Marilene Feitosa da Silva

Prezado Edson Queiroz,

Escrevo-lhe em tempos em que a sorte ganhou endereço eletrônico, prazo de validade e regulamento em letras miúdas. Hoje, ela chega por meio de sorteios, promoções e concursos que piscam na tela do celular enquanto o dia segue apressado. A esperança, antes lançada ao vento, agora depende de cliques, cadastros e confirmações por e-mail.

A sorte mora no bolso. Vibra no celular, atravessa a internet, corre pelos cabos invisíveis que ligam computadores e notebooks ao mundo. Basta um toque na tela para participar: nome, CPF, e-mail, aceitar termos, compartilhar em rede social. O preço do sonho, muitas vezes, é apenas a atenção — e a expectativa que se instala depois.

Vejo pessoas calculando probabilidades como quem reza. Cada número da sorte vira promessa, cada concurso uma possibilidade de respiro. Um celular novo, um computador melhor, um notebook que facilite o trabalho ou o estudo. Prêmios que parecem simples, mas que, para muitos, significam acesso, dignidade, conexão com oportunidades que antes estavam distantes.

As redes sociais transformaram a sorte em espetáculo. Curtir, comentar, marcar amigos virou ritual moderno, quase superstição digital. O e-mail é conferido com ansiedade, a caixa de spam ganha importância inédita. A tela, iluminada, substitui o bilhete premiado. O anúncio do resultado é aguardado como quem espera um sinal.

Mesmo assim, antigos amuletos resistem. Há quem toque um pé de coelho antes de clicar em “participar”. Quem guarde um trevo de quatro folhas na carteira, mesmo que a inscrição seja online. Quem faça figa discretamente diante do computador, como se o gesto ancestral pudesse atravessar a fibra óptica. A tecnologia avançou, mas a fé na sorte continua surpreendentemente humana.

O preço da vida subiu. Contas, serviços, aparelhos. Um celular custa mais do que muitos salários podem pagar. A internet, essencial, pesa no orçamento. Um notebook, hoje, não é luxo: é ferramenta de trabalho, estudo, sobrevivência. Talvez por isso os sorteios tenham se multiplicado. Eles vendem mais do que prêmios; vendem a chance de alívio.

O concurso promete justiça pelo acaso. Todos concorrem, ao menos em teoria. A promoção oferece a sensação de igualdade momentânea: qualquer um pode ganhar. É uma esperança rápida, democrática, ainda que breve. Nem sempre se ganha, mas sempre se tenta. E tentar já é uma forma de resistir.

Imagino que o senhor entenderia esse cenário. A economia moderna transformou desejos em campanhas e expectativas em engajamento. Mas, por trás dos cliques, há pessoas reais, esperando que a sorte — essa velha conhecida — finalmente pare para conversar.

A tela se apaga, o e-mail não chega, o sorteio termina. A maioria não ganha. Ainda assim, no dia seguinte, lá estão todos de novo, participando de outra promoção, outro concurso, outro número da sorte. Não por ingenuidade, mas por necessidade de acreditar que algo bom pode acontecer sem aviso prévio.

Escrevo-lhe para dizer que, mesmo em meio a algoritmos e regulamentos, a sorte continua sendo um símbolo poderoso. Ela carrega esperança onde faltam garantias. E enquanto houver um celular na mão, uma tela acesa e um trevo guardado no bolso, alguém seguirá acreditando que o próximo clique pode mudar tudo.

Com expectativa, superstição e conexão,

Alguém que confere o e-mail, cruza os dedos e olha para a tela mais uma vez.

Marilene Feitosa da Silva