcionando a promoção do respeito a esses direitos e liberdades.
Olha, seu Edson, o legado que o senhor deixou constituiu-se em um celeiro de mentes que muito contribuiu e contribui para o desenvolvimento do nosso Estado, da nossa Região, do nosso país e, hoje, do mundo multipolar.
Multipolar? Ah, seu Edson, deixa eu lhe explicar: o planeta, quando o senhor nos deixou, era economicamente bipolar, que era de competição dos EUA e URSS. Isso foi na época da guerra fria. Eu soube, pela boca do povo, que o senhor, família que era, acompanhou a D. Yolanda para um tratamento de saúde e, nas horas vagas, ajudou a um comerciante de lá a se desenvolver a partir de sua experiência e criatividade. Bom, mas isso aí já é outra história.
Depois, em 1991, com a dissolução da União Soviética e o fim da guerra fria, esse evento marcou o fim da ordem mundial bipolar, advindo a ordem multipolar. Mas, rapidamente, nos anos noventa, ainda apareceu uma nova ordem mundial com outros polos econômicos e políticos, que ganharam força, como a União Europeia e o Japão. Nas décadas seguintes, houve a ascensão da China e o fortalecimento de economias emergentes (BRICS: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul) e a influência de outros países, que consolidaram a multipolaridade, com uma mistura de influência militar unipolar (EUA) e econômica multipolar.
Desculpe, eu falei tanta coisa. Não, seu Edson, não se preocupe com isso não, suas empresas estão consolidadas, adequaram-se a tudo isso. O Grupo Edson Queiroz é uma das maiores holdings multissetoriais do Brasil. Ele se destaca por seu tamanho, faturamento e liderança de mercado em diversos segmentos.
Voltando ao assunto, seu Edson, eu estava falando era mesmo da educação. Quero lhe dizer que o senhor me conheceu aos 15 anos. Hoje, estou com 62 anos, formado em Direito na UNIFOR, com família estabelecida, e também mulher e filhos formados e trabalhadores, em tudo dando graças a Deus que está aí, bem pertinho do senhor. Mando um abraço pra Ele.
Sua visão empreendedora não esqueceu a Educação. O senhor foi um visionário do empreendedorismo educacional, dentro dos ditames da Carta Universal dos Direitos Humanos. A Universidade de Fortaleza vai muito bem, tem um conceito nacional de excelência como uma das melhores universidades particulares do Brasil, sendo consistentemente a melhor do Norte e Nordeste.
Sem mais, vou terminar, enviando um saudoso abraço. Muito obrigado.
Luiz Carlos Canuto