Maryane Hasse de Andrade Figueira

Excelentíssimo Edson Queiroz,

Escrevo-lhe esta carta para contar-lhe sobre o mundo desde que o senhor nos deixou fisicamente e, em especial, para relatar como o seu legado, materializado na UNIFOR, colidiu com a minha existência de forma transformadora. Escrevo com a sensibilidade que me cabe, ciente de que, embora o meio acadêmico exija formalidade, a poesia se esconde na simplicidade e no ordinário dos dias “comuns”. Faço-o por ter em mim a certeza de que nosso mundo foi construído por almas inconformadas que, tal como o senhor, não aceitaram a realidade como ela se apresentava e decidiram moldá-la com coragem, integridade e sabedoria.

Começo contando-lhe sobre o mundo. Desde 1982, quando choramos a sua partida, assistimos a episódios de uma barbárie que o senhor dificilmente reconheceria. Vimos o ódio e a maldade que o ser humano é capaz de perpetrar em sua ganância e na busca desenfreada por poder. Não que a ambição e o poder sejam ruins por si só — afinal, todos nós sonhamos em transformar o mundo, inclusive a própria pessoa que vos escreve, mas aprendi que é preciso ambicionar ganhar o mundo pelo bem e pelas boas obras. Nessa perspectiva, testemunhamos o impensável: o ataque às Torres Gêmeas em 2001, o coração do poder ocidental sendo ferido por um terrorismo que mudou nossa percepção de segurança e liberdade. Depois, vimos o ressurgimento de extremismos polarizados, a ascensão da China confrontando as antigas potências e a Rússia mergulhada em uma guerra de desgaste que ecoa não só no seu território, mas em todo o mundo.

Atualmente, vivemos a era da “compressão espaço-tempo”, como cunhou David Harvey. A globalização, a promessa de um mundo sem fronteiras, nos diz que podemos chegar a qualquer lugar, mas, ironicamente, nunca estivemos tão isolados. O senhor, que valorizava a comunicação real, talvez se espantasse com a liquidez dos nossos dias: um mundo em que as telas do TikTok e a estética do “instagramável” ditam o valor de uma vida, muitas vezes ocultando corações vazios atrás de filtros de perfeição. Em 2020, atravessamos uma pandemia global que nos confinou por um ano dentro de casa e, entre perdas e lutos, redescobrimos a solidariedade como nossa única vacina, mas também notamos o abismo de afeto que nos separa em um mundo de aparências.

No Brasil, em 1988 promulgamos a “Constituição Cidadã”, o alicerce que deu voz aos desamparados e dignidade ao povo. A justiça brasileira passou a enfrentar suas feridas abertas com leis que o senhor aprovaria: a criminalização do racismo, a proteção da mulher através da Lei Maria da Penha e o combate severo ao feminicídio. A educação tornou-se uma possibilidade de ascensão social e o Exame Nacional do Ensino Médio democratizou as salas de aula, permitindo que o filho do operário e o filho do doutor partilhassem o mesmo saber, em uma luta contínua, ainda inacabada, para diminuir as desigualdades históricas de nossa terra.

O seu Ceará acompanhou essa evolução e transformou-se em um gigante. Consolidamos nossa Região Metropolitana e nos tornamos um hub tecnológico e logístico de escala mundial. O Porto do Pecém é hoje uma realidade pulsante que conecta o Brasil ao mundo. No sertão, em Santa Quitéria, o urânio move a economia, e em Russas, a agricultura irrigada faz brotar uvas em pleno semiárido cearense. Somos o 2º maior PIB do Nordeste, pioneiros na produção de Hidrogênio Verde e referência em educação, com destaque para UNIFOR, exportando talentos para o mundo e recebendo, em solo cearense, uma sede do ITA.

Entretanto, apesar de todos esses avanços, ainda há muito a mudar, ainda precisamos lutar! Em especial, destaco o papel do Direito, meu curso, que ainda é uma ciência em disputa, pois lutamos diariamente contra as feridas abertas do racismo estrutural e do feminicídio. Hoje, temos leis fortes como a Lei Maria da Penha e a tipificação do racismo como crime inafiançável, mas a academia e os tribunais precisam de pessoas sensíveis para aplicar essa letra fria com humanidade. A minha geração de juristas não pode se contentar com o “sempre foi assim”. Precisamos de um Direito que proteja a mulher, que acolha a diversidade e que seja, de fato, um instrumento de combate à exclusão.

Encerro falando da sua Universidade e do quanto ela mudou a minha vida. Confesso que inicialmente eu resisti. Entrei aqui em curso que achei que não era para mim, vivendo o luto de uma trajetória que não trilhei e as sombras de uma depressão que roubava as cores do meu mundo. Mas a UNIFOR tem um brilho próprio que atravessa as névoas da alma. Foi através do seu legado que descobri quem eu realmente sou. Ao longo das aulas, dos eventos promovidos pela universidade, da extensão universitária e da pesquisa cientifica, o Direito, que antes era uma obrigação, tornou-se minha voz e a UNIFOR a minha casa.

A UNIFOR me deu um propósito. A sua coragem em fundar esta instituição permitiu que eu descobrisse a minha própria força. Ela me ensinou que a justiça sem sensibilidade é apenas burocracia. Graças à sua audácia em fundá-la, eu posso ocupar meu lugar no mundo e ajudar a transformá-lo. Sou profundamente feliz por fazer parte deste legado.

Muito obrigada por ter persistido e enfrentado os obstáculos, porque hoje eu posso ambicionar ganhar o mundo pelo bem, pelo trabalho e pelas boas obras. Prometo que nós daremos continuidade ao seu legado, eternizando seu sonho em cada vida que mudarmos.

Com muita gratidão,

Maryane Hasse Figueira