Neyara Furtado Lopes

Caro Sr. Edson,

Finalizar essa trilha e não sair profundamente mexida com sua história é impossível. Subi a Serra da Aratanha, como boa trilheira que sou, em busca de ar puro e um banho de cachoeira, mas, no meio do caminho, encontrei rastros daquela noite, marcas de onde o Boeing 727 passou, pedaços de fuselagem, histórias encerradas. Um pouco mórbido? Talvez.

Fiquei imaginando se, naqueles minutos em que se perdia altitude, o senhor poderia imaginar o legado que o seu nome deixaria. Depois daquela noite de angústia, medo e muita dor, a Dona Yolanda se transformou em uma muralha, mulher forte que ensinou aos meninos que o que eles tinham em mãos não era apenas uma herança, mas um propósito empresarial e social.

Falando nos meninos, seus netos, talvez para o senhor eles sempre sejam as crianças correndo pela casa, mas, nesse tempo, eles cresceram diante de grandes desafios. As empresas precisaram ser modernizadas, atravessamos crises geopolíticas e enfrentamos uma pandemia. Da noite para o dia, precisamos ficar em casa e os processos tiveram que se reinventar.

O senhor de lembra da Unifor? Hoje ela é referência em ensino; muitos profissionais renomados estão saindo de suas salas de aula. Se o senhor soubesse o futuro que eles estão construindo, com certeza estaria sorrindo de orgulho. Queria poder trazer o senhor ao campus, mostrar a área verde, comer pipoca amanteigada e apresentar-lhe aos animais, eles são uma graça! As Emas são as minhas favoritas, mas é um segredo só nosso, que os macaquinhos não escutem.

O parque tecnológico expandiu; além do ensino, somos referência em comunicação, estamos sempre à frente, buscando notícias e deixando o cearense bem informado. Olha, se o senhor soubesse o tanto de coisa que aconteceu…

O Brasil mudou muito nesses anos. Tivemos a nossa tão sonhada redemocratização e, em 1988, nossa Constituição Federal foi promulgada. Os presidentes deram um pouco de trabalho, tivemos impeachment, elegemos a primeira mulher presidente, o país se polarizou. O brasileiro precisou se reinventar diante de tantos acontecimentos, mas, no fim, sempre damos um jeito, afinal não desistimos nunca.

Ah, como eu iria esquecer, a União Soviética deixou de existir, o Muro de Berlim caiu, os Estados Unidos sofreram um ataque terrorista e elegeram o primeiro presidente negro da história. Hoje, ainda estamos passando por algumas guerras, conflitos antigos… Fico me perguntando: será que ainda vamos aprender, de fato, o significado da paz?

No futebol, o Brasil virou penta, sediamos uma Copa do Mundo, tivemos alguns jogos no nosso amado Castelão, que foi todo reformado e modernizado, é emocionante sentir a torcida vibrando. Hoje somos medalhistas olímpicos em várias modalidades, algumas que não eram nem famosas na sua época, como marcha atlética e skate. Nossos atletas são sensacionais!

E não foi só o Castelão que se modernizou, nossa cidade maravilhosa cresceu, tivemos uma expansão urbana acelerada e um processo de verticalização imobiliária, novos sonhos surgiram e novas rotas foram traçadas. Agora ganhamos programas de mobilidade, temos corredores de ônibus, ciclofaixa e até mesmo um VLT. Quem poderia imaginar que estaríamos indo trabalhar de patinete compartilhado? Agora temos aeroporto internacional e viramos polo de inovação e economia criativa. Nossa economia deu um salto, no Pecém foi construído o complexo Industrial e Portuário, além da Siderúrgica.

Tivemos a expansão da energia eólica e solar, e os avanços em hidrogênio verde. Seu nome continua abrindo portas. Lembra quando a população tinha medo do gás de cozinha? Agora ele é parte indispensável na vida doméstica.

Claro que todas essas novidades impactaram diretamente nas empresas, cada decisão era pensada e analisada com cuidado e disciplina, mas sempre tinha a reflexão “O que será que Seu Edson iria fazer?”. Você sempre foi um ponto norteador em todos esses anos. Um empreendedor visionário, que antes dos 20 anos já estava assumindo papéis administrativos na empresa da família, tendo Seu Genésio como sócio na Loteria Estadual de Fortaleza e depois na de Pernambuco. Você se tornou referência no fortalecimento da indústria local e nacional, transformando paradigmas econômicos e sociais.

Tenho certeza de que o senhor teria muito orgulho do que o Grupo Edson Queiroz é hoje, no que Dona Yolanda e os meninos construíram, a expansão e o fortalecimento do seu legado. Você sempre esteve presente no dia a dia das empresas e da família, não apenas em placas em sua homenagem, ou em sessões solenes, mas como um guia iluminando essa caminhada, porque falar de você não é apenas falar sobre empreendedorismo, mas falar do povo cearense: o que constrói, o que sonha e o que permanece.

Com carinho de quem atravessa o tempo,

Neyara Lopes