Maria Ivone Araújo Dias Cristino
Excelentíssimo Chanceler Edson Queiroz,
Não sou homem de vaidades, mas trago acesa no peito uma centelha de orgulho por ter nascido na cidade de Cascavel. Ser contemporâneo e conterrâneo de Vossa Excelência mudou minha sorte, livrou meu destino de ilusões e apontou-me os rumos da decência e do trabalho.
Nunca o encontrei pessoalmente, mas o sentimento de admiração pelo visionário que, há quase sessenta anos, ousou levar uma grande indústria a uma pequena cidade do Ceará, transformando a vida de tanta gente, acompanha-me todos os dias. Trabalhar na empresa Cascaju foi o início de minha redenção. A partir de então, encontrei a dignidade e o respeito que me foram negados durante a infância e a juventude.
Uma lembrança viva que não me abandona é a daquele dia 8 de junho de 1982, quando ouvi pelo rádio do carro a trágica notícia de um desastre de avião ocorrido na madrugada. Neguei-me a acreditar que, entre as vítimas estava um dos maiores benfeitores de nosso Estado. Os cearenses perderam um líder, um farol, um guia. Um homem bom. O luto foi de todos nós.
Muita coisa mudou neste mundo desde sua partida. Vivemos alegrias e dores, assistimos a transformações inimagináveis. O Ceará desenvolveu-se, tornando-se uma das mais pujantes economias do Nordeste. Acredito que seu exemplo e seu legado contribuíram muito para esses avanços. Nossas crianças têm mais acesso à saúde e à educação, o turismo cresceu assustadoramente e a economia se diversificou. Agora o Estado exporta inúmeros produtos para os Estados Unidos, Europa e China. Exportamos até redes, o que renova minha esperança no futuro da humanidade.
Por outro lado, cresceu também a violência, não só aqui, na Terra da Luz, mas no mundo inteiro. O medo, as guerras, a fome, a desigualdade social e a crueldade grassam entre nós, desafiando os esforços dos homens de boa vontade. Sim, eles ainda existem e não correm da luta, mas têm enfrentado duras batalhas. A natureza tem sofrido e reagido às constantes agressões de aventureiros, cegos pela cobiça.
Porém, a mais impactante de todas as mudanças nos últimos anos foi a forma de comunicação entre as pessoas. Não se escrevem mais cartas aos amigos e os Correios amargam prejuízos bilionários, havendo quem defenda sua privatização. Os telefones fixos foram substituídos por aparelhos chamados “celulares”, que são usados para tudo na vida: fotografar, filmar, ouvir músicas, assistir a filmes, pagar contas, conversar com os outros através de mensagens escritas ou gravadas... Servem até mesmo para praticar crimes. Eu, que nem sei bem manuseá-los, já caí em alguns golpes aplicados por meio desses aparelhinhos poderosos.
Paradoxalmente, num mundo onde a facilidade de comunicação se disseminou, nunca foi tão difícil prosear, acolher, cuidar, compreender, perdoar, amar. Os mais jovens parecem zumbis vagando por aí, os olhos acorrentados às telas.
Quase como um sinal misterioso a nos lembrar que a vida é um sopro, atravessamos, entre os anos de 2020 e 2022, um cenário aterrador: o aparecimento de um vírus mortal, chamado pelos cientistas de “coronavírus”. A praga se espalhou por todo o mundo e matou milhões de pessoas. Ficamos confinados em casa durante meses a fio, lutando contra o medo e a dor de perder pessoas queridas. Todas as noites a televisão, num ritual macabro, atualizava o número de mortos, que crescia a cada dia. Minha esposa, muito religiosa, dizia que era o final dos tempos. E para ela, infelizmente, foi o final do seu tempo neste mundo. Perdi o amor da minha vida, minha companheira por mais de sessenta anos. Era a melhor parte de mim. Desde então vivo despedaçado, cheio de saudades.
Hoje completo noventa anos. Nasci no dia da padroeira de nossa cidade. E por ela sou abençoado. Tento me manter ativo, mas a memória começa a falhar. Por vezes uma névoa envolve meus pensamentos, troco o nome dos filhos, confundo netos e bisnetos. No entanto, ainda encontro momentos de felicidade nessa travessia. Certos períodos de minha vida são inesquecíveis. Gosto de recordar o desafio que foi cursar a Faculdade de Direito da Universidade de Fortaleza, no início da década de 1990. Homem maduro, já com mais de cinquenta anos, realizei o clássico e aparentemente inatingível sonho de meus pais: “ter um diploma de doutor.” Vem-me agora à memória um verso de Patativa do Assaré, que cumpria o belo destino que lhe deu Nosso Senhor:
“Eu nasci pra sê vaquêro, Sou o mais feliz brasilêro, Eu não invejo dinhêro, Nem diproma de dotô.”
Muito mais do que um diploma, o curso de Direito da Unifor expandiu meus horizontes, deu-me uma formação sólida e humanística, e novamente a vida costurou trechos do meu caminho ao precioso legado deixado por Vossa Excelência. Mistérios de nossa existência.
A esta altura da caminhada, resta-me a confortável rotina dos dias calmos. Tenho o hábito de ler velhos jornais, que guardo cuidadosamente em uma gaveta da cômoda do quarto de dormir. Na manhã de hoje deparei-me com um exemplar do Diário do Nordeste, quando ainda circulava em versão impressa. Procuro no cantinho da página e releio aquela sua frase: “Se algum dia vocês forem surpreendidos pela injustiça ou pela ingratidão, não deixem de crer na vida, de engrandecê-la pela decência e construí-la pelo trabalho.” E sinto-me pronto para enfrentar um novo dia.
Sinceramente grato,
Gerardo Xavier da Cruz (Maria Ivone Cristino)