Marcela da Silva Lira Correia

Carta ao Chanceler do Amanhã

Excelentíssimo Chanceler Edson Queiroz,

Escrevo-lhe não como quem envia notícias ao passado, mas como quem presta contas a um futuro que o senhor ajudou a desenhar. Enquanto as ondas do mar de Fortaleza continuam a bater na Praia de Iracema, com a mesma rítmica insistência de 1982, o mundo do lado de cá das dunas transformou-se de formas que desafiariam até a sua mais audaciosa visão de pioneiro.

Cresci ouvindo que “o estudo te tira daqui”. Essa frase, dita por uma mãe exausta em uma casa de tijolos aparentes, era a repetição de uma promessa que o senhor fez ao Ceará ao fundar a Universidade de Fortaleza. Mas, para que o estudo nos tirasse de algum lugar, alguém precisava ter colocado uma ponte ali. Uma dessas pontes criadas foi a Unifor. Naquele tempo, o senhor movia o estado através das ondas da Rádio e TV Verdes Mares; hoje, essas ondas tornaram-se invisíveis e infinitas. Saímos da era analógica para um mundo onde a informação cabe na palma da mão, e a inteligência, agora chamada de artificial, tenta mimetizar o brilho do olhar humano, apenas tentando se conseguir.

O senhor se orgulharia de saber que a Nacional Gás, que levava o fogo para a cozinha das famílias brasileiras, agora convive com um mundo que busca a energia do sol. Eu mesma, aquela menina que corria descalça no chão de terra e via o sol alaranjado desenhar sombras em casas inacabadas, hoje carrego meu carro na tomada e colho eletricidade do meu próprio telhado. É uma evolução natural do seu espírito empreendedor: o senhor iniciou o ciclo de prover energia; nós agora refinamos esse ciclo para que o sol continue a tocar o mar sem ferir a natureza que tanto amamos. Mas, Chanceler, a energia mais potente que recebi do seu legado não foi a elétrica, nem a do gás; foi a da coragem.

A coragem de ser a primeira.

O senhor foi o primeiro em tantos negócios, e eu, inspirada por esse espírito, fui a primeira da minha linhagem a segurar um diploma universitário. A coragem que o senhor teve de erguer um campus onde só havia mato foi a mesma que precisei para vencer a ansiedade, a rejeição e a descrença de quem dizia que “gente como nós” não chegaria lá. O senhor transformou o cenário do Ceará; a educação que o senhor fomentou transformou o cenário da minha alma.

Hoje, sou escritora. Escrevo versos para acalmar corações ansiosos e romances que narram as “raízes de ferro e asas de papel” de tantas outras mulheres como eu. Uso as palavras para construir refúgios, assim como o senhor usou o aço e o vidro para construir progresso. Sinto que minha caneta é, de certa forma, uma extensão da sua visão: ambas buscam dar dignidade ao nosso povo. Se o senhor foi o arquiteto das estruturas, permita-me ser, humildemente, uma das poetas que narram a alma do povo que habita essas estruturas.

A sua ausência física é preenchida, todos os dias, pelo som dos passos dos alunos que cruzam a Unifor e pelo sucesso das empresas que sustentam milhares de lares. Se o senhor pudesse me ver agora, veria que a “pedra fria no peito” que a vida difícil me deu foi lapidada pela educação e transformada em obra.

Obrigada, Chanceler, por acreditar que o conhecimento era o mar onde todos nós deveríamos aprender a navegar. O senhor partiu antes de ver o mundo digital, mas o seu legado é o algoritmo mais perfeito que o Ceará já conheceu: aquele que multiplica oportunidades e soma esperança. O senhor não está aqui para ver os carros elétricos ou a inteligência artificial, mas está presente em cada página que escrevo e em cada vida que a educação transformou.

Com profunda admiração e eterna gratidão de uma filha do seu legado educacional,

Marcela Correia